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Guia rápido de leitura de jornal

Oi,

O tempo é um dos ativos mais subvalorizados no mercado. Mas só percebemos isso muito tarde, e, quando decidimos aproveitar o tempo que nos resta de vida, não temos mais saúde nem disposição. Percebi isso aos 40 anos. Foi no esporte que encontrei uma atividade que me tornou mais completo. Continuei sendo gestor de recursos e adicionei a corrida ao meu dia a dia. Em 2014 troquei a corrida pelo triatlon. Em 2017, passei a escrever para a Inversa. Alguns me perguntam como eu tenho tempo pra tudo isso. Fico até envergonhado de saber intimamente que ainda tenho tempo de sobra no meu dia.

Foram três mudanças no meu estilo de vida que permitiram incluir duas novas atividades sem me sentir pressionado pela falta de tempo. Duas não são de fácil aplicação e dependem de dinheiro ou de outras pessoas. A última é um hábito que pode ser aprendido e aperfeiçoado ao longo do tempo e para mim é a mais importante no que eu faço. Você logo vai entender o motivo — adianto que tem a ver com o título deste texto.

Mudanças:

1) More o mais perto possível do trabalho. Isso pode ser feito de duas formas, nenhuma delas muito fácil ou barata. Se você encontrou o trabalho dos sonhos, procure uma casa perto do local de trabalho. Se não, procure um trabalho perto de casa. “Vivemos” apenas 17 horas por dia. Se gastarmos mais que 50 minutos por dia indo e depois voltando do trabalho, gastamos 10% do nosso tempo no trânsito. Não consigo pensar em desperdício maior de vida que isso. Evitar o trânsito não é uma coisa fácil no curto prazo, mas é possível se for encarado como uma decisão de vida.

2) Não faça reuniões de trabalho desnecessárias.  Essa é outra decisão que nem sempre depende somente de nossa vontade. Muitas vezes acabamos sendo convocados para intermináveis e inúteis reuniões que, se analisadas com frieza, poderiam ser evitadas com um mínimo de esforço das partes envolvidas. Mas você pode fazer a sua parte. Não convoque reuniões desnecessárias nem vá a reuniões onde você não é obrigado a ir, só pra parecer que está fazendo o que todo mundo faz. Um amigo que admiro muito, ao completar 60 anos, fez uma resolução pessoal: “Nunca mais participo de coquetel”. Se não dá para cortar as reuniões, corte pelo menos os coquetéis da sua vida.

3) Leia o máximo de notícias, mas evite todas as opiniões: Tem dias em que muitos fatos novos acontecem e outros em que a vida transcorre sem novidades. Mesmo assim, os jornais praticamente sempre têm o mesmo tamanho. Em média, temos 5% de notícia e 95% de opinião. Isso vale para os relatórios de análise e para dicas de saúde e comportamento. O resultado da Vale, por exemplo, ocupou quase uma página do jornal. Bastava ver a receita, o lucro e o volume vendido e comparar com o ano anterior. Todo o resto eram opiniões e conjecturas.

Quando começamos no mercado nos sentimos inseguros e com poucas informações. Com o tempo vamos tendo acesso a mais fontes até que chegamos ao ponto de receber tantas “informações” que nos sentimos perdidos. Se insistirmos em ler todas, a sensação de insegurança aumenta.

Isso acontece porque, dentro de cada notícia, quem escreve tenta “vender” alguma ideia. Se as ideias são conflitantes, mais leitura acaba levando a mais confusão. Você precisa tentar extrair apenas a notícia daquilo que está sendo lido. Se o objetivo é poupar tempo, pule a parte que exprime apenas opinião, não fatos. 

Para não ficar teórico demais vou dar alguns exemplos…

Notícias sobre Trump/EUA: De acordo com a mídia no Brasil, Trump é o mal absoluto. Tudo que ele faz é errado e desaprovado pelo povo americano. Se acreditarmos nisso podemos tomar decisões erradas. Temos que focar nos fatos, no que ele realmente fez. A meu ver ele não fez praticamente nada. A única coisa relevante até hoje foi ter escolhido um conservador para a Suprema Corte. Em novembro ele toma outra decisão importante, a escolha do novo presidente do FED, o banco central. 

Mas como homem de mídia que é, Trump está sempre jogando para o público. Mas o público dele é muito diferente do jornalista brasileiro ou do New York Times. Ele sabe disso. Ele discursou contra Kim Jong-un, mas negociou com chineses a sanção econômica. Ou seja, nunca houve de fato o risco de guerra contra a Coreia do Norte.  Aproveitou a cortina de fumaça e saiu do acordo com o Irã, assinado por Obama. Está preparando o palco para a guerra que interessa.

Quando ler sobre Trump, saiba que quem escreveu não gosta dele. Não olhe para o que ele falou que vai fazer e sempre para o que ele fez de fato. Assim você economiza 98% do seu tempo com esse tema.

Notícias Políticas: Temer não é tão unânime como Trump, mas, de maneira geral, é muito mal visto pela imprensa e pela população. Não podemos esquecer que nossos políticos de hoje foram eleitos em 2014. A culpa é nossa. Temer é produto do meio onde prosperou, e querer esperar dele um currículo ilibado é perda de tempo. Temos que olhar apenas para o que ele está fazendo na margem. Aprovando reformas: tem meu apoio. Cancelando privatizações pra conseguir votos do Valdemar Costa Neto: tem minha oposição. 

O mesmo vale para o Supremo. Achar que se trata de uma corte isenta que julga questões constitucionais e tem de ser seguida sem questionamentos é de uma inocência imperdoável. Essa corte foi na sua grande maioria construída pelas presidências de Lula e Dilma. O segredo é olhar o impacto da decisão nos mercados e nunca se irritar com o conteúdo. Não gaste energia com o que você não pode mudar.

Notícias econômicas/empresas: ao contrário da política e do futebol, em que todos os brasileiros são especialistas, na economia e, principalmente, na análise de empresas, o jornalista tende a confiar mais na fonte do que na sua própria opinião. Isso torna a leitura mais complicada. Não temos um viés claro. Ele muda de acordo com a fonte utilizada. Por isso cabe a você filtrar apenas o fato e excluir a opinião. Por exemplo: o lucro da Companhia Amada cai 30% e fica acima das expectativas. O fato é que o lucro caiu, o viés claramente positivo é que ele veio melhor que o esperado. Geralmente essas manchetes são seguidas de citações de algum analista interpretando os números. Isso não é notícia, é opinião. Evite a opinião, foque nos fatos.

Não leia nada que fale sobre previsão de preços das ações, de crescimento de PIB… enfim, não leia previsões. Isso não aumenta sua informação e só aumenta sua ansiedade.

O seu tempo é muito valioso para ser gasto no trânsito, em reuniões inúteis e em leituras que não agregam. Notícias são importantes, e opiniões em excesso só confundem e não informam.

Escolha bem o que ler e quem você escuta e você vai ter mais tempo e mais dinheiro. Isso sim é ser rico de verdade. 

Um abraço,

Pedro Cerize

Inversa publicações. 11.5.2019.

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