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Muros e grades, a quem pertence essa prisão

Engenheiros do Hawaii - Várias Variáveis.jpg

A violência, resultado de um sistema falho que inclui educação precária e uma imensa desigualdade social, tornou refém a mesma sociedade responsável por esse sistema. O crescimento acelerado (e desorganizado) dos centros urbanos tratou de maneira desigual a quem deveria ser visto com os mesmo olhos. E o resultado está bem definido nessa música dos Engenheiros do Hawaii, escrita nos anos 90, porém mais atual do que nunca.

“Nas grandes cidades, no pequeno dia a dia, o medo nos leva a tudo, sobretudo à fantasia. Então erguemos muros que nos dão a garantia de que morreremos cheios de uma vida tão vazia”.

Muros e Grades, de Humberto Gessinger, é parte do álbum Várias Variáveis (1991), dos Engenheiros do Hawaii, e fala sobre a violência nas grandes cidades e a maneira como a sociedade se comporta diante disso. Tentando amenizar a situação ou mesmo aprender a conviver com o medo, acabamos por nos aprisionar por trás de muros ao redor da casa e grades instaladas em portas e janelas. Mas, se pensarmos bem, não estaríamos na verdade sendo prisioneiros de nós mesmos?

A violência, resultado de um sistema falho que inclui educação precária e uma imensa desigualdade social, tornou refém a mesma sociedade responsável por esse sistema. O crescimento acelerado (e desorganizado) dos centros urbanos tratou de maneira desigual a quem deveria ser visto com os mesmo olhos. Hospitais, escolas e moradias se tornaram escassos para tanta gente, de maneira que quem tinha financeiramente melhores condições conseguiu se sobressair, enquanto aos demais faltou o essencial.

O resultado disso tudo é resumido em Muros e Grades, que em trechos diferentes nos mostra o quanto somos socialmente desorganizados e displicentes. Incapazes de resolver a situação de maneira geral, acabamos optando por medidas de emergência extremamente egoístas que “solucionam” temporariamente apenas os nossos problemas de segurança enquanto país afora a coisa vai se agravando. Esse erro é ressaltado por Gessinger em determinado trecho da música quando ele diz que “nas grandes cidades de um país tão violento os muros e as grades nos protegem de quase tudo, mas o quase tudo quase sempre é quase nada e nada nos protege de uma vida sem sentido”.

Assim, vivemos o nosso cotidiano de maneira superficial, quase surreal, como quem já está há tanto tempo no problema que não consegue perceber o quanto ele é urgente. Vamos vivendo uma falsa felicidade, disfarçando o medo, mas evidenciando a insegurança por todos os lados, a cada cerca elétrica instalada, a cada interfone, carro blindado, portas com detector de metal, muros e grades. Tratamos os nossos semelhantes como inferiores, ou pior ainda, como seres que precisam ser mantidos à distância. Fazemos pouco caso, alimentamos o descaso. Não nos importamos com a sua realidade, nem tomamos providências para que haja mudanças a curto, médio ou longo prazo.

Queremos solução para os problemas que eles nos causam quando na verdade somos nós os grandes causadores de seus problemas. Sim, quando nos omitimos, quando escolhemos nossos governantes com base em interesses pessoais, quando não cobramos igualdade, melhorias e mais políticas públicas para as minorias estamos colaborando para que tudo isso se agrave e pior: se perpetue. Isso é de um egoísmo extremo, que nos torna desumanos e superficiais. O problema é que não nos damos conta.

“Nas grandes cidades de um país tão irreal os muros e as grades nos protegem de nosso próprio mal. Levamos uma vida que não nos leva a nada, levamos muito tempo pra descobrir que não é por aí (…). Meninos de rua, delírios de ruína, violência nua e crua, verdade clandestina”.

O mais interessante é observar que uma música escrita para fazer uma crítica à situação dos anos 90 caia como uma luva nos dias atuais. Aliás, eu diria que ela retrata melhor o que vivemos hoje do que o que vivíamos naquela época. E isso é aterrorizante, visto que não há medida alguma sendo tomada para a resolução do problema e sabendo que, mesmo que houvesse seria algo que teria que ser trabalhado a longo prazo, imaginamos como viveremos nas próximas décadas, quando a população estará ainda maior e o estado continuará sem condições (e ainda sem vontade) de estabilizar as complicações sociais.

Não sabemos para onde estamos indo, mas continuamos seguindo. Queremos uma vida melhor, mas desde que seja para nós mesmos. Quando pensamos em solução, cogitamos mudar de país. Sem rumo, sem expectativas, apenas com a ilusão de que lutamos por um mundo melhor, quando na verdade não fazemos nem 10% para mudar a nossa realidade. Jogamos a culpa no governo, que devolve a bola para a sociedade e assim vivemos esse eterno jogo de passa ou repassa, quando os maiores interessados são os únicos que não terão a chance de sair ganhando. E o resultado são essas mazelas que tomam (e detonam) o nosso cotidiano.

“Um dia super, uma noite super, uma vida superficial entre as sombras entre as sobras da nossa escassez / entre cobras, entre escombros da nossa solidez.”

Por Bia Lopes. Obvius.

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