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As histórias enterradas por uma bala

Vitor Barbosa é uma das vítimas da última ação da Rota, em Guarulhos, na Grande São Paulo | Foto: arquivo pessoal
Um jovem sepultado junto com seus livros. É uma cena que seria considerada rara em qualquer cemitério, ainda mais de um país que a cada dia demonstra mais orgulho em celebrar a própria ignorância. Seria rara mesmo se ocorresse nos jazigos de mármore e com cruz de granito reservados aos mortos ilustres. E olha que essa cena não ocorreu nos campos santos dos endinheirados paulistanos, mas logo ali, naquele que é considerado o maior cemitério da América Latina, o humilde cemitério da Vila Formosa, lar de 1,5 milhão de corpos enterrados na zona leste da cidade.

Vitor Nascimento Barboza Alves morreu aos 21 anos de idade. Segundo a família, era um jovem trabalhador, motorista de aplicativo, que amava os livros. A família fez questão de sepultá-lo, em 19 de julho, ao lado das duas obras que mais admirava. Não eram livros simples, nem fáceis. O corpo de Vitor baixou à sepultura do Cemitério da Vila Formosa levando consigo exemplares do “Leviatã”, clássico da filosofia política publicado em 1651 pelo pensador inglês Thomas Hobbes, e do Código Civil Brasileiro, que reúne as normas sobre as relações entre as pessoas nas suas vidas privadas.

Dois dias antes, a vida de Vitor, o jovem sepultado junto com um livro de leis, havia chegado ao fim pela vontade de um grupo de agentes da lei: quatro policiais militares da temida Rota (Rondas Ostensivas Tobias de Aguiar), que, à noite, no quilômetro 214 da Rodovia Presidente Dutra, atiraram em Vitor e em outros três jovens que estavam no carro com ele. Como na maioria das ações envolvendo a Rota, não houve sobreviventes. Como em todas as ações envolvendo a Rota, os policiais disseram que agiram em legítima defesa, que Vitor e seus amigos estavam armados e atiraram contra eles. Já a família diz que a polícia executou os jovens sem motivo e forjou a cena do crime para simular um tiroteio.

É de uma ironia cruel que o jovem que amava “Leviatã” tenha sido morto por homens violentos a serviço do Estado. Hobbes, que tinha uma visão amarga a respeito da natureza humana, abre seu livro falando sobre o estado natural dos seres humanos, que seria o da mais absoluta violência, a “guerra de todos contra todos”. Se deixados livres e soltos, os homens, egoístas por natureza, vão se tornar lobos de outros homens, capazes de perseguir e predar os seus semelhantes. Para Hobbes, só há um caminho se os homens quiserem ser felizes e conviverem uns com os outros: precisam abrir mão da própria liberdade e se submeterem ao poder de um soberano que, por meio da força, iria garantir a paz entre os homens. Esse soberano, identificado com o monstro bíblico Leviatã, deve ser uma figura poderosa e violenta, de preferência um monarca absoluto, porque só assim os outros homens irão respeitá-lo e evitar maltratar seus semelhantes.

Se Vitor gostava tanto desse livro, é de se imaginar que tivesse uma visão pessimista da natureza humana e conservadora sobre a política. “Toda pessoa é capaz de direitos e deveres na ordem civil”: assim começa o outro livro favorito de Vitor. O jovem motorista devia acreditar num mundo ordenado, com pessoas conscientes de seus deveres e direitos, vivendo sob um governo forte, capaz de acabar com a bagunça e trazer ordem para as vidas de todos. E por que não? Como todos os leitores, Vitor era um sonhador. A moça com quem ele namorava há pouco mais de um mês conta que os dois já sonhavam em casar, ter filhos, viajar com a família nos finais de ano. Quem não sonha com uma vida assim, em um mundo ordenado, simples e tranquilo para criar os filhos em paz, sob o olhar vigilante de um poderoso Leviatã capaz de punir a todos os que ousarem atrapalhar nossos sonhos?

Mas eis que, enquanto buscava por seus sonhos, Vitor deu de cara, numa curva da Dutra, com o rosto do próprio Leviatã. Não lembrava um réptil gigantesco, como o Leviatã dos livros: esse vestia farda e dirigia uma viatura cinzenta. Na sua última noite, ao encarar o rosto do monstro, Vitor soube que o Leviatã não estava ali para protegê-lo. Que o monstro benigno era, ele próprio, apenas mais um lobo de homens, tão lobo quanto os demais. Capaz apenas do direito de atirar primeiro, e do dever de perguntar depois.

Fausto Salvadori, editor e repórter da Ponte Jornalismo.

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