Escrever Para Não Enlouquecer – Por Neemias

A ressaca moral é um fenômeno curioso.
Ela não vem com dor de cabeça — vem com consciência.
E, sejamos honestos, consciência dói muito mais.
Segunda-feira ajuda a dramatizar. Parece que o universo agenda o confronto exatamente para o dia em que você já não queria existir antes das 9h.
O corpo até levanta, toma um café, finge dignidade.
Mas a alma… a alma ainda está sentada no meio-fio da noite anterior, olhando para o nada e perguntando:
“precisava mesmo?”
Não precisava.
Mas foi.
E aqui começa o espetáculo.
Existe um momento específico da ressaca moral que deveria ser estudado pela ciência: aquele instante em que você acorda e, por dois segundos, ainda não lembra de nada.
É um pequeno paraíso.
Aí a memória volta.
E volta com força.
Sem educação.
Sem aviso.
E você pensa:
“interessante… ontem eu era uma pessoa, hoje sou um estudo de caso.”
O mais fascinante é que, durante o ocorrido, tudo parecia uma excelente ideia.
O boteco parecia filosofia líquida.
O segundo lugar parecia necessário.
E qualquer decisão posterior parecia… inevitável.
Há uma lógica interna na autossabotagem que, se bem observada, daria um tratado.
Mas ela só funciona à noite.
De dia, ela vira vergonha.
A ressaca moral é, no fundo, um conflito de versões.
De um lado, o “eu da noite”:
livre, solto, criativo, ousado, meio irresponsável, mas com carisma.
Do outro, o “eu da manhã”:
juiz, promotor, testemunha e, se bobear, carrasco.
O curioso é que os dois são você.
E nenhum dos dois está completamente certo.
Durante muito tempo, achei que o problema era o comportamento.
Hoje suspeito que o problema seja a divisão.
Porque não é exatamente o que você faz que dói.
É o fato de uma parte de você dizer:
“isso não combina com quem estamos tentando ser.”
E a outra responder:
“mas era o que dava pra fazer naquele momento.”
E pronto. Está instaurado o tribunal.
A moral entra nessa história como aquela tia que ninguém convidou, mas aparece mesmo assim.
Ela chega com um monte de regras antigas, herdadas, meio empoeiradas, e começa:
“isso não pode”,
“isso é feio”,
“isso não é digno”.
Você nem lembra quando concordou com tudo isso.
Mas está lá dentro, funcionando perfeitamente.
E então vem a grande questão:
será que o problema é viver demais…
ou viver sem saber por quê?
Porque convenhamos — não é liberdade quando você só troca um tipo de prisão por outro.
Tem gente presa na regra.
Tem gente presa na fuga.
Ambos chamam isso de vida.
A ressaca moral, por mais desagradável que seja, tem uma qualidade rara:
ela é honesta.
Ela não deixa você fingir que está tudo bem.
Ela não aceita discurso bonito.
Ela não se impressiona com promessas de “nunca mais”.
Ela só aponta, em silêncio:
“tem algo desalinhado aí dentro.”
E talvez a saída não seja virar santo.
Nem virar caos ambulante.
Talvez seja algo mais difícil, mais adulto, mais… chato, inclusive:
entender.
Entender o que você está buscando quando se perde.
Entender o que está tentando evitar.
Entender por que certas noites começam muito antes de começarem.
Porque, no fim das contas, a ressaca moral não é o problema.
Ela é o recibo.
E, gostando ou não, recibos costumam ser precisos.
Hoje, quando ela aparece, tento fazer algo revolucionário:
não me xingar.
Olho, respiro, penso:
“ok… interessante… o que aconteceu aqui?”
Ainda não virei um sábio.
Mas já deixei de ser meu próprio carrasco.
E, curiosamente, isso tem dado mais resultado do que qualquer promessa feita às 8h da manhã com gosto de arrependimento na boca.
A verdade é simples, mas meio indigesta:
viver não é não errar.
É parar de errar sempre do mesmo jeito
achando que, dessa vez, vai ser diferente.
Se não for possível evitar a queda…
que pelo menos ela sirva de material.
Porque, no mínimo, dá uma boa crônica.
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E não se esqueça: Sábado, nossa coluna “Escrever para Não Enlouquecer” fala sério — mas só porque o universo exige equilíbrio. Segunda a gente volta com humor para os dias difíceis.

⚡ Neemias Moretti Prudente é escritor, advogado, professor, filósofo míscômico e editor-chefe do Factótum Cultural.





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