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Educador, Educando e a Crise na Educação

Educação pede Socorro

Em agosto inicio meus estudos no mestrado de História, depois de começar a dar aulas no ensino público após me formar em licenciatura e bacharelado em História. Ao mesmo tempo que estou extremamente feliz com a oportunidade de voltar aos estudos históricos e ao ambiente acadêmico, sinto um profundo pesar de largar, mesmo que momentaneamente, a função de ministrar aulas. Estudos, trabalhos, leituras, artigos escritos, estágios, idas e vindas a arquivos, um TCC; peças importantes para minha formação como professor e historiador, mas nada se compara ou realmente se aproxima da vivencia na sala de aula. É dentro do ambiente de ensino que nos batemos com todas as problemáticas e conjuntura da realidade educacional brasileira.

Agradeço demais os professores que tive durante toda minha formação, dos primórdios do jardim de infância até o meu orientador do TCC. Todos foram pedras fundamentais para eu obter as ferramentas necessárias para que tivesse o conhecimento essencial para que lecionasse e transmitisse aquilo que aprendi, e também aprender com a vivência dos meus próprios alunos. Experiências de vidas múltiplas, que retratam todas as mazelas e problemáticas referentes à juventude brasileira como um todo.

Foi o semestre que mais cresci e amadureci enquanto pessoa, individualmente e profissionalmente. As pessoas que conheci, as trocas de saberes e conhecimento com colegas professores e os alunos, me trouxeram uma maior compreensão e entendimento de como é duro e extenuante ser um profissional da educação, ao mesmo tempo em que é uma função glorificante. Claro que não quero glamorizar aqui os perrengues bem como os destemperos da profissão de professor, com aquele velho e desgastado chavão presente na frase “educador é vocação”, pois ele oculta de certa maneira, as dificuldades e o caos do sistema educacional brasileiro, contribuindo para um conformismo com a calamidade instaurada na educação nacional, tornando essas deficiências como algo normal, naturalizando estes problemas, um gravíssimo erro de avaliação.

Professor sofre por demais, seja consigo mesmo ou com a situação dos seus alunos. Baixa-remuneração; condições de trabalho insalubres devido à estrutura péssima das escolas; violência e agressões; perseguição e censura a nossa liberdade de cátedra; desvalorização da profissão; falta de incentivo e condições para formação plena da carreira; pressão psicológica; enfim, uma série de percalços está no caminho do professor. Isto acaba se refletindo e evoluindo de forma grotesca para a qualidade de ensino na formação educacional dos alunos.

Encarei o panorama da complexidade educacional do Brasil: falta de verbas, condições estruturais da escola defasadas, violência, alienação parental, gravidez na adolescência, preconceito (racial, de gênero e classe), bullying, dificuldades na inclusão de alunos com alguma necessidade especial (física, motora, intelectual e, sobretudo, EMOCIONAL). Muito mais que professor ou educador, digamos que todo professor brasileiro tem um desvio de função. Tornamo-nos uns grandes quebra-galhos, mediador de conflitos, e em boa parte do tempo, conselheiro e substituto das figuras materna e paterna que muitos não têm dentro do âmbito familiar, devido a abandono na infância ou até mesmo de pais que mesmo tendo a guarda dos filhos, não cumprem suas obrigações enquanto responsável e guardião da criança. Portanto, o educador brasileiro tem seu campo de atuação para além dos muros da escola, ele se espraia como uma espécie de viga de sustentação de uma construção antiga: prejudicado pelo excesso de peso que carrega, fadigado pelo tempo de descaso com ela, mas é o que ainda mantém de pé a estrutura que serve de amparo para milhões de alunos.

Nesta conjuntura de mediador e solucionador de diversos conflitos (sociais, pessoais, educacionais) vamos criando profundos laços afetivos com os estudantes. Uma ligação umbilical, onde o educador, mesmo não sendo de sua alçada em termos profissionais, se torna responsável pelo ser, viver e sentir dos seus alunos.

Nossa situação educacional ao longo de nossa história jamais cumpriu minimamente com seus objetivos, de formar um ser humano preparado para encarar e ter as ferramentas necessárias para desenvolver suas capacidades e as da sociedade em que vive. São séculos em que a educação acabou se tornando também uma perpetuadora de desigualdades, só reforçando o abismo social entre aqueles que têm muito sendo poucos e aqueles que muitos são, mas nada tem. Esse panorama de exclusão agora está atingindo um nível absurdo nos últimos anos, não apenas com corte de verbas e bolsas de estudo destinadas a educação, mas a uma perseguição de ares totalitários e macarthistas por partes dos setores mais retrógrados da sociedade, avessa a qualquer perspectiva de uma educação inclusiva, igualitária, equânime, libertadora, que respeite a pluralidade de ideias, gostos, sentidos e de indivíduos. Os últimos cortes na educação e os ataques às verbas das universidades e da CAPES em 2019 não são peças soltas, fazem parte de uma complexa engrenagem com o intuito da terceirização completa da educação pública. O sociólogo e educador Darcy Ribeiro décadas atrás já tinha cantado a pedra: “a crise na educação não é uma crise, é um projeto”. Basta ver que estes cortes surgem em um momento onde a maior parte dos alunos das universidades públicas no Brasil é, ou tem origem em famílias de classe baixa.

Cabe então ao professor nestes tempos sombrios e turvos explorar o pensamento critico e estimular o raciocínio do aluno, na medida em que tome ciência da realidade, como ele afeta o mundo e o mundo o afeta. É neste papel em que o professor se torna um agente de transformação social: auxiliar e buscar com que seus alunos tenham mínimas condições para exercer seu livre pensar e refletir sobre o ambiente que habita, seja escola, casa, bairro, cidade, país e mundo. Em suma, é tarefa do educador na atualidade mostrar os instrumentos para que o educando se situe no espaço-tempo.

Nesta perspectiva, os desafios são imensos, podendo até ser descrito por um termo chulo que todos usam costumeiramente para explicar nossa atual situação. Indiretamente, o que é pregado através do uso da austeridade no campo educacional, só demonstra o tipo de pensamento com a transformação da educação em um objeto mercadológico. Para estes a educação não é um direito universal da humanidade, mas sim uma mercadoria de consumo tal qual uma joia: um artigo de luxo. A quem pensa assim, que se aproveita da penúria de nossa educação e lucra com ela, novamente cito Darcy Ribeiro:

Fracassei em tudo o que tentei na vida. Tentei alfabetizar as crianças brasileiras, não consegui. Tentei salvar os índios, não consegui. Tentei fazer uma universidade séria e fracassei. Tentei fazer o Brasil desenvolver-se autonomamente e fracassei. Mas os fracassos são minhas vitórias. Eu detestaria estar no lugar de quem me venceu.

Por Guilherme Lima. Obvius.

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