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‘Pensei que estaria segura com a polícia’, diz jovem estuprada dentro de viatura

Em entrevista à Ponte, jovem de 19 anos contou como dois PMs, fardados e em horário de trabalho, agiram durante carona que terminou com denúncia de estupro; a jovem perdeu oito quilos depois do abuso

Ato “Por Todas Elas” realizado em SP em 01/06/2016 | Foto: Daniel Arroyo/Ponte Jornalismo

Maria* viajou para casa de uma amiga perto de Campinas para uma festa. Mas, depois de receber uma ligação de sua mãe, decidiu voltar. Pediu, então, que a amiga e o irmão a levassem para a rodoviária, onde pegaria um ônibus sentido São Vicente, litoral norte de São Paulo, onde mora com a mãe e o irmão. Por volta das 19h saiu de Campinas.

Como a viagem demorou cerca de 4 horas, a jovem decidiu dormir. Quando acordou, percebeu que havia passado do local de desembarque. Em vez de chegar em São Vicente, Maria estava na Praia Grande, outra cidade litorânea de São Paulo.

Questionado pela jovem do destino do ônibus, o motorista informou que ela devia ter avisado para ele que desceria em São Vicente. Orientou Maria a atravessar a rua e pedir informação para conseguir chegar ao terminal de ônibus, onde conseguiria pegar uma condução para sua cidade. Era 23h35 do dia 12 de junho.

Maria atravessou a rua e parou em uma viatura da Polícia Militar, que ali estava parada. Danilo de Freitas Silva e Anderson Silva da Conceição estavam de serviço naquela noite. A jovem perguntou a um deles como chegava ao Terminal Urbano Tude Bastos. O policial apontou a direção de um ponto de ônibus, onde Maria poderia pegar uma condução para o terminal. Mas, antes que a jovem fosse embora, outro policial apareceu em cena e começou a fazer perguntas para ela. “Perguntou de onde eu tava vindo, perguntou o meu nome, se eu era casada e se eu era menor de idade”, conta a jovem à Ponte.

A carona

Depois de interrogar Maria, um dos policiais, ao conversar em particular com o colega, ofereceu uma carona para ela. “Aí eu aceitei. Eu pensei que estaria mais seguro indo com eles do que ficar no ponto sozinha de noite, esperando o ônibus passar. Geralmente eu pego Uber, mas o meu celular tinha descarregado, não tinha como pedir. Aí eu aceitei a carona. Um entrou no banco da frente e outro policial veio atrás”, descreve a jovem.

Neste momento da entrevista, Maria descreve como ocorreu o estupro. “Assim que a viatura começou a andar, ele pegou a minha mão e colocou no pênis dele. Aí eu puxei e ele colocou de novo. Aí eu falei não, não. Mas ele pegou o meu braço com mais força. Ele abriu a calça e abaixou a minha cabeça, para eu fazer sexo oral nele. Aí ele pegou, levantou a minha cabeça e me deitou. Aí ele tirou a minha calça e me penetrou. Por último ele segurou a minha cabeça e ejaculou na minha boca. Isso tudo foi com a viatura em movimento. Quando chegou, ele desceu, se limpou e sentou no banco da frente. Aí eles foram e me deixaram no terminal”.

Um minuto depois de sair da viatura, o ônibus para São Vicente chegou no terminal. Maria embarcou de volta para sua cidade. Como estava nervosa, decidiu ir para casa de uma amiga. Chegando no local, foi recebida pelo sogro da sua amiga, que percebeu que Maria estava nervosa e tentou acalmá-la. Quando sua amiga chegou, tentaram convencê-la de denunciar o caso. Mas Maria estava com medo.

“Eles perguntaram se eu queria que isso acontecesse com outras garotas, aí foi quando eu tomei coragem e liguei. Uma policial atendeu e eu conversei com ela, ela veio até o local onde eu tava e eles me levaram para fazer corpo de delito, exame, prestar depoimento e tomar o coquetel”, continua a jovem.

Demorou uns minutos para Maria responder como se sentia. Depois de respirar fundo, a jovem desabafou. “Hoje? Eu praticamente perdi a minha vida. Eu não posso fazer mais nada, eu não posso mais andar sozinha, não posso mais ir até a padaria sozinha. Eu só fico em casa deitada”.

Enquanto falava com a Ponte, Maria recebeu uma ligação da delegada. Desde o dia do depoimento na delegacia ela não recebia nenhum contato das forças policias. “Ela ligou agora para pedir o número da minha amiga e perguntou se eu queria passar no psicólogo, ela disse que me encaminha”, conta a vítima, que ainda está pensando sobre o assunto.

Quando soube da prisão dos policiais, Maria ficou mais tranquila, mas ainda sente muito medo. “As pessoas ficam falando que eles têm amigos e que os amigos deles vão vir atrás de mim, que quando acabar o caso eles vão vir me matar. Ficam falando pra eu sair do país. Nas redes sociais, vi um monte de gente falando, antes de sair o resultado, que era mentira. Mesmo depois do resultado, ainda continuaram falando as coisas”.

Após iniciar o uso de uma série de medicamentos contra doenças sexualmente transmissíveis, conhecido como coquetel, o corpo de Maria reagiu da pior forma. “Aí eu fiquei dias vomitando, só no quinto dia eu fui melhorar. Se eu bebesse água eu colocava para fora, qualquer coisa que eu colava na minha boca eu vomitava. Aí eu fiquei assim durante cinco dias. Mas até hoje eu não consigo comer direito, não sei se foi o fato de ter tomado muito remédio. Eu emagreci mais de 8 kg”, detalha.

Benedito Mariano, Ouvidor das Polícias, esteve no litoral para conversar com a jovem. Foram três horas de depoimento na última segunda-feira (24/6), no 1ºDP de São Vicente. Em entrevista à Ponte, Mariano crava que o crime é inaceitável. O termo detalhado do relato da jovem foi enviado para a Corregedoria e para o MPE (Ministério Público Estadual) junto com o laudo médico.

“É um absurdo, um crime inaceitável para quem é responsável por garantir a segurança das pessoas. Estou convencido de que houve violência sexual, que ela foi violentada dentro da viatura. Os policias falaram que ela estava sendo perseguida e por isso pediu ajuda para eles, mas ela nega isso, ela simplesmente pediu informações para chegar no terminal de ônibus. Eles também alegam que estavam no banco da frente, mas há um vídeo que a Corregedoria teve acesso que mostra que o policial entra no banco detrás. Além de informações que não condizem com a verdade deles”, conta o Ouvidor, que reforça que em mais de 4 mil procedimentos e nunca viu um caso como este.

Em breve entrevista à Ponte, Flávia Artilheiro, advogada responsável pela defesa dos PMs, disse que ainda é cedo para a defesa se posicionar. “Está muito recente, não há laudos o suficiente para que a gente possa concluir em uma ou outra direção. Os meus clientes são inocentes, os fatos não ocorreram da forma que a vítima está alegando. Não vamos nos pronunciar sobre as provas já produzidas porque a investigação ainda não se encerrou”, argumenta Artilheiro.

A reportagem procurou a SSP (Secretaria de Segurança Pública) do estado de São Paulo. “O caso é investigado pela DDM [Delegacia da Mulher] de Praia Grande e pela Corregedoria da PM, que instaurou um IPM (Inquérito Policial Militar). Os policiais envolvidos na ocorrência estão presos preventivamente no Presídio Romão Gomes. Os laudos periciais foram concluídos e estão sendo analisados pela autoridade policial. Todas as circunstâncias relativas aos fatos são apuradas”, diz nota.

*O nome da vítima foi trocado para proteger a sua identidade.

Por Paloma Vasconcelos. Ponto Jornalismo. 28.6.2019.

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