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Para cada ruína o seu alicerce

Por Bárbara Silvestre

Quem de nós nunca sofreu uma injustiça? Foi acusado por algo que não fez, mal interpretado, traído, furtado… Enfim, são diversas as maneiras pelas quais alguém pode vir a ser injustiçado. Mas não abordaremos nem as ramificações nem as espécies de injustiças. Não. Hoje falaremos sobre uma injustiça bem específica: imagine que, ao defender publicamente um colega, você termina por ser, falsamente, acusado. Sim, acusado de um crime de conspiração contra o governo pelo qual nunca praticou. Isso foi o que aconteceu com Boécio. Um grande aristocrata, influente homem do Senado e intelectual romano que, por sua filosofia, transcendeu as severas correntes do tempo que, muitas vezes, não permitem às sociedades posteriores o deleite de obras do passado. Mais, com o consolo da filosofia, Boécio superou a própria desgraça que caiu em sua vida.

Ele foi acusado, sentenciado a morte e muito torturado. Entre uma tortura e outra, à espera de sua execução, e com não muito mais do que um estilete e pequenas taboas de madeiras, ele concebeu a famosa obra A Consolação da Filosofia, datada do século VI; e que, por sua grande amizade com Símaco, conseguiu pela ajuda de seu tutor, subornar os guardas de sua prisão em Pavia para que a sua obra chegasse às mãos de seus queridos, que puderam propagar essa maravilha da História da Filosofia: o testemunho da grandeza pela qual o homem pode elevar-se pelo logos filosófico diante da tirania e da morte.

Dentre as torturas pelas quais sofreu, o nosso filósofo teve apertada em torno de seu crânio uma correia de couro que fazia saltar das órbitas os globos de seus olhos. Mas mesmo todo esse sofrimento não foi suficiente para estagnar uma mente genial. Antes de seu infortúnio, ele foi poeta, filólogo, erudito, comentador e tradutor de diversas obras de Platão e Aristóteles. Educado à moda antiga, por um método muito comum entre os gregos, que se resumia na máxima de que aprender a ler os textos clássicos era, também, apreender o texto , fixá-lo no espírito, abrigá-lo na memória construindo assim, uma vasta biblioteca invisível mas, de maneira alguma, silenciosa.

Boécio usou a sua própria memória como palácio das grandes obras já escritas e, na prisão, este era o seu único recurso espiritual e necessário para enfrentar e suportar todo o sofrimento e solidão da morte esperada; transformando-se por fim, em autor, criador da sua própria filosofia – abandonando a atitude de apenas exímio comentador e tradutor. Consolidando seu nome na história dos grandes clássicos filosóficos. Entenda, nós estamos falando de uma época onde o papel era muito raro e caro, por isso, era fundamental para um “amigo do saber” construir em sua memória um palácio das grandes obras já estudadas, podendo inclusive, declamá-las em voz alta. Aliás, a cunho de curiosidade, esta era uma atitude tão importante na Antiguidade e Idade Média que Agostinho destinou uma parte de suas Confissões apenas para explanar acerca do papel da memória e do decorar que, em última instância, significa nada mais e nada menos do que o que está circunscrito em seu coração e pode, facilmente, ser declamado em voz alta.

A filosofia ensinou Boécio, em seus últimos dias de vida, que a lamentação e o ressentimento que podem despertar na alma de um injustiçado não compõem um cenário nobre. Não é porque você é vítima de algo que você deve se tornar um vitimizado. E, entre tudo o que Boécio nos ensina em sua inesgotável e majestosa Consolação da Filosofia, o aspecto que destaco hoje não é o conteúdo filosófico de sua obra – conteúdo este que pode ser abordado outro dia. O que fica em aberto, para a introspecção, é o que Boécio pode nos ensinar por suas pessoais atitudes. Ora, a verdadeira cultura fértil é a que trazemos intimamente em nós: os inesgotáveis textos clássicos que, após estudados, agem enquanto fonte de conhecimento inseridos em nossa memória, se tornando palavras que nos armam contra qualquer tristeza, infortúnio e sofrimento. Sim, o conhecimento é a mais potente e, única verdadeira arma, contra a dor da existência e, também, o seu cessar.

Assim, deixo em aberto para reflexão: qual a sua atitude perante os infortúnios da vida? Qual é a desculpa que você inventa para si mesmo buscando a validação da apatia? O nosso filósofo escreveu um clássico filosófico com um material precário, sem nenhuma fonte de pesquisa além de sua própria memória, sofrendo dores físicas inimagináveis consequentes de diversas torturas, com o natural abalo psicológico daqueles que, sentenciados à morte, contam os seus últimos segundos de vida. A prisão de Boécio não era abstrata, muito menos simbólica, como é a maioria de nossas prisões e, mesmo assim, ele encontrou uma maneira de transcender
as cruéis paredes que lhe prendiam. Como, leitor, você pode desamarrar os fortes nós das pesadas cordas pelas quais você se encontra encarcerado e construir, enfim, um possível e pessoal sentido para o seu existir?

Bárbara Silvestre é Mestranda em Filosofia pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Bacharela em Filosofia pela Faculdade de São Bento de São Paulo. Escritora e Colunista do Factótum Cultural.

Facebook: @barbarasilvestreoficial. Instagram: @barbarasilvestreoficial. Twitter: Silvestre_Babi.

Os artigos publicados, por colunistas e articulistas, são de responsabilidade exclusiva dos autores, não representando, necessariamente, a opinião ou posicionamento do Factótum Cultural.

Bárbara Silvestre Ver tudo

Sou Bacharel em Filosofia pela Faculdade de São Bento de São Paulo. Estou cursando o Mestrado em Filosofia com ênfase em Teoria do Conhecimento pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo.

2 comentários em “Para cada ruína o seu alicerce Deixe um comentário

  1. Pessoas grandes não se vitimizam, vide Sócrates , Boécio,e de certo modo os mártires do Cristianismo, Schopenhauer via a vida como “um pêndulo que oscila entre a dor e o tédio”
    não existe por exemplo estoico vitimista,em nenhum momento Sócrates se fez de “maguadinhu”,ele encarou seu fim , ao fugiu da “raia” , mesmo que isso significasse sua morte.
    dai tu meu Áureo Amor, irmã e Filosofa me Pergunta”:qual a sua atitude perante os infortúnios da vida?”
    respondo-te
    Para se fazer uma espada precisa ficar o fogo uns 700 graus e receber marteladas (decepções e traições tudo que te aflige )
    , tu vai ser prensada ,dobrada,martelada (mais golpes na dura “Bigorna da Vida”) recebe um banho de água (alegrias , os momentos, coisas boas) e assim molda seu ser conforme a necessidade de ser uma espada não dura plenamente (se quebra fácil) e sim flexível para a “Guerra da Vida …”
    Ogun,vivia ao relento,comia inhame ,(basta colocar inhame uma fogueira,que se torna uma refeição)
    bebia vinho de palma(seiva de palmeira fermentada)
    um de seus orikis diz que “ele desperta e bebe o orvalho”

    em outro trecho
    :”No dia em que se constroem os alicerces de seu templo, ele diz a seus filhos que não ponham um teto em cima de sua cabeça”
    E ele não reclamava da vida e nem se vitimizava, pelos orikis (textos)que existem sobre ele.
    um ótimo exemplo a ser seguido.

    Claude Forgeron

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