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É eleição! Época de subir o morro. E, para além, o que será?

Por Eliane de Fátima Camargo

Maria das Graças via gente

Falando de luz, de poesia e outras coisas

Que ela não entendia ,

mas o que ela realmente não compreendia

Era por qual motivo essa gente versada e iluminada

Não usava o verbo para denunciar

e acabar com a fome e as injustiças,

afinal quem ouviria Maria?[1]

Não por acaso, este poema abre o meu texto de hoje. Ele chama a atenção para as desigualdades que estão escancaradas ao nosso redor, mas, muitas vezes preferimos virar o rosto para não ver. Quando a autora questiona: Afinal quem ouviria Maria? Ela me faz refletir nas tantas Marias que são silenciadas diariamente pela violência, pela fome e por muitas outras opressões.

Assim como este poema, uma lembrança martela minha cabeça; a fala de um professor, destes muito críticos e humanos, que fazendo a leitura de um dos meus primeiros textos, me retornou dizendo: – Muitas vezes escrevemos coisas, para esconder o que é realmente importante .O problema não é sobre o que se fala, mas sobre o que é silenciado – A verdade minha gente, é que nos apegamos tanto na realidade imaginária, ou em nossa vida “perfeita/poética” que  silenciamos, e deixamos de falar do óbvio, da realidade desigual. Parafraseando Clarice Lispector, o óbvio é ainda mais difícil de ver. Pensar o óbvio, se tornou necessidade urgente, ainda mais neste momento, quando a política nacional se entrelaça com ideais fascistas.  

A minha escrita é o que tenho, é minha luta, é só o que sou. E, é só com ela que a minha voz pode ser ouvida. Por isso, as linhas que se constroem neste texto, não são literárias, não são poéticas, são apenas a descrição da realidade. Um eco da realidade dura de muita gente, que não tem espaço de fala. De pessoas que são tematizadas, mas não são ouvidas.

Moro no município de General Carneiro-Pr, apesar de muitos acharem que ele é pequeno, o município tem uma extensão territorial[2] que é maior que o município vizinho: União da Vitória e maior que a capital paranense. O problema é que as terras encontram-se divididas entre um pequeno número de pessoas: A Elite do lugar. É com tristeza que também digo, o município segundo dados do IBGE e Mapa da Pobreza[3] está entre os mais pobres do Paraná.

Resido em um bairro, desses que gente rica só pisa em época de eleição – Sim! Sou uma mestranda que mora na periferia – Em épocas como esta, as pessoas se dão conta que o bairro existe, e assim saem do conforto de suas casas e sobem o morro. É só assim que somos vistos: como possibilidades de voto ou para servir a elite. Me lembro de uma vez que uma pessoa me disse: – Não tenho preconceito com o bairro, eu até tenho uma empregada que mora lá – Se esta frase não escancara o preconceito velado e opressor, então, o que seria preconceito?

As desigualdades são machucados abertos, destes que o beijo da mãe não consegue curar. Ferida que de tanto que dói, acostumamos. Achamos que ela já faz parte de nós, por isso paramos de reclamar. Eis o poblema, silenciar a dor, parar de gritar, parar de lutar. Os silenciamentos são gritos que um dia nos disseram: – Deixa pra lá, não é preciso dizer, pois ninguém vai ouvir – E o que fazemos com nossos gritos silenciados?

General Carneiro parece que parou no tempo, na época em que os coronéis comandavam. Devo dizer, muitas famílias “bem vistas” neste lugar, assim como a maioria das elites brasileiras, enriqueceram as custas do trabalho escravizado[4] ou pela posse indevida de terras. Mas estas não são chamadas de ladras, e sim pessoas de “bem”.

A política aqui, segue a norma da politicagem de picadeiro, dessas que caminhões passam nas ruas com músicas escandalosas, falando mal do outro candidato. Ou ainda, mais cruel, quem pensa diferente e se rebela, é ameaçado.  É como Freire nos diz:

Para as elites dominadoras , esta rebeldia, que é ameaça a elas, tem o seu remédio em mais dominação – na repressão feita em nome, inclusive, da liberdade e no estabelecimento da ordem e da paz social que, no fundo, não é outra senão a paz privada dos dominadores.[5]

Temos alguns candidatos que não respeitam a privacidade do outros, saem por aí tirando fotos, fazendo vídeos sem ao menos consultar as pessoas se querem ou não aparecer. Uma política suja, uma falta de respeito. Que ironia! nunca nos respeitaram, por que é que iriam fazer isso agora?

Não temos hospital, falta emprego para o povo. Trabalhar dentro do município tornou-se artigo de luxo. Muitas pessoas se veem obrigadas a irem embora para outros lugares, em busca de uma vida melhor. As que ficam, se viram como podem. Grande parte trabalha em colheitas em cidades vizinhas. Muitas passam mais horas dentro de um ônibus, do que nas próprias casas. – Pessoas que são muito guerreiras. Aliás são estas que deveríamos aplaudir, por elas que devíamos brigar e não por políticos.-

Enquanto professora de Filosofia e Sociologia, sempre discuto com meus estudantes a importância que a política possui, pois as decisões, as leis que os governantes fazem, interferem diretamente em nossas vidas. Para exemplificar isto, é só darmos uma volta no supermercado,  a inflação está nas alturas! Quem diria, o arroz passou a ser alimento aburguesado.

Todavia, quando falo em política, não penso na atitude vergonhosa que muitos candidatos e candidatas fazem nesta época, desrespeitando o povo. Mas, a política que pensa com o povo; sobre suas necessidades, sobre suas urgências. Esta que busca uma afirmação dos direitos humanos. Uma política humanizadora! É sobre esta, que faço a defesa.

Por fim, devo dizer a vocês, tenho alguns desejos, os quais me parecem cada vez mais com esperanças utópicas. Eu gostaria muito que os políticos aprendessem realmente o sentido das palavras: Política e Democracia. Compreendessem que o espaço público, não é uma extensão das suas casas, de suas ideias religiosas ou da afirmação de seus preconceitos. Mas é um espaço laico, comunitário; de construção coletiva. E, portanto, mais do que qualquer coisa, é preciso que  tenham compromisso social.


[1] Trecho retirado do poema: Maria das Desgraças da autora Bruna Domingues – lattes: http://lattes.cnpq.br/6794757901295304.

[2] General Carneiro-Pr possui área territorial de 1071,183 Km², União da Vitória, com área territorial de 719, 998 Km² e Curitiba 435, 036 Km². (Fonte: IBGE)

[3] (SECAF, 1997)

[4] Como mostra algumas reportagens sobre o assunto, como por exemplo: “Trabalho análogo no sul do estado” disponível em: https://www.tribunapr.com.br/noticias/parana/trabalho-analogo-ao-escravo-no-sul-do-estado/

[5] FREIRE, Paulo. Pedagogia do oprimido, São Paulo. Editora: Paz e terra. 2019,p.92.

Eliane de Fátima Camargo, Graduada em Filosofia e Sociologia. Mestranda em Filosofia. Feminista. Colunista do Factótum Cultural.

Os artigos publicados, por colunistas e articulistas, são de responsabilidade exclusiva dos autores, não representando, necessariamente, a opinião ou posicionamento do Factótum Cultural.

2 comentários em “É eleição! Época de subir o morro. E, para além, o que será? Deixe um comentário

  1. Olá Companheira, comungamos das mesmas idéias, parabéns por expressa las desta maneira.
    Aproveito para dizer que é comum nesta época as pessoas destorcerem nossas idéias e propostas, recentemente falei que aquela região na beira da BR 153 precisa ser revista como importante área comercial, inclusive rever as cessões de uso ou doação por parte do município, pasmem! As pessoas de um determinado grupo político tiveram a capacidade de dizerem e inclusive fazerem figurinha afirmando que o futuro vereador iria invadir lotes…nosso município, estado e Brasil precisa ser revisto urgentemente. Forte abraço

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    • Fico grata pela leitura Celio! Infelizmente ainda precisamos caminhar muito para aprendermos a fazer uma política limpa. A realidade é muito cruel mesmo. Mais uma vez, gratidão pela leitura. Abraços!

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