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‘Vai pro inferno!’ Mas qual? Conheça as origens do diabo e do ‘lugar ruim’

Pôster de ?A casa que Jack construiu? (2018), o cineasta Lars Von Trier recria o inferno de Dante e traz Matt Dillon e Bruno Ganz como versões de Dante e Virgílio. A cena foi inspirada em um quadro de Eugène Delacroix - Divulgação
Pôster de ?A casa que Jack construiu? (2018), o cineasta Lars Von Trier recria o inferno de Dante e traz Matt Dillon e Bruno Ganz como versões de Dante e Virgílio. A cena foi inspirada em um quadro de Eugène Delacroix
Imagem: Divulgação

O pensador francês Jean-Paul Sartre dizia que o inferno são os outros, mas antes disso, a ideia do inferno como um subterrâneo de chamas ardentes, governado por seres do mal e o próprio Satã, já havia se estabelecido no imaginário popular.

Engana-se, porém, quem acha que foi a Bíblia que introduziu esse conceito à cultura ocidental. As origens datam de muito antes do surgimento das letras gregas e latinas. Foi com a intenção de explorar essas raízes que um time de especialistas passou a oferecer a disciplina “Representações do inferno: de Homero aos contemporâneos” no curso de pós-graduação em Estudos Literários da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo).

Desde quando se fala em inferno? O conceito de “outro mundo”, antes mesmo de ser nomeado assim, era explorado a partir da ideia da viagem ao mundo dos mortos. Na “Odisseia” (século 7 a.C.), há a menção à katábasis de Ulisses no canto XI. No livro VI da “Eneida” (século 1 a.C.), também acompanhamos o descensus de Eneias. Parece que, nas duas obras, a inspiração foram registros mesopotâmicos do século 21 a.C.

No romance 'Fim da Infância', adaptado para a TV a Terra é invadida por alienígenas que se assemelham ao diabo cristão - Reprodução - Reprodução
No romance ‘Fim da Infância’, adaptado para a TV a Terra é invadida por alienígenas que se assemelham ao diabo cristão. Imagem: Reprodução

E o que era o lugar dos mortos? No poema mesopotâmico “Ana Kurnugê, qaqqari la târi” (“Ao Kurnugu, terra sem retorno: descida de Ishtar ao mundo dos mortos”), traduzido do acádio para o português por Jacyntho Lins Brandão, em 2019, o mundo dos que partiram é um “lugar de inanição, reclusão, silêncio e escuridão, do qual ninguém pode retornar”, explicam os professores da Unifesp.

Mas o que acontecia lá? Ao descer no submundo, Ishtar provocou um abalo cósmico e causou o fim do ciclo de renovação da vida que se dá por meio da fecundação. Em outras palavras, a condição própria dos mortos (a impossibilidade de procriação) se estendeu aos vivos, afetando, inclusive, a tranquilidade dos deuses. Aos nossos olhos, calcados na cosmologia cristã, em que há uma separação entre o mundo sensível e o transcendental (isto é, o plano divino e o plano mortal), o poema pode parecer estranho, mas ele traz à tona algo que ainda aparece na literatura, nas artes e na religião, até hoje.

E o inferno, onde é que entra? A ideia de um lugar ruim, para onde serão levados os que foram maus em vida, é fruto de um intenso sincretismo de ideias e concepções religiosas anteriores ao surgimento do cristianismo — especialmente o Zoroastrismo, religião dualista da região da Antiga Pérsia. Guiados por Nabucodonosor, os babilônios foram parar em Jerusalém (587 a.C.), onde realizaram saques, destruíram o templo e deportaram parte da população local. Nesse período, israelitas vivendo na Babilônia tiveram contato com diferentes lendas e tradições mesopotâmicas, como as encontradas na “Epopeia de Gilgamesh”. Na obra, o mundo dos mortos é descrito como um reino de pó e das trevas, o que lembra a caracterização do Sheol judaico, apresentado como uma grande tumba cavernosa situada nas profundezas da Terra.

Mas “mundo dos mortos” é inferno? A partir desse momento, não. Segundo os professores do curso da Unifesp, antes do exílio babilônico, os judeus provavelmente não concebiam uma divisão entre céu e inferno. Só depois alguns deles passaram a crer na ideia de um juízo final, defendido principalmente pelos fariseus (nome dado a um grupo de judeus surgido no século 2 a. C. que defendia a Torá, os ensinamentos contidos nos cinco primeiros livros da Bíblia). O Zoroastrismo influenciou fortemente o judaísmo no que se refere a ressureição, juízo final, a vinda de um Messias e a dualidade e luta entre o Bem (Aúra-Masda) e Mal (Arimã). A doutrina sobre a divisão entre os bons e os maus após a morte, e até de uma espécie de purgatório (entre os zoroastristas, “Hamestagan”) para os que cometem bons e maus feitos, também vem daí.

Essa é a ideia que os cristãos absorveram? Sim. O conceito de inferno como lugar de castigo é bastante delineado a partir do Novo Testamento bíblico, e de maneira ainda mais intensa nos textos apócrifos. Nos evangelhos e cartas dos apóstolos, aparece a ideia de um lugar de fogo, tormentos e de “choro e ranger de dentes”. O inferno também passa a ser associado à figura de Lúcifer, que, expulso do ambiente celestial, acabou se tornando o maior inimigo dos cristãos e o responsável por precipitá-los no fogo eterno.

Então ele é uma construção narrativa plural? Sim. Inferno e o demônio se tornaram assunto de interesse entre importantes autores cristãos na Idade Média, como São Jerônimo, Santo Agostinho e São Tomás de Aquino. Tentações do Maligno se tornaram lugar-comum nos textos hagiográficos que narram, em prosa e verso, a vida dos santos. Apesar de todo esse histórico, o escritor italiano Dante Alighieri (1265-1321) foi um dos primeiros autores a criar um quadro mais bem acabado do inferno. Isso, no entanto, só foi possível porque o escritor, de fato, revisitou obras e tradições variadas e sincréticas.

O diabo (interpretado por Luis Melo), em "O Auto da Compadecida" (2000) - Reprodução - Reprodução
O diabo (interpretado por Luis Melo), em “O Auto da Compadecida” (2000). Imagem: Reprodução.

Falando no diabo… Foi também nesse período que a figura do diabo se estabeleceu de vez, como mostra o historiador Robert Muchembled em “Uma História do Diabo” (2000). A partir do século 12, a figura continuou sendo aperfeiçoada aos olhares cristãos. Isso se deu porque a Igreja viu necessidade de criar figuras mais ou menos críveis e uniformes de Lúcifer, bem como centenas de outros seres que o sucedem na hierarquia infernal — que nada mais é do que uma herança do Hades grego e do Mundo Inferior latino, na Antiguidade.

Como ele ganhou chifres e rabo? Miscelânia explica. Gravuras e textos da Igreja acabaram criando uma estética específica da criatura do mal com cauda, chifres, garfo e características que dialogam também com o credo de povos pagãos, como celtas, latinos e nórdicos. “Buscou-se, com êxito, dar uma forma mais ou menos invariável a Satã e aos muitos nomes da legião demoníaca como alvo a ser combatido com maior energia e precisão pela fé, evitando a dispersão dos fiéis e o eventual enfraquecimento e perda de poder, prestígio, terras e dinheiro pela Igreja”, explicam os professores.

Como a cultura pop absorveu esse imaginário? Artistas como Black Sabbath, Iron Maiden, Marilyn Manson, ou mesmo filmes como “O Sétimo Selo”, “O Exorcista”, “O Bebê de Rosemary” ou ainda o recente seriado “Lúcifer” trouxeram maior “carnadura” ao diabo. Em outros casos, como no seriado “Chaves”, Satanás se torna o nome do cachorro da Bruxa do 71 — vira figura cômica, em vez de uma referência de pavor. “Esse estado de coisas permite dizer que tanto as figuras que pregam ‘o bem’ como as criaturas que, supostamente, induzem ao mal foram, felizmente, dessacralizadas e passaram a ser tratadas — para mais ou para menos — como aquilo que eram na origem das religiões ocidentais: mitos”, comentam os docentes.

Cena de "O Exorcista" (1973) - IMDb/Reprodução - IMDb/Reprodução
Cena de “O Exorcista” (1973) Imagem: IMDb/Reprodução

O inferno é aqui, mesmo? A representação do inferno ou do mundo dos mortos nunca foi definitiva. Assim como a concepção atual de inferno não existia antes do cristianismo, o futuro está em aberto: Arthur C. Clarke, na ficção científica “O fim da infância” (1953), fala de uma Terra invadida por alienígenas que, curiosamente, se assemelham à figura do diabo — a novidade é que eles trazem paz e prosperidade ao mundo. Em “A Invasão Divina” (1981), de Philip K. Dick, a humanidade é governada por um demônio e Deus está exilado em outro sistema planetário, de onde busca resgatar sua soberania original. Obras distópicas como “O Conto da Aia” (1985), de Margaret Atwood, exploram o inferno no sentido de uma realidade infernal. Talvez nosso inferno contemporâneo não esteja em um outro plano astral, mas nos bots das redes sociais e nas caixas de comentários.

Fontes: professores Cleber Felipe, Francine Weiss Ricieri, Jean Pierre Chauvin, Lavinia Silvares, Marcelo Lachat e Thiago Maerki, que lecionam sobre Representações do Inferno na pós-gradução em Estudos Literários da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo).

Tab. 4.9.2020.

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