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Tchernichévski: é possível uma revolução?

Por Paulo Cesar Jakimiu Sabino

O marxismo é a revolução na filosofia"

Joseph Frank, famoso biógrafo de Dostoiévski, certa vez chegou a afirmar que se perguntássemos a alguém do Ocidente qual é o maior livro da literatura russa, provavelmente esse alguém responderia um romance do “poderoso triunvirato”, de Dostoiévski, Turguêniev ou de Tolstói. Mas se a mesma pergunta fosse feita para um russo, a resposta seria unânime: O que fazer? de Nikolai Gavrilovich Tchernichévski. A obra até inspirou o escrito homônimo de Lênin. Para a revolução russa, foi tão importante quanto O Capital de Karl Marx[i].

É curioso que um autor desse calibre não tenha recebido apropriado reconhecimento. Tchernichévski foi o principal influenciador da intelligentsia revolucionária da segunda metade do século XIX russo, período em que grupos radicais como o Narodnaia Volia atormentavam o regime czarista. Posteriormente, bolcheviques e mencheviques iriam discutir sua obra, seria um dos principais intelectuais nos círculos soviéticos. Curiosamente, embora tenha contribuído muito para a revolução no âmbito teórico, de maneira “prática” pouco conseguiu fazer – mas não sem motivos. Em 7 de julho de 1862, nosso pensador foi preso sob circunstâncias muito duvidosas. Afinal, como todo bom intelectual, seu pensamento permanecia sob constante vigilância do Estado. Porém, mentes criativas vingam na adversidade. A literatura russa já era o principal meio de desenvolver ideias, e diferente da linguagem científica de historiadores e filósofos, o poeta tem mais recursos. De dentro do cárcere ele escreveu O que fazer? – esse romance não era apenas revolucionário, também pregava a revolução, mas fazia com metáforas. A censura certamente deveria bani-lo – contudo, se as mentes criativas são extraordinariamente inteligentes, as que censuram são proporcionalmente burras. O livro foi aprovado por dois censores, e após seu editor perder o manuscrito, este foi recuperado em um posto policial.

O romance conta a história daqueles que Tchernichévski denominou de “Nova Gente”, indivíduos esclarecidos que enfrentavam os costumes e estruturas sociais tradicionais seguindo os ditames da razão. Inicialmente, um livro que nada tem de revolucionário, exceto pelo evidente feminismo de sua protagonista, Vera Pavlovna. Era uma mulher forte e dedicada, que não dependia em nada do marido, fundou um ateliê de costura conforme as regras do socialismo – e preciso advertir ao leitor que socialismo aqui não tem relação com o marxismo, pois nosso autor era influenciado pelo socialismo francês, que mais tarde Marx designaria como utópico. Todavia, esse não é o cerne do romance; que para Tchernichévski o socialismo era o modelo ideal, era certo, mas ele não estava interessado em pensar como deveria ser o socialismo, lhe interessava efetivá-lo.

Contrariado pelas desilusões reformistas do século XIX, Tchernichévski não enxergava em princípios reformadores um meio de instaurar sua “sociedade ideal”. Para ele era preciso ser radical; se impunha diante de tais circunstância a revolução. Eis que o romance apresenta Rakhmetov, talvez um dos – senão o principal – personagem da obra. Rakhmetov é o que podemos chamar de “revolucionário profissional”. Ele passou a se dedicar exclusivamente à causa – este é o termo utilizado para se referir à revolução, pois tal palavra era proibida – e passa a ser uma espécie de mentor da “Nova Gente”. Mas ele era diferente, enquanto a “Nova Gente” era esclarecida, ele não apenas conhecia toda a parte teórica como dedicava-se à prática. Para isso, adotava hábitos peculiares: dormia sobre uma cama de pregos, pois assim saberia se suportaria a dor no porvir, exercitava-se e comia muita carne para fortalecer-se, mas, o mais impressionante, é que ele negava qualquer prazer. Admitia, com culpa e vergonha, se permitir fumar alguns charutos sem os quais não poderia pensar, excetuado vergonhoso prazer, de resto sua vida era levada de modo muito semelhante aos dos mais simples camponeses: se em uma região da Rússia o povo pobre não pudesse comer tangerinas, ele também evitaria, pois, segundo sua letra, queria sentir, pelo menos em parte, as dores do povo.

Essa atitude pode ser associada ao “voto de pobreza” que muitos liberais exigem dos socialistas. Mas devo alertar o apressado rebanho: isso nada tem a ver com as teses de Marx. Como já mencionei, seu socialismo não era marxista. Além disso, o que Tchernichévski parece explicitar, mediante seu personagem, é que uma revolução jamais é realizada com simples e pura teoria: é preciso de um móbile sensível, um sentimento que impulsione para a luta. Revolução é mais um páthos do que um éthos, ou, em palavras mais simples, a lógica teórica-racional se faz presente, mas não se efetiva sem a paixão. Ora, o revolucionário de Tchernichévski sabe bem das dores de sua luta política – mais penosas que a dor de um prego perfurando suas costas – assim como tem consciência de seu custo psíquico e físico. A revolução é linda enquanto uma imagem transformadora do mundo, mas pode ser assombrosa quando observada pelas lentes da história concreta: tantos morrem por suas causas, lutadores que voltaram às suas famílias em caixões – alguns sequer voltam. A luta política não deve ser romantizada e atenuada com esteticismos vulgares. Tchernichévski quer demonstrar que se o revolucionário não for treinado fisicamente, preparado intelectualmente e sensível às dores que acompanham sua luta, a revolução não passará de mero devaneio. Sem a empatia pelos oprimidos, não há revolução, Rakhmetov não faz voto de pobreza: ele apenas quer se lembrar do sofrimento do povo a fim de enfrentar seu destino. Não se pergunta “o que fazer?” sem ter uma resposta na ponta da língua.

É certo que revolução é algo grande e específico. O passado recente “apenas” nos mostrou revoltas e manifestações. Mas a ideia cabe aqui. No Brasil, tivemos algumas lutas nas ruas para chamar de nossa. Em uma das mais recentes, a falta de esclarecimento de alguns “jovens rebeldes” cegou todos a ponto de não percebermos que reivindicávamos algo que nos custaria muito mais – custou um Estado democrático. Por isso não é elitismo de Tchernichévski a necessidade de um “revolucionário profissional”. Em outros países da América Latina também há o enfrentamento de forças entre opressores e oprimidos, e tudo nos leva a crer que irão interromper regimes cruéis. Alguns esperam que o mesmo possa acontecer no Brasil, desta vez com a orientação correta. Me pergunto se isso é possível. Pois entre a melancolia dos intelectuais e a miséria dos oprimidos, nós perdemos aquela empatia necessária que impulsionava à luta. Talvez chegaremos a uma nova revolta, mas a revolução é ainda distante. Diante dessa abissal separação, restará ao intelectual, após discorrer sobre sua teoria, pronunciar um ordinário “amém”. As lutas atuais são sintomas de descontentamento daqueles que dormem numa cama de pregos, mas nem todos compartilham deste leito. Afinal de contas, Rakhmetov pode muito bem ter sido só um sonhador e uma utopia tchernichevskiana: quem não é oprimido, mas quer sentir a opressão, pode fazê-lo com a garantia de livrar-se dela a qualquer momento – e quem não é oprimido, mas luta, pode vir a ser um simples fantoche de uma ideologia perversa.


[i] Me refiro ao ensaio “Nikolai Tchernichévski: Uma utopia ruissa” do livro Pelo prisma russo. Caso leitor se interesse pode conferir em: FRANK, J. Pelo prisma russo. Tradução de Paula Cox Rolim e Francisco Achcar. São Paulo: Edunesp, 1992.

Paulo Cesar Jakimiu Sabino, Mestre em Estética e Filosofia da Arte pela UFOP e doutorando em Filosofia na UFPR. Entusiasta de literatura russa. Colunista do Factótum Cultural.

Os artigos publicados, por colunistas e articulistas, são de responsabilidade exclusiva dos autores, não representando, necessariamente, a opinião ou posicionamento do Factótum Cultural.

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