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Faulkner, o Bukowski bom

Acabam de regressar às livrarias duas novelas do escritor americano, “Palmeiras Bravas” e “Rio Velho”. Apenas mais duas provas da importância de Faulkner para a literatura.

Título: “Palmeiras Bravas/ Rio Velho”
Autor: William Faulkner
Editora: Dom Quixote
Páginas: 304

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A competente e rigorosa edição que a Dom Quixote acaba de lançar das duas novelas que William Faulkner intercalou num mesmo volume é acompanhada por um prefácio de Jorge de Sena em que o Sena cita Faulkner para justificar que o escritor tenha optado por juntar as duas histórias por exemplificarem dois “diferentes tipos de amor”: no caso de Rio Velho, o de um forçado que se vê miraculosamente fora da prisão, encontra uma rapariga prestes a dar à luz e garante a salvação de mãe e bebé antes de se entregar às autoridades quando estas o imaginavam morto; no caso de Palmeiras Bravas, o amor de uma mulher que abandona o marido e as filhas para fugir com um amante para longe de todas as responsabilidades e rotinas. No primeiro, como correctamente sugere Jorge de Sena, trata-se de maternidade sem amor, no segundo, amor sem maternidade, um amor, segundo Sena, “irmão da morte”, mas que, para Faulkner, é também o único verdadeiramente irmão da vida.

A preferência de Faulkner pelo casal de amantes fugitivos é evidente e explícita. O forçado vive o milagre que lhe é colocado de repente nas mãos como um embaraço do qual procura fugir a todo o custo. Passa dias e dias com a roupa da prisão e quando, sem que ele se tenha esforçado minimamente nesse sentido, lhe é oferecida roupa de civil, usa-a a contragosto durante apenas alguns dias antes de regressar à sua roupa predilecta. Nunca olha para a rapariga com quem passa os dias com medo de se deixar seduzir. Anda sempre com uma liana a prendê-lo ao barco, para, imaginamos nós, não esquecer as algemas de que, sem o desejar, se tinha libertado e afirma mais do que uma vez que “tudo o que eu quero no mundo é apenas entregar-me [às autoridades]”.

Não deixa de ser peculiar que o protagonista de Rio Velho, tal como aliás o médico e a sua fiel esposa vizinhos de Harry Wilbourne e Charlotte Rittenmeyer em Palmeiras Bravas, não tenha nome e seja sempre referido como “o forçado”. Como se a submissão destas personagens às regras (quase sempre aleatórias ou injustas) ditadas pela sociedade as anonimizassem, como se essa anonimidade fosse desejada e desesperadamente procurada pelas personagens. Como se temessem o momento em que deixassem de agir como forçados, médicos ou esposas e agissem, por um segundo, como pessoas com direito a nome próprio e apelido.

Sob este ponto de vista, é importante sublinhar que em Rio Velho, exceptuando Catan, o intrépido caçador de crocodilos, apenas o próprio rio Mississípi tenha nome, um nome que ainda assim não lhe é dado de forma gratuita (apenas é indicado explicitamente uma vez ao longo da novela). O baptismo do Mississípi por Faulkner parece assim dever-se não à sua extensão, não ao papel fundamental que teve na história dos Estados Unidos da América, mas precisamente ao facto de se ter individualizado, de não ter feito o que era de si esperado (levar placidamente a água desde a sua fonte até aos oceanos), ao facto de ter extravasado os limites a que os diques humanos o haviam confinado: “Os anos intermédios, durante os quais o rio suportara sob o seu seio plácido e adormecido a acção de inúteis máquinas, fruto da grosseria inventiva do homem, esses sim, eram a excepção, sendo isto agora a regra; o rio fazia agora aquilo que gostava de fazer, aquilo que pacientemente tinha esperado dez anos para fazer, como a mula, que é capaz de trabalhar dez anos para o dono só pelo privilégio de lhe poder dar um dia um coice”. No entanto, até o rio Mississípi é alvo da censura de Faulkner por, no fim de tudo, regressar ao seu caudal antigo.

É Palmeiras Bravas a mais interessante das duas novelas, na medida em que permite afirmar Faulkner como o elo perdido que liga escritores como Kerouac ou Bukowski a uma certa descrição do cristianismo. Longe das exageradas e infantis simplificações do mundo levadas a cabo quer pelo movimento beat quer pelo escritor mais amado de todo o histerismo inconsequente dos eternos adolescentes, Faulkner parece ter uma posição robusta e violenta contra o conservadorismo sexual e social estadunidense do seu tempo, contra “os gemidos seminais das molas da cama, o preprandial aliviar da próstata após dez anos de casados”, contra a respeitabilidade das contas pagas no fim do mês, da relva aparada todos os domingos, dos pratos que se cozinham por tradição apesar de ninguém gostar deles, contra a elevação a virtudes teologais do trabalho e da poupança. Esta violência de Faulkner não deixa, ainda assim, de fazer do escritor, em certo sentido, um moralista religioso, uma vez que o ataque feito à respeitabilidade e aos bons costumes é feito porque esses valores vieram substituir o amor e, mais concretamente, o amor cristão. É um ataque que visa salvar o amor da moderação e da urbana civilidade: “Temos a telefonia em lugar da voz de Deus, e em vez de pouparmos a moeda das emoções durante meses e anos para merecermos uma oportunidade de gastá-la toda em amor, dissipamos isso em moeda miúda (…) Se Jesus hoje voltasse, teríamos de crucificá-lo depressa em defesa própria, para justificarmos e preservarmos a civilização que desenvolvemos e sofremos e morremos, guinchando e praguejando de raiva e de impotência e de terror, em dois mil anos de a criarmos e aperfeiçoarmos à imagem do homem; se Vénus voltasse, seria um homem sórdido numa retrete de metropolitano”.

A importância de Faulkner para a literatura vai, contudo, bastante mais além do que os escritores que inspirou ou das ideias que promoveu. Turner disse um dia, a propósito de uma crítica a um quadro, que o seu trabalho era o de pintar o que via e não o que sabia que estava lá. A lição de Turner, que seria depois aproveitada pelos artistas impressionistas, parece ser muito querida a Faulkner, que sistematicamente se livra das ligações necessárias e lógicas que estabelecemos de forma trivial em relação aos elementos que compõem o nosso mundo. Assim, ainda que a ciência mais básica e o senso comum mais elementar nos expliquem que as palmeiras batem em consequência do vento e não para insuflar o próprio vento, Faulkner descreverá as noites ventosas de New Orleans dizendo que Harry “ali estava na escuridão, no firme e forte vento do mar que o seco estralejar das frondes de invisíveis palmas enchia”.

Finalmente, importa apontar para o absoluto virtuosismo e para a perfeição do primeiro capítulo de ambas as histórias, em que o forçado é descrito como uma espécie de madame Bovary encarcerada no sul dos Estados Unidos e em que o casal nos é apresentado à luz hesitante e trémula da lanterna do médico vizinho.

joaopvala@gmail.com

[artigo corrigido a 7 de abril de 2019 às 19h53: foi retirada a informação errada de que as novelas “Palmeiras Bravas” “Rio Bravo” nunca tinham sido publicadas em Portugal]

O Observador. 7.4.2019.

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