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Flechas ao vento: a humanidade que pensamos ser

Por Pâmela Bueno Costa

O contrário da vida não é a morte,

mas o desencanto.

As flechas voam para desassombrar o medo

e encantar o mundo. [1]

Ao pensar sobre as pedrinhas miudinhas que nos constituem como humanos, demasiados humanos. Lançamos uma flecha, como afirma Rafael Haddock Lobo: “pensar com uma flecha só é, nesse sentido, saber o momento para o lance, nem na pressa nem no atraso, mas sim, a demora necessária para que o momento seja aproveitado em sua máxima potência”[2]. Caminhando, seguimos em passos lentos, sem pressa. É preciso, pois, desacelerar o pensamento! Essa escritura é um lançar-se ao pensamento e experimentar, acompanhar o voo e contemplar a queda –  cada flecha atirada emana um poder de transformação.

 O Atlântico é uma gigantesca encruzilhada  e as flechas que serão lançadas são de Ailton Krenak. Suas narrativas que ecoam  trazem ideias para adiar o fim do mundo. Ao pensar sobre encruzilhadas, as vozes de Simas e Rufino ecoam: “nós que somos das encruzilhadas, desconfiamos é daqueles do caminho reto”(SIMAS, RUFINO, 2018, p. 24).  Uma linha reta não sonha[3], são as encruzilhadas os lugares de encantamento. Pensando nisso, é nesse movimento de cruzo, de contato com o visível e o invisível, que me permite dizer que o Brasil que encanta é o que escuta todas as vozes. E é nas encruzas, que sempre  encantaram-se e espantaram-se homens, mulheres e crianças. No voo da flecha, penso, logo avuo. O melhor do mundo é avuá.

Onde céu não é limite

É coragem, impulso pra prosperar

Fiz o impossível de onde eu vim

Trago cura pro que já me fez sangrar[4]

Brasil, um país indígena, que não ouve,  não conhece seu povo e suas histórias encantadas. Que afirma o epistemicídio cultural do projeto colonial. No exercício de escuta,    uma coisa que aprendi com o ambientalista e ativista brasileiro  é que é importante viver a experiência da nossa própria circulação pelo mundo. E nessa gira, ouvimos Ailton Krenak “ é preciso aprender a cair”. Aprender a voar e a cair. Viver com o espírito da floresta, experimentar o prazer de estar vivo, de descansar, dançar, de cantar.  Suas ensinanças é que sempre é possível adiar o fim do mundo, de que maneira? “Sempre podemos contar mais uma história. Se pudermos fazer isso, estaremos adiando o fim do mundo”. Aprender a fazer paraquedas coloridos, despencando com as cores de oxumaré – orixá do arco-íris encarregado de suprir o Orum com água. Existem várias formas de cosmovisões, no entanto, nos é ensinado que existe apenas uma correta e soberana. O colonialismo mata os saberes, mata a humanidade de outros, por isso, quando a flecha de Krenak é lançada,  grita que urge. A flecha atirada nos convida  a olhar e aprender para além do paradigma dominante. A olhar para o chão que sustenta nosso povo. Como afirma, é suspender o céu, não em um sentido poético, mas sim, ampliando os horizontes, de maneira existencial, enriquecendo as subjetividades,  pois, somos plurais, como constelações. E existem muitas possibilidades de pensarmos o cosmos. O que é a humanidade? Que humanos pensamos ser? Existe uma humanidade que escuta, cheira, inspira – “insistem em ficar fora  da dança civilizada, da técnica, do controle do planeta” (KRENAK, 2020. p. 70). São esquecidos, mas que permanecem agarrados à terra e em suas bordas. Aqueles que sabem apreciar o sono do rio, aqueles que abraçam as árvores e os pássaros – na África, na Ásia ou na América Latina. Quem  eles são? Os caiçaras, os índios, quilombolas, aborígenes, considerados por muitos como a sub-humanidade. Não existe uma humanidade homogênea. Somos plurais! Krenak nos ensina que devíamos admitir a natureza como uma imensa multidão de formas, incluindo cada pedaço de nós, saber contemplar  e amar a natureza. Aprender a lição do sono do rio é um bom exemplo para transver nosso modo de ver o mundo. Você deve estar se perguntando, o que essa história deve ensinar, não é mesmo?

Reza a lenda que o rio  São Francisco, na hora grande da meia-noite, dorme durante dois minutos. “É a hora em que a vida vadeia e o mundo se recolhe: as cachoeiras interrompem a queda, a correnteza cessa e até Paulo Afonso silencia” (SIMAS, 2013, p.18). Os ribeirinhos aprendem, dessa forma, que não se deve acordar o rio durante o seu sono. Aprendem a cuidar e amar a natureza. Desacelerar, pois é preciso! Respirar. Em tempos de pandemia, de trabalho remoto,  são apenas dois minutos de sono do rio, “os peixes se aquietam, as cobras perdem a peçonha e a mãe d’água se levanta para pentear os cabelos nas canoas”. É importante destacar que o  sono do rio não deve ser, de maneira alguma, interrompido, justamente porque pode endoidecer quem  o despertou. Em tempos tão sombrios, sem tempo de descanso, em que estamos sempre conectados, o tempo nos esmaga, viramos senhores e escravos de si mesmos[5]. E como afirma Nietzsche, por falta de repouso, a civilização caminha para a barbárie, e o homem, recém-inaugurado no século XXI, torna-se cada vez mais explorador de si mesmo e dos outros homens[6]. Estamos adoecendo, por não compreender que é preciso “ vadear e recolher”, adormecer feito o rio ao abandono das horas! No ritmo frenético, de um sistema esmagador, foi criada a ideia de uma humanidade, aquela que, “ o homem é a medida de todas as coisas” e nesse sentido, superior.

Todavia, é  preciso romper com essa lógica, desaprender o que foi ensinado como única forma. É na diversidade que conseguimos transver o mundo. Aprender com os povos originários, com todas as vozes! Por fim, sem esgotar as flechas: “ter diversidade, não isso de uma humanidade com o mesmo protocolo. Porque isso até agora foi uma maneira de homogeneizar e tirar nossa alegria de estar vivos” (KRENAK, 2020. p.33).

 Referências:

KRENAK, Ailton. Ideias para adiar o fim do mundo. São Paulo: Companhia das Letras, 2020.

LOBO-HADDOCK, Rafael. Por uma filosofia das matas. Hhmagazine: humanidades em rede. Minas Gerais: UFOP, 2019.

SIMAS, Luiz A. Pedrinhas miudinhas: ensaios sobre ruas, aldeias e terreiros. Rio de Janeiro: Mórula, 2013

SIMAS, RUFINO. Fogo no mato: a ciência encantada das macumbas. Rio de Janeiro: Mórula, 2018.

____________. Flecha no Tempo. Rio de Janeiro: Mórula, 2019.


[1] SIMAS; RUFINO, Fecha no Tempo. 2019, p. 03.

[2] HADDOCK-LOBO, Rafael. Por uma filosofia das matas. Hhmagazine: humanidades em rede. Minas Gerais: UFOP, 2019, s/p.

[3] Inspiração em Barros M. Livro sobre nada. Rio de Janeiro: Record; 1996 – A expressão reta não sonha.

[4] Emicida, Evandro Fióti, Drik Barbosa, Emicida, Coruja BC1, Rael, Kamau, Avuá, 2017. Disponível em: https://www.letras.mus.br/emicida/avua/

[5] Reflexão a partir da Sociedade do Cansaço de Byung-Chul Han, 2015.

[6] Análise encontrada na resenha de Costa & Noyama. A sociedade do cansaço: Byung-Chul Han e o diagnóstico da condição do homem no século XXI. Ensino & Pesquisa, v.15, n. 4 (2017), 310-315. p.311.

Pâmela Bueno Costa, professora de filosofia na rede estadual e particular de ensino – SC. Graduada em Filosofia. Pós-graduada em Ensino da Filosofia. Mestre em Ensino da Filosofia PROF-FILO. Cursando terceiro ano de Letras: Português/Espanhol (UNESPAR). Ilustradora amadora e aprendiz de aquarela. Colunista do Factótum Cultural.

Os artigos publicados, por colunistas e articulistas, são de responsabilidade exclusiva dos autores, não representando, necessariamente, a opinião ou posicionamento do Factótum Cultural.

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