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A banalidade do mal e suas banalidades

A leitura atenta da filosofia de Hannah Arendt não sustenta que estamos caminhando para um precipício sombrio de violência generalizada.

por Marize Schons

Na primeira edição de um dos livros mais clássicos da filosofia política do século XX, As Origens do Totalitarismo (1951), a filósofa Hannah Arendt – disposta a explicar a emergência de formas de governo como o nazismo e, posteriormente, o stalinismo – recupera o conceito kantiano de mal radical para sugerir uma explicação ao sistema social pelo qual todos os homens se tornaram igualmente supérfluos como seres humanos.

Inspirada pelas experiências dos campos de concentração, o mal radical como um mal absoluto – não no sentido de extremo, mas arraigado – transformaria a natureza humana, aniquilando a pluralidade e destruindo a espontaneidade de cada indivíduo.

Na sua obra sucessora, Eichmann em Jerusalém: um relato sobre a banalidade do mal (1963), a autora avança no debate ético e moral do mal. E surpreende ao concluir que o fenômeno totalitário produziu algo novo: a  trivialidade da falência dos valores morais.

Cena do julgamento de Adolf Eichmann em Jerusalém.

Eichmann, o comandante nazista julgado em Israel em 1961, após ser capturado na Argentina, onde se ocultava, não se tratava exatamente de um carrasco monstruoso que foi personagem importante para operacionalizar a solução final. Mas sim, um burocrata pouco reflexivo e oportunista irresponsável que se restringia à obediência cotidiana da lei.

A partir do conceito presente no subtítulo, questiona-se: como pessoas comuns são capazes de praticarem o mal ilimitado?

Desde então, o trabalho de Arendt é recorrentemente recuperado para explicar a emergência do mal, principalmente no contexto político e do espaço público. Ao atentar que o perigo do totalitarismo é permanente, mesmo diante da queda dos regimes propriamente ditos, deixa um alerta que parece ter sido consolidado nos debates contemporâneos. A experiência totalitária parece transcender o século XX ao ser recuperada constantemente como um perigo cristalizado que nos faz companhia permanente.

As angústias do presente, que se apresentam diante das injustiças e sofrimentos da vida, supostamente parecem reviver as lembranças do fenômeno totalitário. Por outro lado, sendo a história uma narrativa que tem muito a dizer sobre o presente, a constante referência à suposta emergência contemporânea de novos regimes totalitários também pode ser provocada pela educação da nossa atenção referente a esse fenômeno histórico e à forma como construímos uma narrativa confirmatória de que vivemos em um processo sistemático e inescapável de retorno ao estágio chocante de banalização da violência.

Os diagnósticos atuais sobre a iminência da “ascensão do fascismo”, seja no Brasil ou no mundo, esquecem uma das características fundamentais do pensamento arendtiano, que consistem na originalidade em assimilar o fenômeno do Totalitarismo não como uma trivialidade histórica encadeada por leis universais e utopias generalistas.

O que a transformou em uma das maiores pensadoras do século XX foi seu realismo corajoso por, diante da experiência de eventos tão extremos, negar-se a ser fatalista. Sua filosofia é a filosofia dos começos. A Modernidade nos fez natais e não mortais e, por conta disso, somos seres plurais capazes de agir e começar algo novo.

O indivíduo moderno edifica a própria história e compartilha um mundo comum com outros indivíduos. Dessa forma, a existência humana consiste em “viver”, portanto, “estar entre os homens” e “morrer”, e assim, “deixar de estar entre os homens”.

A ascensão da vida biológica como um bem supremo remonta às origens cristãs. Por outro lado, rompendo com o modo de pensar típico do cristianismo, o que mais importa hoje não é a imortalidade da vida – questionada pelo ceticismo científico e pelos processos de secularização mais recentes – mas o fato que a vida na terra se tornou um bem autoevidente no Ocidente.

Indivíduos modernos não são seres que nasceram para a morte. E se totalitarismo é um um processo niilista em que os indivíduos tornam-se dispensáveis, o moderno conceito de vida tem como fundamento a singularidade do nascimento e os caminhos imprevisíveis da ação do indivíduo no mundo até o dia da sua morte.

“A vida humana seria perene recorrência imutável dos ciclos da espécie se não houvesse um mundo no qual cada indivíduo chega pelo nascimento e do qual se retira com a morte”¹. Dessa forma, não existe um propósito pré-definido, o futuro está completamente aberto. A liberdade e a espontaneidade são, portanto, inseparáveis da condição humana.

Entre as consequências políticas dessas noções está a expectativa de que a própria política precisa“se ocupar quase que exclusivamente com a manutenção da vida e a salvaguarda de seus interesses”².

Para a autora, o mundo moderno — tenhamos em mente os meados do século XX, quando escreve Arendt, e não o distante ponto de origem desse mundo, no século XVI —  que experimentamos nasce com as primeiras explosões atômicas.

A preservação da vida consiste na preocupação central de políticas públicas que pretendem funcionar como ilhas de previsibilidade no oceano de incerteza. E por conta disso, contrato, constituições, tratados, estabelecem um novo tipo de confiança que exerce um poder coletivo que tenta contingenciar a imprevisibilidade dos tempos.

Em outras palavras, a preservação da vida torna-se um objetivo político, uma demanda. Esse seria um diagnóstico muito diferente daquele que aponta que a banalidade do mal — ou o mal absoluto — está se tornando abrangente no cotidiano ou nas instituições do Estado.

A presença recorrente do conceito de banalidade do mal nos debates públicos parece deixar explícito a angústia constante quanto à imprevisibilidade do mundo e ao apreço pelo valor inestimável da vida. Passamos a atribuir significados diferentes à violência e à injustiça depois da catástrofe produzida pela primeira metade do século XX. Essa é uma noção reforçada não só pela vida ser um valor autoevidente, mas também pela sua preservação ser um compromisso político emergente após o fim da Segunda Guerra – considerado um marco para criação dos direitos humanos, por exemplo.  

A leitura atenta da filosofia de Arendt não sustenta que estamos caminhando para um precipício sombrio de violência generalizada novamente. Nem mesmo confirmaria a ascensão de tantas reencarnações de Hitlers ou Stalins pelo mundo no século XXI.

Deixo, portanto, a pergunta: será que estamos cada vez mais alheios ao mal, como suspeitam alguns, ou temos mais conhecimento e, por isso, muito mais medo das consequências da sua emergência?

Marize Schons é professora no curso de Relações Internacionais do Ibmec-MG mestre em Antropologia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e Doutoranda em Sociologia pela mesma instituição

Notas:
¹ A Condição Humana (1958)
² A Condição Humana (1958)

Estadão. Estado da Arte. 16.5.2019.

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