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Bolsonarismo quer implantar sua ditadura — e já está matando

Exército filma palestra crítica a Bolsonaro em reunião anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência | Foto: arquivo pessoal
Uma ditadura para chamar de sua
Os sinais estão todos aí para quem quiser ver. O governo do presidente Jair Bolsonaro já colocou em marcha um projeto que busca eliminar os poucos avanços que a democracia brasileira conquistou a partir de 1988 e instalar uma ditadura para chamar de sua. Não vai seguir os métodos ruidosos dos militares que o antecederam: nada de fechamento do Congresso ou instalação de censores dentro das redações. Bolsonaro e seus apoiadores — não podemos esquecer que o novo autoritarismo não vem sendo implantado só pelo governo federal, mas também por governadores, grupos paramilitares e até por autoproclamados jornalistas — seguem o método dos novos candidatos a ditadores, como Viktor Orbán na Hungria ou Recep Tayyip Erdoğan na Turquia, em que a democracia, como dizia o poeta, não chega ao fim numa explosão, mas com um suspiro.

Se alguém ainda tiver alguma dúvida de como a democracia brasileira encolheu nos últimos meses, pergunte aos mestres: os professores. Procure saber quais professores, hoje, em qualquer nível, das redes pública ou privada, se sentem livres para abordar em sala de aula questões históricas ou sociais ligadas a gênero ou raça, por exemplo. É fato: professores hoje se sentem policiados pelos próprios alunos ou seus pais e têm receio de falar livremente.

Professores que não se sentem livres para falar o que pensam em salas de aula são um indício de ambiente autoritário. E chegamos a isso sem que qualquer governo tenha conseguido aprovar formalmente o famigerado projeto do Escola Sem Partido. A nova censura escolar prescinde de leis ou de censores remunerados: para existir, só precisa apenas do clima de cerceamento à liberdade de cátedra que o bolsonarismo estimula.

Alguns analistas políticos podem até apontar que o governo Bolsonaro é fraco, sem base parlamentar forte, e lembrar de algumas derrotas que ele sofreu, como o recuo imposto pelo Congresso no decreto das armas. Mas não é pouco o que o governo vem conseguindo fazer em sua escalada autoritária. A participação popular na gestão pública é um princípio constitucional que vem minguando dia a dia, graças às intervenções que o presidente vem fazendo nos conselhos, como os expurgos de representantes da sociedade civil no Conad (Conselho Nacional de Políticas sobre Drogas) e no Conama (Conselho Nacional de Meio Ambiente), entre outros. E nisso Bolsonaro não está sozinho: o governador João Doria, em São Paulo, vem fazendo o mesmo, mais um indício de que o avanço autoritário não está limitado ao Executivo federal. 

A isso, juntam-se outros episódios preocupantes, como o do militar que filmou uma palestra do neurocientista Sidarta Ribeiro na reunião da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência, em Campo Grande (MS). Sem falar na perseguição que Bolsonaro vem movendo contra jornalistas, e que nesta semana chegou ao ponto de ameaçar de prisão o editor Glenn Greenwald, do The Intercept. São ameaças que revelam um poder de coerção real, porque contam com uma máquina virtual de difamadores — como os mentirosos profissionais do blog Terça Livre, que chegaram a inventar uma internação hospitalar de Glenn. Mesmo sem a presença física de censores em redações, os jornalistas dignos do nome já sentem que são menos livres no Brasil de hoje, assim como os professores, cientistas e artistas. 

Mas a consequência mais dura do atual clima de ascensão autoritária não costuma ser lembrada por qualquer analista político: é o aumento do número de mortos pela polícia, que vem sendo observado em diversos estados, e com força inédita no Rio de Janeiro, onde a polícia se tornou responsável por um a cada três mortes, índice totalmente incompatível com qualquer país democrático.

Não existe sintoma mais grave de ascensão autoritária do que um aumento no número de mortes cometidas por agentes do Estado. É o poder máximo que o Estado pode assumir: o de decidir quem vive e quem morre, e sem necessidade de procedimentos judiciais. Mesmo que a responsabilidade seja dos governadores, é claro que o aumento das mortes está ligado ao clima de estímulo à violência vivido pelo Brasil nos últimos.

Curiosamente, quase não se fala disso no debate político. Mesmo os analistas genuinamente preocupados com os riscos autoritários de Bolsonaro não enxergam essas mortes como um elemento importante do debate político. A morte de gente pobre e negra continua a ser ignorada, inclusive por quem se se imagina progressista (não vamos esquecer que Rui Costa, o governador petista que recentemente assumiu um papel de voz contrária a Bolsonaro, já se gabou por sua polícia exterminar jovens negros).

O que talvez ajude a explicar por que o Brasil foi dar em Bolsonaro.

Fausto Salvadori, editor e repórter da Ponte Jornalismo.

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