Entrevistas

Nova pedagogia cria alunos egocêntricos, afirma especialista sueca

Para pedagoga, ensino centrado nos alunos está entre causas da má qualidade da educação

Ensino centrado nos alunos, fim das aulas expositivas e das provas, aprendizado por projetos, desenvolvimento de habilidades sociais e emocionais. Esses e outros conceitos que se disseminam por escolas de países ocidentais, inclusive do Brasil, são um erro.

A opinião é da pedagoga sueca Inger Enkvist, que tem causado polêmica ao criticar a chamada nova pedagogia, em sua opinião a causa da má qualidade da educação e da indisciplina de crianças e jovens, que se tornam egocêntricos, não aprendem a respeitar os colegas e os professores e não têm limites.

Ela está em São Paulo e fez na noite desta quarta-feira (8) a palestra de abertura do Centro de Discussão Educacional, novo laboratório de ideias, ou “think tank”, da Escola Superior de Propaganda e Marketing.

Sua presença serviu de contraponto no evento, com plateia de educadores e empresários convidados, à socióloga Manolita Correia Lima, 60, coordenadora do Núcleo de Inovação Pedagógica da ESPM, criado para estudar tendências da educação e reformular o currículo da universidade considerando que os novos alunos são o centro do aprendizado desde o ensino infantil.

Inger, 71, autora de “Educação: Guia para Perplexos” (editora Kírion) e “Repensar a Educação” (Bunker Editorial), defende suas ideias nesta entrevista à Folha de S.Paulo, em que aborda aspectos ideológicos e políticos para ela envolvidos na educação.

O que é novo e o que é velho quando falamos de pedagogia?

Há dificuldade com essas terminologias. Muitas palavras vagas são usadas nesse campo, que é influenciado pela emoção. Além disso, designam procedimentos que têm mudado ao longo dos anos. Diria que hoje o principal conteúdo da “velha pedagogia” é uma classe em que o professor explica, os alunos escutam e anotam, o professor prepara provas escritas, e os alunos estudam para essas provas. Outra palavra para a mesma atitude seria “tradicional”.

“Nova pedagogia” designa métodos que incluem trabalhos por projetos, em grupo, resumos escritos em vez de provas e apresentações orais acompanhadas de escritas. O professor é visto como alguém do grupo, um coach. Outros fatores tendem a acompanhar essas atitudes. À “velha pedagogia” é associada a visão de que ordem e obediência são importantes para que os alunos aprendam e que os professores devem ser bem formados. A “nova pedagogia” inclui a visão de que a escola não é só para aprender conteúdo e que é importante que inclua propósitos sociais. Os professores devem ser amigáveis e acessíveis, e nenhum estudante pode ser colocado para fora da classe por se comportar mal ou por não estudar.

Muitas pesquisas mostram que os melhores países e as melhores escolas apresentam uma combinação dessas duas atitudes em direção ao tradicional. O professor organiza a aula, explica o conteúdo e checa os trabalhos dos alunos, mas a atmosfera é positiva, e exemplos práticos e trabalhos em grupos são incluídos por pequenos períodos. Salas de aula que dependem fortemente das iniciativas dos próprios alunos têm resultados inferiores, especialmente para aqueles estudantes com maiores dificuldades.

PERGUNTA – Por que algumas ideias da chamada “nova pedagogia” têm-se disseminado tão fortemente pelo mundo?

Inger Enkvist – Essa é uma questão que só pode ser respondida com suposições. Minha suposição seria que tem a ver com a política. A esquerda política tem desejado criar um “novo homem”, e esse projeto começa sempre com as crianças. As escolas são precisamente o lugar onde a sociedade tem acesso às crianças longe de seus pais. Pessoas que querem mudar a sociedade têm ido dar aulas e administrar escolas. A geração que entrou no campo da educação nos anos 1960 e 1970 foi muito influente. O que aconteceu é contraditório. Essa era uma geração antiautoritarismo. Contestava a sociedade autoritária, mas impôs sua própria autoridade. O que se espalhou foi um questionamento da autoridade como tradição e como aprendizado.

Os novos educadores se dedicaram a incluir os alunos com todos os tipos de problema e a se concentrar na situação deles. O lado negativo é que, se permitem que alguns alunos acabem com a concentração da sala de aula, não fazem o que é melhor para todos os alunos. Há uma pesquisa que diz que, se um estudante aprende muito pouco durante os três primeiros anos na escola, será quase impossível superar essa perda de aprendizado depois. Então por que isso se espalhou pelo mundo ocidental? Não foi em razão dos resultados, mas com uma convicção politicamente fundamentada de que é “democrático”.

A nova forma que esse pensamento adota é que a escola deveria não somente oferecer a possibilidade de se estudar de graça, com igualdade de acesso, mas também a de assegurar que todos tenham o mesmo resultado. Esse novo ideal é chamado de equidade. Se todo mundo aprender o mesmo, ainda que muito menos, isso não é visto com um problema real. Minha explicação para a disseminação da nova pedagogia é o sonho de cidadãos perfeitamente iguais.

Não deveríamos supor que a nova pedagogia se disseminou porque os métodos tradicionais têm se tornado ineficientes?

Não, porque as novas ideias, aplicadas de forma massificada, são menos eficientes, o que pode ser claramente visto no Pisa [Programa Internacional de Avaliação de Alunos]. Países como Cingapura, Hong Kong e Japão têm cuidadosamente conduzido aulas centradas no professor que também incluem algum trabalho em grupo, e eles têm uma performance muito melhor do que os países que ensinam a nova pedagogia.

É correto então considerar que a pedagogia tradicional pode ser mais relacionada à direita política e que a esquerda é mais entusiasta da nova pedagogia?

Eu evito esses termos, mas é verdade que parte da esquerda se propõe a promover sua visão condenando outras. Sua questão é uma prova de que esse campo tem sido politizado. Se houvesse simplesmente duas teorias, alguém poderia fazer experiência e ver qual delas é a mais eficiente. Os pedagogos que propõem a nova pedagogia tendem a não aceitar provas, porque costuma dizer que, ainda que haja outros métodos mais eficientes, eles representam o que é bom. Em outras palavras, o campo da pedagogia é uma combinação de alguns aspectos que podem ser avaliados e de outros emocionais e ideológicos, que não podem ser decididos por evidências.

P – O layout da sala de aula influencia o aprendizado?

Enkvist – Sim. O principal alinhamento deve permitir que todos os alunos ouçam e vejam as explicações do professor. Para alunos mais velhos, pode ser feito um círculo. Entretanto, isso depende do número de alunos por classe. Se há mais de, digamos, 25, é quase impossível que se mantenham atentos se as carteiras não estiverem arrumadas de forma que todos possam ver e ouvir bem.

P – É possível manter as tradicionais fileiras de alunos, todos olhando para a lousa, escutando o professor e anotando mesmo quando as crianças e jovens estão imersos na linguagem não linear da tecnologia?

Enkvist – Sim, é. Primeiramente, boas aulas em que você senta e escuta são empolgantes porque você aprende coisas novas. O que o professor diz é adaptado ao que você é capaz de entender e é apresentado de forma que você entenda. Um bom professor também proporciona variações do “senta e escuta” na sala de aula.

É comum atualmente pensar que, porque os jovens estão na internet, eles têm um novo modo de aprender. No entanto, na internet, eles não estão aprendendo novos conceitos e novas relações no campo intelectual de forma eficiente. Usar a internet na escola pode ser divertido, mas é uma perda de tempo se comparamos com o uso de um bom livro didático. Muitas pesquisas dizem nos que nós não aprendemos de fato em frente às telas, e sim decidimos se vamos deixar aquela página para ir para outra mais interessante. Geralmente, o problema não é ouvir e ler muito e sim muito pouco. Jovens têm-se tornado menos capazes de se concentrar em ler e escutar. A esse respeito, em geral, são estudantes menos competentes.

P – A sra. considera um erro a tendência do ensino centrado no aluno?

Enkvist – Em primeiro lugar, esse termo é enganoso. Ele normalmente se refere aos estudantes terem o direito de escolher o que aprender e em qual ritmo. Isso rompe a unidade da sala de aula e muda o papel do professor para alguém que precisa ter vários conteúdos diferentes para oferecer para estudantes, os quais parecem trabalhar por conta própria. Aprendizado centrado no aluno é a solução para professores que têm que organizar o trabalho de estudantes com habilidades e interesses muito diferentes na mesma sala de aula. Porém, aprendizado eficiente é um conteúdo preparado e explicado por um professor. De forma que isso possa funcionar, os estudantes têm que estar no mesmo nível mais ou menos, que é como estão em Cingapura, Finlândia, Estônia, Suíça e outros países bem-sucedidos na educação.

P – Por que a senhora acredita que os professores estão perdendo a autoridade?

Enkvist – As razões são diversas. Na América Latina, uma razão é que muitas escolas foram estabelecidas antes que houvesse fundo adequado e professores bem treinados para assumi-las. Ao mesmo tempo, mais ou menos nos anos 1960 e 1970, as mulheres tiveram acesso mais fácil a todo o tipo de profissão. Mulheres com interesses e capacidades intelectuais deixaram o ensino para ganhar salários mais altos e por trabalhos com condições mais recompensadoras. A qualidade da educação estava baseada nessas mulheres, que eram inteligentes, trabalhavam duro e aceitavam salários um tanto baixos. Quando elas saíram, as vagas foram preenchidas, em geral, por pessoas menos qualificadas e menos dedicadas.

P – É possível ter um sistema equilibrado em que os professores mantenham a autoridade e, ao mesmo tempo, o aprendizado seja centrado nos alunos?

Enkvist – A questão está preocupada com termos e não com realidades. O aluno é sempre o centro, uma vez que é o aluno que está aprendendo. Nesse sentido, o termo “centrado no aluno” é vazio. A educação realmente centrada no aluno são aulas particulares, e isso não pode ser introduzido em larga escala porque não há professores suficientes, e os custos seriam proibitivos. O bom ensino é baseado em um professor inteligente e bem formado com uma classe disposta a aprender.

P – Uma tendência forte na educação é a necessidade de se desenvolver habilidades sociais e emocionais nos alunos, que iriam ajudá-los na carreira e também fazê-los mais felizes. O que a sra. acha?

Enkvist – Essa é mais uma falsa premissa. O ensino bom automaticamente desenvolve essas habilidades. Quando tudo funciona bem, o estudante no primeiro ano aprende a ser pontual, a se sentar quando deve se sentar, a ouvir atentamente, a fazer perguntas educadamente, a participar em situações de aprendizado respeitando os outros alunos, a seguir instruções, a se concentrar em aprender, por exemplo, a ler, e a trabalhar de forma cuidadosa quando está aprendendo a escrever no livro de exercícios. Tudo isso é promover habilidades sociais e emocionais ao mesmo tempo em que se aprende o conteúdo. O que é um problema é quando a escola entende que ser centrada no aluno ou ser inclusiva é permitir que os alunos não sigam regras e instruções. Isso faz os alunos tão egocêntricos que, aí sim, eles precisam desse conhecimento extra de “habilidades sociais e emocionais”.

P – A sra. escreveu um artigo sobre a influência do politicamente correto na relação entre professores e alunos, dizendo que os professores hoje são alertados a evitar falar de temas sensíveis, como feminismo, racismo e gênero. A sra. defende que essa situação criou um ambiente em que todos têm medo de todos. Como isso poderia mudar?

Enkvist – Essa é uma das mais importantes questões atuais. Se continuarmos a deixar que ideólogos ditem o que deve ser pesquisado, ensinado e dito, deixamos o campo da liberdade de pensamento que tem nos levado ao progresso. Devemos defender professores, pesquisadores e jornalistas que tentam se basear em fatos mais do que em ideologias. Essa é mais uma razão pela qual professores deveriam ser recrutados entre as melhores universidades, porque serão muito bem informados. As administrações estão com medo e curvadas diante das ondas da internet. 

Folha de São Paulo. 9.5.2019.

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