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“Família e Escola, um ladrilhar horizontalizado”

Por Charles Santiago

Hub discute desafios da educação no 'novo normal' pós-pandemia - Fundacred

Num domingo de sol, ainda cedo, depois de ter puxado fogo num sábado dionisíaco e buscando cura para uma ressaca dos diabos, arrisquei-me numa pernada: perambular e pensar sobre a nossa pobre verve humana.

Ali, às margens do Rio Iguaçu, naquela andança despretensiosa, alesado com a boniteza majestosa e chameguenta de União, a cidadela mais charmosa do vale ─ abraçada por um Cristo que, do alto da colina, não economiza em bênçãos para os vitorienses e aqueles que aqui deliberaram fazer pousada ─ rejuvenesci as forças, e o que era ressaca já se transmutava em esperança de memória para futuros indignos: viver intensamente o tempo, a vida como pode ser, única, intransferível, insubornável e poética.

Num dado momento, distraído e conversando comigo mesmo, rindo, por vezes, com a cachola confabulando estripulias, fui encandecido por uma imagem: uma mulher de meia idade, cabelos longos e com roupas de prenda lagarteava com suas crias num terreiro de um singelo casebre, muito próximo às margens do rio.

A cena, para muitos, corriqueira, em tempos de sol, normal até – contemplar as maravilhas do portentoso Iguaçu. Mas, naquele exato momento, fui aturdido por Miguel de Cervantes, “ah, memória, inimiga mortal do meu repouso”.

O que era um peregrinar, no fundo, alívio para um carcaça ressaqueada, tornou-se um torvelinho de lembranças – saudades da vida simples e arretada do impávido Nordeste – mas, é claro, sem perder de vista os versos do saudoso Belchior, “Veloso, o sol não é tão bonito para quem vem do norte e vai viver na rua”, do mesmo modo foi possível parafrasear, “o Iguaçu não é tão belo para quem vive a pressão de suas margens”.

Memórias à parte, impacientado com o momento, buscava, com os olhos esbugalhados, etnografar a cena. Muito próximo era possível espiar:

  • Cuia de chimarrão, garrafa de café, um smartphone, aparelho emprestado, instrumento cedido pelo Estado, um monte de caderno e papéis soltos.
  • Um piá emburrado, sabe Deus o motivo, mas nessa fase da adolescência, grosso modo, o mundo é sempre uma desgraça, um lugar de regras, contratos e afazeres chatos, inclusive estudar.
  • Uma mocinha de expressão risonha, emperiquitada e com os dentes abertos, certamente enjoada de boneca, parecia guardar paixões primeiras, pois, impossível não notar, “o estilo abestado”, coisa de encantamento – sonhos do primeiro amor.
  • Uma criança. Esta é digno de nota: parecia trazer outra por dentro. Não parava de matracar um só segundo – semelhando arteirice – andava de um lado para o outro com bastante avexamento e um monte de papel, como disse, matracando sozinha.
  • Por último, a matriarca. A prenda, mãe dos felizardos, lambuzada de papel, aparentava estar pensativa, ou quem sabe, imponderada pelo ofício do magistério, orgulhando-se do título: mãe-mestra.

Era esse o horizonte que desenhava em minha frente.

Aperreado, não me contive e, discretamente, buscando prosa, pedi um pouco d’água. A mãe-professora, bastante simpática, gentilmente gritou com o piá que atendesse ao meu desejo.

Eu puxei papo… não demorou muito, compartilhávamos uma garrafa de café e sentimentos de dias melhores. Coisa de gente simples, em que o coração é sempre maior que suas indigências, e a esperança, ah, minha gente, é o alimento cotidiano que mantém de pé filhos e filhas de um Brasil que, como disse o poeta Gonzaguinha, tem “fé na vida, fé no homem, fé no que virá. Nós podemos tudo, nós podemos mais. Vamos lá fazer o que será”.

De repente, entre uma conversa e outra, a menina mais nova tomou nas mãos o aparelho de celular e, aos gritos, pulos e risos, gravou uma mensagem: “tia, tia: fiz tudo!” Largou no chão o aparelho e, de braços abertos, correu arrodeando o terreiro.

A mãe, nesse momento, ligeiramente espantada, conferiu as anotações de sua prole, aparentando orgulho, tomou nas mãos o celular e também gravou uma mensagem: “verdade, professora! Fez tudinho. Essa diabeta vai longe!”

Depois disso, olhou para os demais filhos e disse: “vamos lá! Todo mundo deve fazer o mesmo”.

O discurso da mãe é, dentre tantas coisas, a genuína crença de que somente a educação pode ofertar uma fresta de esperança para os filhos e filhas de trabalhadores deste país injusto e desigual…

Numa fração de segundos, o celular anunciou, com um som ranheto, que chegara uma mensagem. A menina, virada numa tocha do Iguaçu, feito gata, tomou nas mãos o aparelho e escutou a mensagem:

Que maravilha! A tia está orgulhosa de você! Parabéns!

Professor, filho do sertão baiano, como não festejar? Como não celebrar o ocorrido? Momento em que, mesmo com toda a crueldade pandêmica, desdobrou-se ali uma comunhão – pais, professores e estudantes num só comprometimento: produzir ensino, produzir aprendizagem.

Emocionado e sem palavras, percebi, naquele terreiro, que aquela realidade superava, nos ensinamentos, as palestras academicistas e seus métodos emancipatórios ─ as conversas infindáveis, fiadas e vazias de arautos que desconhecem o chão da escola, mas mesmo assim, do alto de sua sapiência, insistem em fórmulas, teorias e métodos – os paladinos de falas prontas.

Ali, num terreiro de casa simples; mãe, professora, educadora, comunicadora – a matriarca praticava Freire: “ensinar não é transferir conhecimento, mas criar as possibilidades para a sua própria produção ou a sua construção”, porém não nos enganemos: não tem sido fácil para mães e pais o papel colaborativo a que foram, abruptamente, alçados.

Igualmente, do outro lado, sem precisar a distância, dialogava com aquela realidade alguém que, independentemente do dia da semana, encontrava-se disposta, mesmo extenuada com os desafios dessa modalidade educacional e que, em alguns casos, teve sua privacidade invadida, celebrou, com sua educanda, a vitória dos esforços conjuntos para assegurar educação e cidadania para nossos filhos e filhas.

Para os incautos, os professores não estão trabalhando, pelo contrário, usam da pandemia como folga e férias. Mal sabem os ignorantes e desavisados que nossos mestres abriram mão de sua vida privada, assim como colocaram seus bens particulares a serviço dessa missão: evitar que a educação fosse paralisada e comprometida – são professores integralmente – final de semana e feriado são artigos de luxo.

Extasiado com a cena, agradeci pelo café e, depois de cumprimentos de felicidades e sucesso, eu me despedi dos amigos que ali foi possível fazer.

No caminho de casa, tratando-se de um domingo e buscando análise do trabalho etnográfico, adentrei num boteco para celebrar com a melhor das aguardentes: uma cerveja gelada. Na mesa e sozinho – buscando a última palavra, sem delongas, foi possível pensar:

Estamos todos aprendendo, e não tem sido fácil para ninguém. O mundo de outrora, como disse o velho Marx, “desfez-se no ar”, a pandemia já destruiu. Por isso, professores, pais e alunos constituíram uma nova rotina, abriram portas e bravamente suportam o medo do desconhecido, inclusive do que virá. Por hora, mesmo sem saber o que vem por aí, preparam-se para o que a de acontecer – o novo normal, que é, dentre tantas coisas, incerto, inseguro, aleatório. Mas, de uma coisa já sabemos: a escola jamais será a mesma – mães e pais, alçados a condição de mestres colaborativos, não abrirão mão desse honroso título: vão, de braços dados com os professores, alargar a via que, horizontalizada, tornou-se um caminho de mão dupla – estrada que seguirão renitentes com os versos de Gonzaguinha, puxados pelos nossos professores, “nunca se entregue, nasça sempre com as manhãs… deixe a luz do sol brilhar no céu de seu olhar! Fé na vida, fé no homem, fé no que virá. Nós podemos tudo, nós podemos mais!”

Charles Santiago é professor, filósofo e escritor. Colunista da Factótum Cultural.

Os artigos publicados, por colunistas e articulistas, são de responsabilidade exclusiva dos autores, não representando, necessariamente, a opinião ou posicionamento do Factótum Cultural.

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