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Como “Coringa” explica o fascismo

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“Coringa” não é um grande filme e o Leão de Ouro no Festival de Veneza foi um exagero. Mas ele precisa ser visto por três motivos. Talvez quatro. Quem sabe, cinco. O primeiro é a atuação de Joaquin Phoenix, que faz uma versão tão boa quanto a Heath Ledger, mas completamente diferente. O segundo é a fotografia de Lawrence Sher, que remete aos primeiros filmes de Martin Scorsese. O terceiro — e mais importante — é a admirável tentativa do diretor Todd Phillips e do roteirista Scott Silver de levar a desesperança contemporânea a um filme de super-herói. Ou de super-vilão, no caso.  

É o final dos anos 1970 ou começo dos 80, antes da Internet e dos celulares. Gotham City é uma cidade suja, pichada e abandonada, com linhas de trem que rasgam a paisagem urbana como “Minhocões” terceiro-mundistas. Os muito ricos, como Thomas Wayne, tentam ignorar os pobres que entopem as ruas, sobrevivendo em subempregos e morando em cortiços. Os “palhaços” que a sociedade despreza.  

Arthur Fleck (Joaquin Phoenix) é um deles. Literalmente. Ele ganha a vida anunciando promoções na frente de lojas vagabundas e sonha fazer carreira no stand up. Ele cuida da mãe doente, que trabalhou para a família Wayne no passado. E ele também tem problemas neurológicos. Ri compulsivamente quando está nervoso e frequentemente confunde realidade com fantasia. Fleck é sacaneado pelos colegas, por estranhos e ignorado pela assistente social que deveria ajudá-lo. Um dia, ao voltar para casa depois do trabalho, ainda vestido de palhaço, ele reage violentamente à impertinência de três corretores bêbados. Mata todos. A fantasia de palhaço se transforma num símbolo da luta dos fodidos contra o sistema e isso é só o começo da encrenca.  

Essa história de origem é diferente dos quadrinhos, mas o Coringa vira o Coringa de sempre: um niilista sádico que quer ver o circo pegar fogo. Um agente do caos. A fagulha que começa o incêndio. O Batman não está no filme, mas o anarquismo do personagem provocará inevitavelmente o surgimento do seu nêmese. Gotham City anseia pelo Batman, mas também precisa do “Joker”. Essa é a piada. E ela não tem graça.

Todd Phillips, que dirigiu a bem sucedida trilogia “Se Beber não Case”, disse à revista “Vanity Fair” que fez o filme porque suas comédias são muito “irreverentes” para a “woke culture”. O termo “woke culture” tem origem nas comunidades afro-americanas, mas hoje é usado para descrever o patrulhamento do chamado “politicamente correto”, esse neo-macartismo que invadiu a mídia e a indústria do entretenimento.

Nos anos 1950, o senador direitista Joseph McCarthy promoveu uma caça às bruxas em Hollywood para eliminar tudo o que que parecesse vagamente comunista. A cruzada moralista também se espalhou pelos quadrinhos, sob o comando do psiquiatra Fredric Wertham, autor do livro “A Sedução dos Inocentes”. O próprio Batman, na ativa desde 1939, foi suavizado para sobreviver. O “neo-macartismo” funciona do mesmo jeito, mas com sinal trocado.

E esse é o quarto motivo para assistir “Coringa”: o atrevimento do diretor que se recusa a seguir cartilhas. Nos Estados Unidos, o filme foi acusado de incitar desajustados sociais a promover massacres. A justificativa é que a maioria dos ataques em escolas foram perpetrados por brancos, celibatários e vítimas de bullying iguais ao Coringa. É o mesmo que dizer que quem assiste “O Iluminado” sai perseguindo a família com um machado. O mundo perdeu a noção do ridículo.

No filme, Thomas Wayne deseja virar prefeito de Gotham e salvar os “palhaços”, apesar do desprezo que sente por eles. Exatamente como nós, a elite alienada, que perdemos tempo discutindo bobagens enquanto os pobres, esses miseráveis, perdem seus empregos e sua esperança. Desamparados por uma esquerda que tem preguiça de estudar economia, os desencantados oscilam entre quebrar tudo, como o Coringa, ou buscar a ordem na porrada, como o Batman. Um está destinado a vencer sempre, adivinha qual.

Chega de papo cabeça. O filme é divertido, bem feito, tem uma excelente trilha sonora e uma sequência final emocionante. Mas lembre-se: como já explicou Jards Macalé na música “Gotham City”: “No céu de Gotham City há um sinal/ Cuidado! Há um morcego na porta principal/ Cuidado! Há um abismo na porta principal.”

PS: Procure esse easter egg: “The Gay Blade”. Mais não digo pra evitar spoiler. Entendedores entenderão. 

Por Edson Aran. Revista Bula.

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