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As cartas das crianças da Maré: “Não gosto do helicóptero porque ele atira e as pessoas morrem”

Um dos desenhos enviados crianças da Maré à Justiça do Rio.
Crianças do Complexo de Favelas da Maré descrevem horror da vida sob fogo cruzado em mais de 1.500 cartas enviadas para a Justiça do Rio, que restabelece regras mínimas para operações policiais no local. Seis jovens morrem nos últimos cinco dias em outras comunidades fluminenses.

A favela sangra. “Não gosto do helicóptero porque ele atira para baixo e as pessoas morrem”, escreveu uma criança, que não especifica nome ou idade, para os desembargadores do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro. O colorido desenho que acompanha a mensagem mostra um helicóptero da polícia com agentes armados atirando em direção ao solo, onde há um traficante mas também crianças. Elas correm. No desenho e na vida real. “Isso é errado”, completou o pequeno morador do Complexo de Favelas da Maré, um conjunto de 16 comunidades pobres da zona norte da capital onde cerca de 140.000 pessoas moram. Mais de 1.500 cartas e desenhos foram reunidos pela ONG Redes da Maré e entregues à Justiça na última segunda-feira junto com a petição de que fosse restabelecida uma Ação Civil Pública que regula e restringe as operações policiais no lugar. Aceita pela Justiça no segundo semestre de 2017, ajudou a diminuir todos os índices de violência ao longo de um ano. Mas acabou suspensa em junho de 2019. Diante do apelo dos moradores, acabou revalidada nesta quarta-feira, restabelecendo parâmetros mínimos para as ações, como a exigência da presença de uma ambulância e o veto a operações durante o horário de entrada e saída de alunos das escolas.

A favela chora. Nesta mesma quarta-feira, soube-se que, nos últimos cinco dias, seis jovens entre 17 e 21 anos morreram baleados durante várias operações policiais em comunidades do Estado do Rio. As principais suspeitas recaem sobre as forças policiais. Rodou pelo país a imagem de um avô, Cristóvão Xavier de Brito, com a camisa ensopada do sangue do neto Dyogo, de 16 anos, que morreu em seus braços. Ele seguia para o treino de futebol quando levou um tiro de fuzil nas costas da polícia, segundo testemunhas. A menina Leticia, outra moradora da Maré que enviou uma carta à Justiça, sabe o que é perder um familiar próximo. “Boa tarde, eu queria que parasse a operação porque muitas famílias serão mortas e, agora, estou sem quarto porque vocês destruíram na operação”, escreveu. “Todo mundo na minha escola chora. Meu irmão por causa dos policiais. E eles bateram no meu primo. Então, não quero mais ver minha família morrendo quando entram. Vocês avisem, tá? Obrigada por ler minha carta. Assinado, Letícia”.

A favela conta seus mortos. Um boletim semestral publicado pela Redes da Maré nesta semana mostra que 27 pessoas morreram apenas no primeiro semestre de 2019, 10% a mais que ao longo de todo o ano de 2018, quando 24 pessoas foram mortas. Além disso, 15 pessoas faleceram durante as 21 operações policiais ocorridas no primeiro semestre; as outras 12 morreram durante os 10 confrontos entre facções criminosas que dominam as comunidades da Maré. “Eu tenho a dizer que as operações matam muita gente e é muito triste”, relata o menino William em sua carta — como as demais, ela foi transcrita em estilo formal para que se fizessem compreender melhor. Ao longo de 2017, antes de a Ação Civil Pública entrar em vigor pela primeira vez, 42 pessoas morreram, uma a cada nove dias, e 57 ficaram feridas. Naquele ano, foram realizadas 41 operações policiais, enquanto que as facções criminosas entraram em confronto entre si 16 vezes. “Uma vez minha mãe saiu para ver minha avó e deu tanto tiro que me escondi atrás da máquina de lavar. É isso o que tenho a dizer”.

A favela tem medo. E vive situações de verdadeiro pânico. Ainda segundo o boletim publicado pela ONG, quatro operações policiais utilizaram helicópteros — o chamado “caveirão voador” — como plataforma de tiro apenas no primeiro semestre de 2019. É o mesmo número de operações de 2017 e 2018 somados. “Senhores juízes, quando vocês mandam ter operação aqui na Maré, os policiais nem avisam. Eles entram de helicóptero dando tiro de uma cima para baixo. Parece que não tem educação com os moradores”, escreveu outra criança. Das 15 mortes ocorridas em dias de operação policial neste ano, 14 ocorreram quando utilizavam a aeronave. “Quando tem operação, nenhum dos moradores fica na rua porque já sabe que os policiais vão matá-los. Também pensam que nós somos bandidos”, conclui a criança.

A favela está assustada. “As crianças se escondem atrás dos cômodos de casa com medo. A forma de bater em nossas residências já é assustadora. Batem, quase derrubam a porta, fazem uma zona na casa dos moradores que estão trabalhando”, escreve outro morador para os magistrados do Rio. Estão submetidos a toda sorte de abusos cometidos pelas autoridades. “Até mesmo quando nós estamos em casa somos reféns desse esculacho que fazem com a gente”.

A favela é o alvo. Wilson Witzel deixou a toga de juiz federal no início ano passado para se candidatar a governador nas eleições gerais. Venceu prometendo abater criminosos armados “na cabecinha”, uma espécie de mantra que segue repetindo. Dito e feito. Desde que assumiu o posto e passou a comandar as polícias Civil e Militar do Rio, vem colocando em prática uma política pública criticada por estimular a violência policia, atingindo sobretudo os jovens negros que vivem nas periferias do Estado. Rotineiramente posa para fotografias ao lado de policiais portando fuzis. Também já subiu em um helicóptero da Polícia Civil em Angra dos Reis, às vésperas de mais uma operação na Maré, e presenciou um agente atirando em direção ao solo. Witzel respalda publicamente essa prática.

A favela está na mira. Dados do Instituto de Segurança Pública, autarquia do Governo, registrou 3.048 letalidades violentas em todo o Estado de janeiro a junho de 2019. Desse total, 881 são mortes cometidas por agentes do Estado. Isto é, 29%. Quase um terço. Recordes históricos são atingidos mês a mês e não contabilizam as mortes cometidas por milicianos ou policiais matadores que não assumem suas ações no boletim de ocorrência. “O caveirão, quando entra aqui, é para nos matar. Ele não entra aqui para uma simples intervenção. O Estado mata sonhos, mata vidas, mata o futuro de pessoas que um dia poderiam estar no lugar da senhora juíza”, escreveu outro morador.

A favela fica sem escola e sem saúde. O boletim da Redes da Maré também informa que, ao longo do primeiro semestre deste ano, as escolas e os postos de saúde tiveram 10 dias de atividades suspensas por causa de tiroteios. A cifra é a mesma que ao longo de todo 2018. Já em 2017, antes da Ação Civil Pública, as crianças ficaram sem aula durante 35 dias e os postos de saúde somaram 45 dias fechados. Naquele ano, 41 operações policiais foram realizadas. “Um dia eu estava na escola, no pátio, fazendo educação física. Aí de repente o helicóptero passou dando tiro para baixo e todo mundo correu para o canto da arquibancada”, escreveu outra criança. “Quando passou o tiro a gente correu para dentro da escola até minha mãe me buscar. Quando dá mais tiro eu fico em casa”.

Mas a favela quer brincar. “O ruim das operações nas favelas é porque não dá para brincar muito”, escreveu outro jovem morador. “Tem muita violência”.

A favela quer respeito e liberdade. “Conseguir ir para a escola, para o curso, ter a liberdade de sair com meus pais ou amigos… Bom, é isso. Que vocês possam respeitar as pessoas. Até porque muitas morrem de bala perdida”.

A favela quer direitos. “Acho que se você visse os sorrisos que eu vejo, ouvisse as histórias que eu ouço, vocês decidiriam diferente. E não pensem que isto é uma caridade. Não chega nem perto disso”, escreve outro jovem anônimo. Termina fazendo um convite para os magistrados. “A garantia de direitos na Maré é a garantia da cidade. Somos a cidade. Por favor, venha. Aceite o convite e venha conhecer o que me faz vibrar todos os dias!!!”.

A favela quer paz.

El País. 15.8.2019.

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