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Protestar, pois é preciso: o grito de Carlos Assumpção

Por Pâmela Bueno Costa

Companhia das Letras on Twitter: "A abertura do Na Janela ...

Esse texto foi escrito no ritmo Igbin.

“Eu sou Carlos de Assumpção. Todo mundo é meu amigo. Todo mundo é meu irmão, Mas o racista não”.[1]

“Senhores/ O sangue dos meus avós/ Que corre nas minhas veias/ São gritos de rebeldia”.

“Eu tenho fortes razões/ Irmão sou eu quem grita/Tenho mais necessidade

De gritar que de respirar”.

Soscrevo. Essa escritura será marcada pelo batuque Igbin, toque de paciência, observação, peso do mundo e, ao mesmo tempo, de perseverança (SIMAS, RUFINO, 2018, p. 60).

Com as varetas  sagradas que percute o couro, vamos abrir a gira, com o grito da herança cultural negra,  esquecida e silenciada pelo projeto colonial. 

É preciso lembrar de que, de modo geral, por mais que o colonialismo tenha submetido o desmantelo cultural às desordem das memórias, à quebra das pertenças e ao trauma, Simas e Rufino em Fogo no mato: a ciência encantada das macumbas, afirmam: “somos herdeiros daqueles que se reconstruíram a partir de seus cacos” (2018, id., p.13).

A escravidão africana nas Américas produziu, para os que foram escravizados, uma dispersão, fragmentação, quebra de laços associativos e morte dupla: a física e a simbólica (2018, id., p. 57).

Se a chibata foi o grito de morte, o tambor é o discurso de vida, é um grito de protesto. Nesse sentido, é a pedagogia dos tambores que anuncia o encantamento, constituída dos silêncios das falas e da resposta dos corpos: “fundamentada nas maneiras de ler o mundo sugeridas pelos mitos primordiais” (2018, id., p.58). 

Somos um povo  que foi colonizado. E para lembrar a voz do brasileiro Roberto Mussa, no livro Meu destino é ser Onça: “há 15 mil anos somos brasileiros; e não sabemos nada do Brasil” (MUSSA, 2009, p. 22). 

Somos um povo que não conhece sua própria cultura, as vozes que constituíram e constituem sua história, que foram desencantadas pelo epistemicídio cultural.  E nesse ritmo, dos batuques africanos, que iremos fazer ecoar o grito de Carlos Assumpção. O Brasil que nos encanta, é aquele que escuta todas as vozes.

Que sua voz ecoe: “Senhores, eu fui enviado ao mundo para protestar. Mentiras ouropéis nada, nada me fará calar”[2].

Como as cores do arco-íris, como dons quixotes, não importa, de sonhadores o mundo tem precisão, e assim: “a vida será céu quando todos os homens trouxerem as estrelas aqui pro chão”[3].

Podemos dizer, que é um homem tentando interpretar anseios e esperanças, um dos maiores poetas negros brasileiro e uma referência na luta contra o racismo. Protestar, pois é preciso: “Um dia talvez alguém perguntará / comovido ante meu sofrimento / quem é que está gritando/ quem é que lamenta assim / quem é”.

Poeta de 93 anos,  nasceu em 1927, sua história é de uma luta árdua e constante. Nasceu em Tietê, São Paulo. Começou a escrever quando tinha quatorze anos, publicava no jornalzinho de Tietê. Trabalhou na rádio local de Tietê também, em um programa de poesia: “Momentos para sonhar”. 

Com base na entrevista O grito como herança, concedida a Alberto Pucheu, publicada na revista Cult (2020), destacamos alguns elementos de sua travessia.

Entre tantas as tentativas de trabalho, na roça, o que não queria, em hidroelétrica, que recebia uma miséria,  Carlos, diz: “Ah, não sou escravo, não vou mais não”.  Protestar, é preciso: “a minha história é contada com tintas de amargura / um dia sob ovações e rosas de alegria / jogaram-me de repente da prisão em que me achava[4]”. 

Trabalhou como professor em Tupã, também como professor substituto, na escola Bartira. Mais tarde, conseguiu um emprego fixo numa escola na zona rural. Entre idas e vindas, Carlos procurando seu lugar no mundo, fez muitas coisas, foi ajudante de caminhão, faxineiro no jornal Estadão, servente de escola particular, empregado numa loja de jóias. Fez o curso de Letras/Francês, primeiro em Passos (MG), depois em Franca, na Unesp (Universidade Estadual Paulista), terminando o curso no começo dos anos 1970. Assumpção também cursou Direito,  queria ser delegado. 

Alberto Pucheu, professor ensaísta e poeta da UFRJ,  tem feito um trabalho grandioso sobre a obra de Carlos. No processo de escuta e encantamento, passou a estudar e dar maior visibilidade para as suas produções[5].

A partir, desse momento, a sua voz, o seu grito  está ecoando mais fortemente em todos os lugares –  gritar, pois é preciso: “Irmão sou eu quem grita”. Recentemente, em março de 2020, foi publicado pela Companhia das Letras o livro Não pararei de gritar, que reúne sua poesia completa. Poemas que tematizam a desigualdade social e grito por igualdade.

Como afirma Pucheu, em sua “poesia  há um grito que, provindo do passado, envia-se a um futuro, lançando-se contra o racismo que denuncia, deixando ao país sua mais que necessária pedagogia do grito como herança” (PUCHEU, 2020, s/p).

Seu grito, seu lamento e sua luta, desde sempre, foram contra as amarras de uma sociedade preconceituosa e racista. Mas, que deveras, ficou no silenciamento por muito tempo. Protestar, pois é preciso: -“ Mesmo que voltem as costas/ às minhas palavras de fogo/ não pararei/ não pararei de gritar”. Sua denúncia sempre foi sobre a  discriminação embutida no racismo onipresente na sociedade. Assumpção participou vivamente da cena cultural paulistana. Com a sua voz, em especial nas atividades artísticas, sociais e políticas, vinculada ao Movimento Negro.

É a partir, das pedrinhas miúdas, que me alumino no mundo!”(SIMAS, 2013, p.09). São as pedras miúdas, que sustentam, na sua pequenez, os segredos dos grandes lajedos (SIMAS, RUFINO, 2018, p.13). Assim, na miudeza da vida comum, os saberes se encantam! Protestar, pois é preciso. Protesto, foi  publicado em 1982,  em seu livro de estreia, poema que é o marco de sua poesia.  É digno de nota, seu o poema mostra “uma história do Brasil escovada a contrapelo pelo testemunho de um povo que sobrevive lutando pela justiça que vem” (PUCHEU, 2020, s/p).

 Como Carlos afirma: “minha poesia é cascuda, não tem firula”.  As vozes que ecoavam nas declamações de poemas, seja nas ruas, vielas, nos becos, praças e em algumas instituições,  eram de Oswaldo de Camargo, Eduardo de Oliveira, Hirata,  Marta Botelho. Grosso modo,  tinham um anseio por libertação! É pelo canto, pela voz , ou seja, na oralidade, vinda de sua cultura ancestral que Carlos marca a sua e a nossa história. Seus versos são um legado milenar da poesia oral. Que nas suas declamações, seu grito, nos faz lembrar das angústias e das dores do ser negro, marcado por uma história de mais de trezentos anos de escravização.  

Algumas flechas lançadas,  na voz de Carlos Assumpção, em entrevista a Pucheu, afirma: “Quero impor minha poesia negra também junto com os brancos. Mas sem descaracterizá-la. […] Independentemente de ser uma poesia engajada na literatura negra, consegue atingir também os brancos. O meu objetivo é atingir todo mundo” (PUCHEU, 2020, s/p) .

Por último, não menos importante, seu poema Protesto, com o qual  abrimos essa escritura, foi premiado em diversos certames de poesia falada, é como um hino, que marcou e marca a luta de gerações, simboliza a ascensão, o grito por liberdade e visibilidade da intelectualidade negra brasileira.

Por fim, no rufar dos tambores,  que a voz, em Protesto ecoe:

“Eu quero o sol que é de todos/ quero a vida que é de todos/ ou alcanço tudo o que eu quero/ ou gritarei a noite inteira/ como gritam os vulcões/ como gritam os vendavais/ como grita o mar/ e nem a morte terá força para me fazer calar”.

[…]

REFERÊNCIAS.

ASSUMPÇÃO, Carlos. Poemas reunidos: não pararei de gritar. São Paulo: Companhia da Letras, 2020.

MUSSA, Alberto. Meu destino é ser onça. Rio de Janeiro: Record, 2009.

PUCHEU, Alberto. O grito como herança. Revista Cult:São Paulo: edição 255, 2020. Disponível em: https://revistacult.uol.com.br/home/o-grito-como-heranca/. Acessado em: 10/08/2020.

SIMAS, Luiz A. Pedrinhas Miudinhas: ensaios sobre ruas, aldeias e terreiros. Rio de Janeiro: Mórula, 2013

SIMAS, Luiz A. Rufino, Luiz. Fogo no mato: a ciência encantada das macumbas. Rio de Janeiro: Mórula, 2018.

.


[1] Encontro “Sarau das Pretas SESC Ribeirão Preto”.

[2] Poema Protesto, 1982.

[3] Poema Arco-íris.

[4] Trecho do poema Protesto,1982.

[5] Ver filme Carlos Assumpção: Protesto.  De Alberto Pucheu, setembro de 2019. disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=HQrg4OwL2qM&feature=emb_logo


Pâmela Bueno Costa, professora de filosofia na rede estadual e particular de ensino – SC. Graduada em Filosofia. Pós-graduada em Ensino da Filosofia. Mestre em Ensino da Filosofia PROF-FILO. Cursando terceiro ano de Letras: Português/Espanhol (UNESPAR). Ilustradora amadora e aprendiz de aquarela. Colunista do Factótum Cultural.

Os artigos publicados, por colunistas e articulistas, são de responsabilidade exclusiva dos autores, não representando, necessariamente, a opinião ou posicionamento do Factótum Cultural.

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