Entrevistas

8 ensinamentos pé-no-chão da Monja Coen sobre dinheiro e felicidade

8 ensinamentos pé-no-chão da Monja Coen sobre dinheiro e felicidade
Em entrevista ao Valor Investe, a fundadora da Comunidade Zen Budista no Brasil explica que ganhar dinheiro não tem nada de mal, o problema é o que você faz com ele

Nas redes sociais, a Monja Coen Rōshi (ou só Monja Coen para os íntimos) é um fenômeno de audiência. No seu canal no Youtube, o Mova, os mais de 1 milhão de seguidores acompanham com frequência seus vídeos com conteúdo sobre relacionamentos, depressão, bem-estar e outros tantos temas relevantes que afligem a sociedade moderna sob o olhar do budismo.

Já escreveu vários livros e participou de palestras com nomes conhecidos do mercado, como o consultor financeiro Gustavo Cerbasi, o historiador e escritor Leandro Karnal e o filósofo Clóvis de Barros Filho.

De sua casa nas proximidades do estádio do Pacaembu, em São Paulo, a Monja Coen falou com o Valor Investe sobre o que ela – e sua filosofia zen budista – pensa sobre dinheiro, ganância, lucro, sucesso e, o que todo mundo quer, a tal da felicidade. Separamos 8 ensinamentos pé-no-chão da monja nesta matéria. Se quiser ouvir um pouco sobre como foi a entrevista, assista ao vídeo.

O que a Monja Coen fala sobre …

… Dinheiro

Dinheiro é importante. É um meio para construirmos muitas coisas, como um templo, por exemplo. Para as pessoas terem educação, comprar livros, assistir a vídeos (vai precisar de um equipamento para isso). Então, para que tenhamos um desenvolvimento espiritual, pessoal, educacional nós precisamos de dinheiro.

Mas, a felicidade não pode depender diretamente do dinheiro. Não podemos ficar apegados ao dinheiro por si mesmo, como se só por ter o dinheiro na minha mão eu vou ser feliz.

O dinheiro nos dá bem-estar com certeza, se eu souber usá-lo de forma adequada. As pessoas que têm depressão muitas vezes entram em uma corrida alucinada de comprar coisas, sentem um vazio interior e parece que vão preencher esse vazio quando vão às compras.

E muitas acabam queimando seus cartões de crédito, suas contas bancárias porque perdem completamente a noção do dinheiro por um sistema de infelicidade e inconformismo com sua própria vida. Dá um estímulo positivo por um momento e passa logo. É um pouco como o açúcar no corpo, dá um pico de energia, mas passa logo. Tem a ver com o consumismo desenfreado.

… Lucro

Tem ganância aquele que, por mais que tenha, quer mais e faz qualquer coisa para obter esse lucro. Não é porque eu preciso do lucro. Esse já entra na deficiência emocional, da carência interna de perder-se pelo dinheiro, pela ideia do lucro. Lucrar é bom, deixa as pessoas satisfeitas e têm lucros que não são só financeiros, não só em números, mas também lucros sociais. Na medida em que você investe melhor e tem lucros financeiros, pode aplicar isso de maneira que outras pessoas possam também se beneficiar.

Tem grandes jogadores de futebol, por exemplo, que ganham fortunas e estão investindo em jovens, time, treinamento, áreas necessitadas. Depois do incêndio da catedral de Notre Dame, milionários doaram fortunas para a reconstrução. O lucro beneficia a sociedade. Não é só o lucro avarento, a pessoa trancada em casa cheia de moedas que não usa pra nada. É o oposto: um lucro que vai beneficiar e girar a roda da vida, da economia, e muita gente pode se beneficiar.

… Consumismo

Há alguns anos a Unesco [braço da ONU com foco em educação, ciência e cultura] elaborou alguns itens para uma sociedade de não-violência e paz e um desses itens é exatamente o consumo responsável. Será que eu preciso mesmo desse item? Ele é benéfico para mim? Como eu consumo sem ser consumida pelo consumo?

Como eu tenho consciência para consumir o que é necessário? Aquele prazer é muito imediato, se esvai em poucos dias, e a ânsia para renovar aquele prazer pode virar um vício. Preste atenção: o que eu estou comprando agora é necessário? É benéfico para minha cidade, meu bairro, meu país? Saia do individual.

Estamos todos interdependentes, por isso é importante saber consumir. Pense antes de ir às compras, ao supermercado, mercado. Senta, respire e se pergunte: “o que eu vou fazer, o que é necessário e como eu posso fazer desse meu investimento algo que vai beneficiar inúmeros seres?

Conheci um jovem que trabalhava em um banco de investimento que se sentia tão separado da realidade que no fim de semana precisava do contato com a terra e plantava algumas coisas no próprio apartamento. Eu falei: que bonito, mas não se esqueça que esses números todos não são números, são vidas e pessoas. E qualquer movimento que você faça está mexendo com a vida na Terra. Não são números no papel, mas vidas humanas e da natureza porque tudo está interligado e interconectado.

… Dificuldade financeira

A angústia da falta, de não conseguir pagar minhas contas, de ter que fazer acordos nos bancos que cobram juros altíssimos, asfixia qualquer pessoa. Mas, quando alguém me procura para saber o que fazer, eu digo: tenha paciência, entenda o que fez de errado e procure ajuda de especialistas para resolver a situação. Faça acordos, converse com as pessoas para quem você está devendo, procure outros meios de obter renda extra.

Não é ficar sentado em casa esperando a solução cair do céu ou chorando, se lamentando, não vai adiantar. Você tem que ir atrás daquilo que precisa na sua vida.

Muito se fala de karma, palavra muito usada no budismo. As pessoas falam “o meu karma é sofrer, ter dívidas”. Não, o karma é o que você faz a partir das dívidas e dificuldades. Não culpe o outro. Casais às vezes fazem isso, desmerecem o cônjuge, apontam dedos (“você é inoperante”, “ficou depressiva e parou de trabalhar”, “você não ajuda em casa”). Depressão é doença, tem que ser tratada com especialistas e às vezes com remédios. Os casais precisam apoiar um ao outro para que saiam da crise juntos.

… Fracasso

Se não tenho nada agora, vou trabalhar e deixar o orgulho de lado.Até o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, faliu algumas vezes e se reergueu. Muitas pessoas são orgulhosas, só aceitam fazer algo “do seu nível”. Tem que trabalhar varrendo a rua, vendendo produtos em lojas ou servindo mesas em restaurantes se for preciso.

Aproveite seu nível intelectual para fazer isso com excelência. Aquele que diz que é mais do que isso (a função que exerce) é um perdedor. Aquele que é capaz de assumir qualquer função com excelência é o vencedor.

Conheço um arquiteto que hoje ele é motorista de Uber. Foi a forma que ele encontrou de pagar as contas de casa, cuidar da família, dos filhos. Existe meios para aumentar nossa renda. Os filhos, por exemplo, podem trabalhar. Isso é uma coisa que a classe média e alta acha que não, que filho tem que só estudar.

Não que vá fazer tarefas pesadas, mas pode ajudar na casa, cuidar do outro filho e, se a idade já permitir, procurar uma vaga no mercado de trabalho. Não são só o pai e a mãe que vão sustentar a família. Todos juntos têm de criar um sistema de sustentação.

… Sucesso

A palavra sucesso vem de suceder, dar continuidade. Como uma geração sucede a outra? Como uma linhagem filosófica tem seus sucessores, aqueles que vão dar continuidade e não param ali, vão adiante. Gostamos de progredir e melhorar. Não somos perfeitos, mas estamos sempre à procura dessa perfeição e melhoria. Isso não é malévolo, é benéfico, se não pusermos isso como um peso em si. As pessoas que têm sucesso no que elas fazem têm mais alegria e contentamento.

Mas, quando você faz com esforço muito grande, que mais atrapalha do que ajuda, as suas outras relações geralmente não vão ter muito sucesso. Pode ter sucesso aparente, momentâneo, mas no momento seguinte não haverá mais a alegria, o prazer, a felicidade de estar fazendo algo não só pelo lucro pessoal, não só pelo bônus.

O bônus é aquilo que você nem espera e que vem porque você fez algo com carinho e amor. Isso ainda é um pouco difícil nas empresas, porque fomos treinados em uma cultura de violência, competição e não compartilhamento. Mas, no mundo de hoje, ganhamos todo mundo ou perdemos todos. Não tem um que ganha e outro que perde porque isso é temporário. Estamos em redes, estamos ligados a tudo e a todos.

Se a minha empresa cresce, eu cresço junto. O tipo de pensamento egoísta (eu ganho e você perde) está desaparecendo do mundo empresarial porque a única forma das empresas e times sobreviverem é se unirem. Você deve pensar: “o que nós todos podemos fazer para ter um bônus melhor este ano?”

Entender que se nós lucramos, vamos poder investir mais e mais pessoas vão poder se beneficiar. A economia vai girar.

… Felicidade

Não é que ser feliz é não ter dificuldade nenhuma. Essa é a confusão que as pessoas fazem. Como se fossemos felizes se houvesse apenas dias de sol. Mas, se houver apenas dias de sol, nós vamos torrar. Nós precisamos da chuva, da nuvem, das dificuldades. A felicidade não é estar tudo sempre bem, mas aproveitar as dificuldades para melhorarmos como pessoas.

O dinheiro entra como elemento fundamental de troca, que traz alegrias sim, que traz contentamento também, que pode trazer curas para doenças, ser um meio para se cuidar e cuidar das pessoas que você gosta.

… Propósito

Há uma pressão da sociedade para que todos – especialmente os jovens – achem seu propósito. Não temos um único propósito na vida, ele vai mudando. O nosso propósito na infância é um, na adolescência é outro, na maturidade é outro e na velhice é outro. E mesmo em cada uma dessas faixas de idades temos vários propósitos, várias coisas que nos atraem e que nos dão prazer.

Ficamos muito preocupados entre os 20, 30, 40 anos que temos que provar ao mundo como somos inteligentes e capazes. Entramos nisso como um círculo vicioso, acabamos nos impedindo de desabrochar no melhor do nosso potencial. Por isso acredito que a leveza é a melhor coisa. Qual o meu proposito hoje, quais as tarefas desse mês, o que vou fazer agora?

Posso até estar em uma função que não é aquela que quero definitivamente para minha vida, mas eu não fico infeliz, eu vou ser tão excelente, apreciar tanto o que estou fazendo agora que, quando chegar o momento da mudança, eu vou me sentir completo(a) porque eu fiz isso muito bem.

Com isso, eu crio também a minha autoconfiança, a minha excelência. Se eu entrei em um curso que não estou gostando, mudo. Se eu entrei em uma vaga de emprego que não era o que eu queria, eu vou fazer muito bem a função e abro caminho para mudar de área.

Eu aprecio a vida. Acho que a palavra mais importante é apreciar a vida onde ela está. O nosso propósito deve ser viver, com plenitude, sabedoria, contentamento e alegria. Sabendo que nada é fixo nem permanente e que onde você está agora é transitório. Não faça disso um drama muito grande. As coisas serão melhores porque você vai fazer disso melhor.

Valor Investe. 20.6.2019.

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