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Um fenômeno mor ou lapso sutil?

Por Karine Bueno Costa

“Quanto mais o homem fala de si, mais deixa de ser ele mesmo. Mas deixe que se esconda por trás de uma máscara e então ele contará uma verdade” (Oscar Wilde).

“Não sou idêntica a mim mesma. Sou e não sou ao mesmo tempo. (…) Sou a própria lógica circundante” (Ana Cristina Cesar).

“Te apresento a mulher mais sutil do mundo: essa que não tem nenhum segredo.” Eis Ana Cristina Cesar, poeta carioca, dos anos 70. Escritora que, entre os  liames de verdade e ficção, apresenta um jogo com a linguagem diarística-íntima-secreta e  a revelação, em enigma,  da escrita poética. A partir da linguagem subjetiva, tornando-se objeto da própria poesia, desafia o leitor a desvendar os mistérios que envolvem a existência do eu literário, no “diário não diário: forma sem norma”.

Para Maurice Blanchot,  em “O diário íntimo e a narrativa”, inserido na obra O livro por vir (2005), o diário íntimo, que parece tão livre de formas, tão dócil aos movimentos da vida e capaz de todas as liberdades, é submetido a uma cláusula, leve, porém perigosa: o pacto que se assina é o de “respeitar o calendário”.  Assim, a cronologia e o real controlam os dias da existência de modo demoníaco. Desse maneira, o que se pretende atingir é a verdade cronológica real, mas isso seria possível na escrita ficcional? Diria que se trata de uma uma impossibilidade, como “ancorar um navio no espaço”. Inclusive, tenho para mim, assim como um relato  histórico, ao partir de uma subjetivação, não consegue representar a realidade, pois, por mais que parta de um fato real, é narrado por um historiador, que parte de seu ponto de vista, ou seja, cria-se ilusões, como diz Hayden White, em Metahistória, na tentativa de registrar o real, ao se tornar linguagem, já é uma ficção.

Blanchot ainda sobre o diário afirma que a tentativa de tentar eternizar um fato faz com que seja uma espécie de salvação: “a ambição de eternizar os belos momentos e mesmo de fazer da vida toda um bloco sólido que se pode abraçar com firmeza, elevar a vida nula à bela surpresa da arte, e a arte informe à verdade  única da vida, o entrelaçamento de todos esses motivos faz do diário empresa de salvação”. Para o teórico, escreve-se o real para salvar a escrita, para salvar a vida pela escrita, para salvar seu pequeno eu (as deformações que se tiram contra os outros, as maldades que se destilam) ou para salvar seu grande eu, dando-lhe um pouco de ar, e, então se escreve para não se perder na pobreza dos dias ou, como Virginia Woolf, como Delacroix, para não se perder naquela prova que é a arte, que é a exigência sem limite da arte (BLANCHOT, 2005, p. 274). Nesse viés, é a escrita poética de Ana C., a qual escreve e inscreve-se na poesia para salvar o seu eu poético, ainda que ficcional, para salvar a vida.

O leitor percorre as páginas dos livros com teor autobiográfico, na escrita em forma de diário, na tentativa de descobrir os segredos do autor, mas o que encontra é um mito da imagem autoral, porque cai no campo da impossibilidade da escrita, no grau zero, definido por Roland Barthes, na morte do autor. Nessa perspectiva, o eu-outro torna-se apenas um ser ficcional: o que grafa e o que é grafado: “ter encontrado a perfeita harmonia entre as palavras que se pensam (a grafia da vida) e a realidade sem palavras (a própria vida que me vive). Percebo que sou eu que sou grafada, sou eu também que escuto em surdina o velho discurso que me grafa. E finalmente vislumbro maravilhada que sou eu que escrevo, agora, aqui neste cais (…). Percebo que o segredo é que, ao dizer ‘eu’, este texto realiza a conjunção entre o real (esta minha vida ou quem a viva), o simbólico (este discurso ou pronome que aqui deliro) e o enigmático (este ouvir constante da minha própria biografia) (CESAR, 2008, p.271- 273). Nessa glosa de reflexões, o leitor fica perdido  em um labirinto e as palavras tornam-se o fio de Ariadne, que o guia entre real (vida do escritor), simbólico (pronome eu) e o enigmático (a biografia inserida na escrita). Assim, quiçá, a literatura justifica a vida, pois a vida  torna-se arte, a salvação.

 Nesse prisma, Agamben enseja,  em Profanações, que: “O autor marca o ponto em que uma vida foi jogada na obra. Jogada, não expressa, não realizada. Por isso, o autor nada pode fazer além de continuar, na obra, não realizado e não dito.” (AGAMBEN, 2007, p. 61). Ou seja, a intimidade na obra trata-se de uma máscara, uma luva de pelica, uma maquiagem. Nas palavras da poeta: “Antes te ensinavam aos meus sentidos: hoje meus sentidos te incorporam. Anônima, não sou duas, apenas perco os sons que me definem. Carta: morte. Assino. Assino: nome (2008, p.156). Um jogo de esconder e revelar, que cabe somente ao leitor revelar o que há por baixo da máscara e desvendar essa “vida jogada” na obra.

Em suma,  o poeta, construtor de mentiras e simulacros,  expulso da República Platônica, insiste em permanecer, mesmo que seja na presença ausência da ficção que é criada pela linguagem. Dessa maneira, constatamos que, ao lermos a escrita subjetiva e diarística de Ana Cristina Cesar, em busca de descobrir segredos autobiográficos, encontrar-se-á apenas literatura, porém, se formos ler como obra literária, encontrar-se-á a vida também. Trata-se de uma alquimia linguística, um projeto poético destinado a levantar questões tão profundas e enigmáticas sobre a existência e a arte. Dessarte, vida e arte são inseparáveis no projeto alquímico e poético da poeta carioca, porque  significa uma fusão enigmática,  em uma “lógica circundante”.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS            

AGAMBEN, G. Profanações. Trad. Selvino José Assmann. São Paulo: Boitempo, 2007.

BARTHES, R. Da obra ao texto. In. ______. O rumor da língua. Trad. Mário Laranjeira. 2ª Ed. São Paulo: Martins Fontes, 2004.

BLANCHOT, M. O Livro por vir. Trad. Leila Perrone- Moisés. São Paulo: Martins Fontes, 2005.

CESAR, A. C. Antigos e soltos: poemas e prosas da pasta rosa. São Paulo: Instituto Moreira Sales, 2008.

______. A teus pés. São Paulo: Ática, 1999a.

______. Critica e tradução. São Paulo: 1999b.

______. Inéditos e dispersos. São Paulo: Brasiliense S. A., 1985.

Professora de produção textual no Colégio São José-PU. Graduada em Letras: Português/Espanhol. Pós-graduada em Língua Portuguesa e Literatura. Colunista do Factótum Cultural.

Os artigos publicados, por colunistas e articulistas, são de responsabilidade exclusiva dos autores, não representando, necessariamente, a opinião ou posicionamento do Factótum Cultural.

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Karine Bueno Costa-
Professora de produção textual no Colégio São José-PU. Graduada em Letras: Português/Espanhol. Pós-graduação em Língua Portuguesa e Literatura.
Karine.costa@hotmail.com
42- 999591893

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