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Como e por que as religiões evoluíram

Mulher reza
A religião é um fenômeno corporal porque a maneira religiosa de existência evoluiu por milhões de anos conforme os corpos de nossos ancestrais interagiam com outros corpos ao seu redor

“Este é o meu corpo.”

Essas palavras, gravadas nos testamentos como tendo sido pronunciadas por Jesus durante a Última Ceia, são ditas diariamente em igrejas do mundo todo antes da comunhão. Quando cristãos ouvem essas palavras faladas no presente, somos lembrados do passado, que está sempre conosco.

Mas quanto do passado é lembrado pelos cristãos? Sem dúvida os últimos dois milênios, marcados também por disputas de doutrinas, divisão de igrejas, episódios de violência, excomunhões, pronunciamentos papais e vários debates metafísicos, todos orbitando em torno da comunhão.

Mas nós podemos ir ainda mais para trás no tempo, para o desenvolvimento das tradições orais que foram fixadas em textos que incorporaram o Novo Testamento. E podemos retroceder ainda mais, muito antes do surgimento do Cristianismo. Afinal de contas, Jesus era judeu e seu ato de partir o pão com os discípulos nos lembra da história inteira do povo judeu, incluindo sua fuga da escravidão egípcia e o recebimento do Torah no Sinai.

É possível, porém, ir ainda mais longe. Qualquer refeição religiosa é, antes de mais nada, uma refeição. É um ato de compartilhar uma mesa, certamente um ritual importante no Antigo Oriente. O sêder (jantar cerimonial judaico em que se recorda a libertação do povo de Israel), e depois a comunhão, foram “apropriados” teológica e liturgicamente, mas os sentimentos positivos sobre compartilhar uma refeição já estavam lá. Esses sentimentos existem desde a emergência dos humanos modernos, há 200 mil anos.

O compartilhamento de comida
O compartilhamento de comida é comum em várias religiões antigas – e pode refletir algumas preocupações pré-históricas

E, ainda assim, o homo sapiens não foi a única espécie a descobrir os benefícios do compartilhamento de comida. Os neandertais certamente compartilhavam seus recursos, por exemplo.

“Pense em caçadores e coletores comendo”, me disse um de meus professores de teologia quando comecei a me perguntar sobre a profunda história evolucionária por trás da eucaristia. “Os caçadores se orgulhavam de ter se dado bem e compartilhavam com sua família, os que preparavam a comida são reconhecidos e apreciados, todas as barrigas ficam cheias e todos se sentem bem. Surgem diversas interações sociais positivas. Não é à toa que tanto conteúdo mitológico é construído em torno da comida.”

Mas o compartilhamento de comida precede nossos ancestrais humanos e é observada em chimpanzés e bonobos. Aliás, um artigo recentemente publicado documentou uma pesquisa sobre bonobos dividindo comida com bonobos de fora de seu grupo social. Barbara Fruth, uma das autoras do estudo, disse à revista digital Sapiens que a divisão de comida “deve ter origem no nosso último ancestral em comum”. Com base no relógio molecular, o último ancestral em comum de humanos e macacos viveu há 19 milhões de anos.

Quando eu ouço as palavras “este é meu corpo”, minha mente imediatamente me leva para uma linha da evolução humana.

Religião profunda

Comecei este texto com uma discussão sobre a eucaristia porque minha tradição religiosa em particular é a cristã. Mas o argumento que estou fazendo – que as experiências religiosas têm histórias muito específicas e longas – poderia ser feito com a maioria dos fenômenos religiosos. Isso é porque, nas palavras do sociólogo Robert Bellah, “nada é perdido”. A história vai até o fim da linha para trás, e quem, como e onde estamos agora é o resultado de seu desenrolar. Qualquer fenômeno humano que existe é um fenômeno humano que se tornou o que é. Não há uma religião menos verdadeira.

Se nós formos pensar sobre a profunda história da religião, precisamos ser claros sobre que religião é essa. Em seu livro O Bonobo e o Ateu, o primatologista Frans de Waal conta uma história engraçada sobre sua participação em um painel da Academia Americana da Religião. Quando um participante sugeriu que eles começassem definindo o que é religião, alguém comentou que, da última vez que tentaram fazer isso, “metade da audiência raivosamente deixou o local”. “E isso em uma academia com esse nome!”, disse Waal.

Ainda assim, precisamos começar de algum lugar, então Waal sugere a seguinte definição: “a reverência compartilhada ao sobrenatural, sagrado ou espiritual, assim como os símbolos, rituais e adoração associados”. A definição de de Waal ecoa outra dada pelo sociólogo Émile Durkheim, que também enfatizou a importância das experiências compartilhadas que “unem uma comunidade moral”.

A importância da experiência compartilhada não pode ser desconsiderada já que, na história que estamos contando, a evolução da religião humana é inseparável da cada vez maior sociabilidade da linha hominídea. Como diz Bellah, a religião é uma maneira de ser. Nós também podemos encará-la como uma maneira de sentir, uma maneira de sentir juntos.

Seguidores da Igreja Batista de Nazaré
Seguidores da Igreja Batista de Nazaré escalam a Montanha sagrada de Nhlangakazi. Crenças e rituais religiosos ajudam a unir grupos de pessoas

Enquanto boa parte dos estudos científicos sobre religião serem sobre religiões com uma doutrina com base teológica, o psicólogo evolucionário Robin Dunbar acredita que essa é uma maneira limitada de estudar o fenômeno porque “ignora completamente o fato de que a maior parte das religiões da história humana tiveram um outro formato, de estilo xamânico, que não tinha deuses nem códigos morais”. (Dunbar se refere a xamânico no sentido de religiões cujas experiências geralmente envolvem êxtase e viagem até mundos espirituais). Enquanto esses formatos baseados na teologia têm apenas alguns poucos milhares de anos e características de sociedades pós-agricultoras, Dubar afirma que os modelos xamânicos têm mais de 500 mil anos. São característicos de comunidades de coletores e caçadores, diz ele.

Se queremos entender como e por que a religião evoluiu, Dunbar diz que precisamos começar examinando as religiões “descascando os acréscimos culturais”. Nós precisamos focar menos em questões sobre grandes deuses e crenças e mais nas capacidades que surgiram entre nossos antigos ancestrais que permitiram a eles criar uma maneira religiosa de estar junto.

Adaptação ou subproduto?

Afinal de contas, todas as sociedades têm algum tipo de religião. “Não há exceção para isso”, diz Waal.

Há duas grandes perspectivas sobre o motivo disso. Uma é chamada funcionalismo ou adaptacionismo: a ideia de que a religião tem benefícios evolucionários positivos, que mais frequentemente são definidos em termos de sua contribuição para a vida em grupo. Como diz Waal: “se todas as sociedades têm religião, deve ter um propósito social”.

Outros adotam a visão de que a religião é um “spandrel”, um subproduto de processos evolucionários. A palavra “spandrel” aqui se refere a um formato arquitetônico que é um cruzamento entre arcos e o teto. A religião, segundo essa interpretação, é como um órgão obsoleto. Talvez foi um fator de adaptação nos ambientes em que originalmente se desenvolveu, mas, neste ambiente em que vivemos, não se adapta mais.

Ou talvez as crenças religiosas sejam o resultado de mecanismos psicológicos que evoluíram para resolver problemas ecológicos não relacionados com religião. De qualquer forma, a evolução não aspirava criar a religião, ela surgiu conforme a evolução buscava outras coisas.

Enquanto pessoas de ambos lados do debate têm seus motivos, não parece útil definir a evolução da religião em termos preto no branco. Algo que foi meramente um subproduto de um processo evolucionário pode muito bem ter sido usado por seres humanos para alguma função ou para resolver um problema específico.

Fiéis muçulmanos
Fiéis muçulmanos fazem suas orações da tarde (Isha) na Caba. Emoções como reverência, lealdade e amor são centrais para muitas celebrações religiosas

Isso pode ser verdade para muitos comportamentos – incluindo música – mas a religião apresenta um quebra-cabeça particular, já que frequentemente envolve comportamentos extremamente custosos, como altruísmo e, às vezes, até autossacrifício.

Por esse motivo, alguns teóricos como Dunbar argumentam que nós devemos também olhar além do indivíduo: para a sobrevivência do grupo.

Isso é conhecido como seleção de múltiplos níveis, que “reconhece que benefícios de saúde podem às vezes ter efeitos em nível de grupo, em vez de ser apenas o produto direto de ações individuais”, define Dunbar.

Um exemplo é a caça coletiva, que permite que grupos cacem mais do que qualquer membro conseguiria caçar individualmente. Caçar coletivamente significa mais para mim, mesmo que eu tenha que dividir a carne (já que o animal sendo dividido já é maior do que qualquer coisa que eu conseguiria caçar sozinho).

Não há uma história da religião de uma criatura individualmente. Nossa história é sobre nós.

Sentimentos primeiro

Se queremos entender religião, então precisamos olhar para nossa história profundamente para entender como nossos ancestrais humanos evoluíram para viver em grupos em primeiro lugar.

Nós somos, afinal de contas, descendentes de uma longa linha de hominídeos com “laços sociais fracos e sem estruturas de grupo permanentes”, diz Jonathan Turner, autor do livro A Emergência e Evolução da Religião. Isso levou Turner ao que ele considera a pergunta de US$ 1 milhão: “como a seleção de Darwin trabalhou na neuroanatomia dos hominídeos para fazê-los mais sociais para que eles pudessem gerar conexões sociais para formar grupos? Isso não é algo natural para macacos”.

Nossa linha de macacos evoluiu do nosso último ancestral comum há 19 milhões de anos. Os orangotangos se separaram entre 13 e 16 milhões de anos atrás e o gorila entre 8 e 9 milhões. A linha do hominídeo se dividiu em duas entre 5 e 7 milhões de anos atrás, com uma das linhas levando aos chimpanzés e bonobos e outra até nós. Nós, humanos modernos, compartilhamos 99% dos nossos genes com chimpanzés – o que significa que somos os macacos mais próximos da linha inteira.

As semelhanças entre humanos e chimpanzés são bem conhecidas, mas uma diferença importante tem a ver com tamanho do grupo. Chimpanzés, em média, conseguem manter um grupo de 45 elementos, diz Dunbar. “Parece que esse é o maior tamanho de grupo que pode ser mantido por aliciamento”, diz ele. O tamanho médio de um grupo humano é de 150, conhecido como “o número de Dunbar”. O motivo disso, segundo ele, é que os humanos têm a capacidade de chegar a ter três vezes mais contatos sociais do que os chimpanzés devido uma certa quantidade de esforço social. A religião humana vem dessa capacidade maior de sociabilidade. Como?

Como nossos ancestrais símios se mudaram de habitats de florestas para ambientes mais abertos, como as savanas no leste e sul da África, as pressões de Darwin agiram sobre eles para torná-los mais sociáveis e assim ter maior proteção de predadores e um melhor acesso a comida. Também tornou mais fácil achar um parceiro. Sem a habilidade de manter novas estruturas – como pequenos grupos de cinco ou seis chamados famílias nucleares – esses macacos não teriam sido capazes de sobreviver, segundo Turner.

Então como a natureza realizou esse processo de socialização? Turner diz que a chave não está no que tipicamente entendemos como inteligência, mas com as emoções, que foram acompanhadas por algumas mudanças importantes na estrutura do nosso cérebro. Ele afirma que as alterações mais importantes têm a ver com as partes subcorticais do cérebro, o que deu aos hominídeos a capacidade de sentir um leque mais amplo de emoções. Essas emoções a mais promoveram a conexão, uma conquista crucial para o desenvolvimento da religião.

Reverência
Sentimentos religiosos complexos muitas vezes são a combinação de muitas emoções. A reverência, por exemplo, é uma mistura de medo e felicidade

O processo de melhoramento da região subcortical a que Turner se refere data de 4,5 milhões de anos atrás, quando o primeiro Australopitecos surgiu. Inicialmente, a seleção aumentou o tamanho de seus cérebros em 100 centímetros cúbicos (cc) além do cérebro dos chimpanzés, para cerca de 450 cc (no Australopitecos afarensis). Para fazer uma comparação, isso é menor nos hominídeos mais recentes – o Homo habilis tinha uma capacidade cranial de 775 cc, enquanto o Homo erectus tinha uma um pouquinho maior, de 800-850. Os humanos modernos, por outro lado, tem um cérebro muito maior do que qualquer um desses, com uma capacidade cranial de até 1.400 cc.

Mas esse tamanho cerebral menor não significa que nada estava acontecendo no cérebro do hominídeo. Turner diz que o tamanho do cérebro não reflete o melhoramento subcortical que estava acontecendo entre o surgimento do Australopitecíneo (cerca de 4 milhões de anos atrás) e do Homo erectus (1,8 milhão de anos atrás). “Está na história de como esses mecanismos [subcorticais] evoluíram que as origens da religião podem ser descobertas.”

Apesar do neocórtex dos humanos ser três vezes o tamanho da dos macacos, o subcórtex é apenas duas vezes maior – o que leva Turner a acreditar que o aprimoramento das emoções dos hominídeos estava em curso antes que o neocórtex começasse a crescer para o tamanho humano atual.

Como a natureza conseguiu isso? Você provavelmente já ouviu falar sobre as chamadas quatro emoções primárias: agressão, medo, tristeza e felicidade. Qual sua primeira impressão sobre essa lista? Três das emoções são negativas. Mas a promoção da solidariedade demanda emoções positivas – então a seleção natural teve que encontrar uma maneira de “desligar” as emoções negativas e aumentar as positivas, diz Turner. As capacidades emocionais dos grandes macacos (principalmente os chimpanzés) já eram mais elaboradas que as de muitos outros mamíferos, então a seleção natural já tinha uma boa base para começar o trabalho.

Nessa altura de seu argumento, Turner introduz o conceito de elaborações de primeira e segunda ordem, que são emoções que resultam de combinações de duas ou mais emoções primárias. Então, por exemplo, a combinação de felicidade e raiva gera vingança, enquanto a inveja é resultado de raiva e medo. A reverência, que está muito presente na religião, é a combinação de medo e felicidade. Elaborações de segunda ordem são ainda mais complexas e ocorreram na evolução do Homo erectus (1,8 milhão de anos atrás) para Homo sapiens (cerca de 200 mil anos atrás). Culpa e vergonha, por exemplo, duas emoções cruciais para o desenvolvimento da religião – e são a combinação de tristeza, medo e raiva.

Muçulmanos da Cashemira
Muçulmanos da Cashemira celebram o Eid-e-Milad-un-Nabi, o aniversário do profeta

É difícil imaginar a religião sem a capacidade de experienciar essas elaborações emocionais pelo mesmo motivo que é difícil imaginar grupos sociais próximos sem elas: essa paleta emocional nos une uns aos outros num nível visceral. “As solidariedades humanas só são possíveis por excitações emocionais que estão ligadas a emoções positivas – amor, felicidade, satisfação, cuidado, lealdade – e a mitigação do poder das emoções negativas, ou ao menos de algumas emoções negativas”, diz Turner. “E uma vez que essas novas valências de emoções positivas são neurologicamente possíveis, elas podem se tornar interligadas com rituais ou outros comportamentos que geram emoções para aumentar as solidariedades e, eventualmente, produzir noções de deuses poderosos e forças sobrenaturais.”

Sem querer pular muito para frente, é importante entender como alguns sentimentos cruciais estão presentes na evolução da religião. Não havia qualquer diferença entre sentimentos religiosos e outros sentimentos. “É um argumento para o materialismo”, escreveu ele em um artigo, “aquela água fria na cabeça de repente, um estado de espírito análogo a esses sentimentos, que podem ser considerados realmente espirituais. Se isso é verdade, então isso significa que as causas dos sentimentos religiosos podem ser identificadas e estudadas assim como qualquer outro sentimento”.

Ritual

Como a seleção trabalhou em estruturas cerebrais existentes, aumentando capacidades emocionais e interpessoais, algumas propensões a comportamentos de primatas começaram a evoluir. Entre elas estão: a habilidade de ler olhares e rostos e imitar gestos faciais, várias capacidades para sentir empatia, a habilidade de ficar emocionalmente excitado em contextos sociais, a capacidade de fazer rituais, um sentimento de reciprocidade e justiça e a habilidade de se enxergar como parte de um ambiente. Um aumento na paleta emocional disponível para os macacos resultaria em um aumento de todas essas capacidades comportamentais, segundo Turner.

Apesar de muitos, se não todos, desses comportamentos terem sido documentados em macacos, eu quero concentrar em dois deles – ritual e empatia – sem os quais a religião seria impensável.

Em uma gravação de arquivo, a primatologista e antropóloga Jane Goodal descreve a dança da cachoeira que foi observada em chimpanzés. Vale a pena citar seus comentários aqui:

“Quando os chimpanzés se aproximam, eles ouvem esse som estrondoso e você vê que seus cabelos ficam um pouco em pé e eles se movimentam com maior rapidez. Quando chegam lá, eles ficam se balançando ritmicamente, geralmente em pé, pegando pedras grandes e as jogando por uns 10 minutos. Às vezes, agarram cipós e se balançam até onde há borrifadas de água e eles ficam na água, que geralmente evitam. Depois, você os verá sentados em uma pedra que realmente fica na correnteza, olhando para cima, observando a água conforme ela cai e então assistindo a ela correr e desaparecer”. Eu não consigo evitar a sensação de que essa dança é provocada pelo sentimento de reverência e espanto que sentimos.”

O cérebro do chimpanzé é como o nosso: eles têm emoções que são claramente similares ou as mesmas que as que chamamos de felicidade, tristeza, medo, desespero e assim por diante – suas habilidades intelectuais incríveis que costumamos pensar que são únicas a nós. Então por que eles não teriam sentimentos de algum tipo de espiritualidade, que é se sentir impressionado por coisas maiores que você mesmo?

Goodall observou um fenômeno parecido acontecer durante uma chuva pesada. Essas observações levaram a pesquisadora a concluir que os chimpanzés são tão espirituais quanto nós. “Eles não conseguem analisar, não falam sobre, não podem descrever o que sentem. Mas você sente que está tudo trancado dentro deles e a única maneira de expressar isso é através dessa fantástica dança rítmica.” Além dessas demonstrações que Goodall descreve, outros observaram demonstrações carnavalescas, sessões de bateria e vários rituais de gritos.

As origens do ritual estão no que Bellah chama de “brincadeira séria” – atividades feitas sem uma razão, que podem não servir imediatamente à sobrevivência, mas que têm “uma potencialidade muito grande de desenvolver mais capacidades”. Esse ponto de vista se encaixa com várias teorias da ciência do desenvolvimento, que mostram que atividades de lazer são muitas vezes cruciais para o desenvolvimento de habilidades importantes como teoria da mente ou análise contrafactual.

A brincadeira, nesse sentido evolucionário, tem muitas características únicas: precisa ser perfomada “em um lugar relaxado” – quando o animal está alimentado e saudável e não estressado (por isso que é mais comum em espécies com maior cuidado parental). A brincadeira também acontece em saltos: tem um começo e um fim claros. Entre cachorros, por exemplo, a brincadeira é iniciada com uma reverência. A brincadeira envolve um senso de justiça, ou ao menos igualdade: animais grandes precisam se colocar em desvantagem para não machucar animais menores. Além disso, a brincadeira envolve o corpo.

Judeus ultraortodoxos
Judeus ultraortodoxos participam de um ritual Tashlich, durante o qual os pecados são jogados na água para os peixes

Agora compare isso ao ritual, que é performado e que envolve o corpo. Rituais começam e terminam. Eles envolvem intenções e atenções compartilhadas. Há regras envolvidas. Eles acontecem em um horário durante um certo tempo – além do tempo do cotidiano. (Pense, por exemplo, em um jogo de futebol no qual a bola não pode ser pega além dos limites e o tempo pode ser pausado. Nós regularmente participamos de modos de realidade nos quais conscientemente “saímos do mundo real”. A brincadeira também permite que façamos isso). O mais importante de tudo, diz Bellah, é que a brincadeira é uma prática em si mesma e “não algo com um fim externo”.

Bellah chama o ritual de “forma primordial de brincadeira séria na história da evolução humana”, o que significa que o ritual é o um aprimoramento das capacidades que tornam a brincadeira possível na linha mamífera. Há uma continuidade entre as duas. E, por mais que Turner reconheça que pode ser um pouco forçado se referir a uma dança da cachoeira de chimpanzés como um ritual com R maiúsculo, é possível afirmar que “essas propensões comportamentais ritualísticas sugerem que parte do que é necessário para o comportamento religioso faz parte do genoma dos chimpanzés e, portanto, dos hominídeos”.

Empatia

O segundo traço que consideramos é empatia, que não está primariamente na cabeça. Está no corpo – ao menos é onde ela é iniciada. Segundo Waal, começa “com a sincronização de corpos, correr quando outros correm, rir quando outros riem, chorar quando outros choram ou bocejar quando outros bocejam”.

Monges budistas
Monges budistas lançam lanternas ao céu durante o festival Yee Peng em Chiang Mai. O ritual simboliza a liberação de bondade e benevolência

A empatia é absolutamente central para o que chamamos de moralidade, diz Waal. “Sem empatia, você não tem moralidade humana. Ela nos torna interessados nos outros. Nos faz ter participação emocional.” Se a religião, segundo nossa definição, é uma maneira de estar junto, então a moralidade, que nos instrui sobre as melhores maneiras de estar junto, é uma parte intrínseca disso.

De Waal foi criticado ao longo dos anos por oferecer uma interpretação cor de rosa de um comportamento animal. Em vez de ver o comportamento animal como altruísta e, portanto, advindo de um senso de empatia, nós deveríamos, segundo esses cientistas, ver esse comportamento como ele é: egoísmo. Os animais querem sobreviver, ponto. Qualquer ação que eles tomem precisa ser interpretada nesse ponto de vista.

O pesquisador, no entanto, acredita que essa é uma maneira enganosa de falar sobre altruísmo. “Nós vemos que os animais querem dividir a comida mesmo que isso tenha um custo. Nós fazemos experimentos e a conclusão geral é que a primeira reação dos animais é ser altruísta e cooperativo. Tendências altruísticas são muito naturais para muitos mamíferos.”

Mas não seria isso autopreservação? Os animais não estariam agindo de acordo com seus interesses próprios? Se eles se comportam de uma maneira que pareça altruísta, não estariam eles apenas se preparando para um momento em que precisarão de ajuda? “Chamar isso de egoísta porque no final essas tendências sociais têm benefícios?”. Para de Waal, isso é esvaziar o sentido da palavra egoísta.

Sim, é claro que há sensações prazerosas associadas com a ação de dar algo ao outro. Mas a evolução produziu sensações prazerosas para comportamentos que precisamos performar, como fazer sexo e comer. O mesmo é verdade para o altruísmo, diz Waal. Isso não altera fundamentalmente o que o comportamento é.

Manter uma linha tão dura entre altruísmo e egoísmo, portanto, é na melhor da hipóteses ingênuo e, na pior, mentiroso. E nós podemos ver o mesmo com discussões de normas sociais. Filósofos como David Hume distinguiram o que um comportamento “é” e o que “deve ser”, o que virou a base para a deliberação ética. Um animal pode performar o comportamento x, mas ele faz isso porque ele sente que deveria – por causa de uma norma?

Evento natalino de caridade
Mulheres preparam comida para pessoas sem-teto durante um evento natalino de caridade

Essa é uma distinção que Waal encontrou ao falar com filósofos segundo os quais nenhuma dessas observações de empatia ou moralidade nos animais podem determinar se eles têm ou não regras. De Waal discorda, argumentando que os animais reconhecem normas.

Há exemplos simples, como uma teia de aranha ou um ninho. Se você causar algum dano a eles, o animal vai reparar rapidamente porque eles têm regras sobre como ninhos e teias devem funcionar e que aparência devem te. Ou eles abandonam o objeto ou começam de novo e consertam. Os animais são capazes de ter objetivos e de se esforçar para realizá-los. No mundo social, se eles brigam, em seguida se reúnem e tentam reparar o prejuízo. Eles tentam voltar a um estado. Eles têm normas sobre como essa distribuição deve ser. A ideia de que normatividade é restrita aos humanos não é correta.

No livro O Bonobo e o Ateu, Waal diz que os animais parecem possuir um mecanismo para reparação social. “Cerca de 30 diferentes espécies de primatas se reconciliam após brigas e essa reconciliação não é limitada aos primatas. Há evidências desse mecanismo em hienas, golfinhos, lobos e cabras domésticas.”

Ele também achou evidências de que os animais “ativamente tentam preservar a harmonia em sua rede social ao se reconciliar após o conflito, protestando contra divisões desiguais e acabando com brigas entre si. Eles se comportam normativamente no sentido de correção, ou tentativa de correção de desvios de um estado ideal. Eles também demonstram autocontrole emocional e antecipação de resolução de conflito para evitar esse tipo de desvio. Isso faz com que a diferença entre o comportamento primata e a moral humana não seja tão grande como pensado anteriormente”.

Obviamente existe uma diferença entre reparação social primata e a institucionalização de códigos morais centrais no coração das sociedades modernas humanas. Mesmo assim, diz de Waal, todos esses “sistemas morais humanos usam tendências primatas”.

Quão longe essas tendências vão? Provavelmente, assim como as capacidades que permitiram a brincadeira (e consequentemente o ritual), até o surgimento do cuidado parental. “Durante 200 milhões de anos de evolução mamífera, fêmeas preocupadas com suas crias se reproduziram mais do que as frias e distantes”, diz de Waal. É claro que o cuidado com a cria é um comportamento visto em espécies de peixes, crocodilos e cobras, mas as capacidades de cuidado dos mamíferos representam um salto gigante na história da evolução.

O começo da religião

As religiões de hoje podem parecer muito distantes da brincadeira entre mamíferos e da empatia que surgiram no nosso passado distante, e, de fato, a religião institucionalizada é muito mais avançada que uma dança da cachoeira. Mas a evolução nos ensina que fenômenos complexos e avançados se desenvolvem a partir de começos simples. Como Bellah nos lembra, nós não viemos de lugar nenhum. “Nós estamos imersos em uma profunda história biológica e cosmológica”.

Igreja
As religiões de hoje podem parecer muito distantes de suas origens antigas, mas assim como todos os comportamentos, estão profundamente imersas na história da evolução

Conforme a linha do macaco evoluiu do nosso último ancestral comum em ambientes mais abertos, foi necessário pressionar macacos, que preferem viver sozinhos, a formar estruturas sociais mais permanentes. A seleção natural foi capaz de realizar essa impressionante proeza ao aprimorar as paletas emocionais que há muito tempo estavam disponíveis aos nossos ancestrais. Com um leque mais amplo de emoções, o cérebro do hominídeo foi capaz de aprimorar suas capacidades, algumas das quais naturalmente os levaram a uma maneira religiosa de existir no mundo. Como essas capacidades são mais desenvolvidas com o crescimento do cérebro humano e o desenvolvimento do neocortex, comportamentos como brincadeira e rituais entraram uma nova fase no desenvolvimento hominídeo, transformando a matéria bruta a partir da qual a evolução começaria a institucionalizar a religião.

Apesar dessa história não determinar quem somos – para cada nova fase na história da vida há um poder maior de agência – essa história biocosmológica influencia tudo que fazemos e como somos. Até a mais aparentemente autônoma decisão humana é tomada dentro de uma história. Essa é a ideia por trás disso tudo. É isso o que temos mantido em mente conforme voltamos para as sementes evolucionárias que floresceriam – de maneira muito devagar – na religião humana.

Apesar de interpretar teologicamente as palavras “este é meu corpo”, eu não deveria ignorar o fato de que a comunhão é sobre corpos – o meu, o seu, o nosso. A religião é um fenômeno corporal porque a maneira religiosa de existência evoluiu por milhões de anos conforme os corpos de nossos ancestrais interagiam com outros corpos ao seu redor. Se alguém toma a comunhão ou se considera religioso, nós estamos navegando nossos mundos sociais com nossas capacidades evoluídas de brincar, empatizar e celebrar rituais entre nós.

BBC. 2.6.2019.

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