Um dia desses, numa conversa com meu irmão, surgiu uma daquelas frases que parecem sentença final:

“As pessoas não mudam.”

Dita assim, seca, quase soa como um carimbo existencial. Caso encerrado. Próximo.

Mas a vida — essa criatura indisciplinada — não gosta de respostas simples.

Eu discordei. Mas não totalmente.

Disse a ele: talvez a gente não mude completamente. Talvez ninguém vire outra pessoa. Mas se alguém muda em torno de 20%… já mudou muita coisa.

E aí começa o território interessante.

Porque no fundo, todos nós temos um certo “programa”.

Um jeito de reagir, de amar, de fugir, de ferir, de viver.

E esse programa não começa só na infância.

Ele começa antes.

Carregamos no corpo traços genéticos, tendências emocionais, padrões herdados. Carregamos, inclusive, marcas invisíveis de experiências que nem vivemos diretamente — medos, tensões, traumas, formas de reagir que atravessam gerações.

É como se não nascêssemos com uma folha em branco (ou tabula rasa), como sustentava John Locke.

Mas com um rascunho já iniciado.

Tem gente que explode.
Tem gente que se cala.
Tem gente que controla.
Tem gente que se perde.

E isso… tende a se repetir.

Mas repetir não é destino. É padrão.

E padrão pode ser visto. E, quando visto, pode ser interrompido.

Não eliminado. Interrompido.

Essa é a diferença entre fantasia e realidade.

Ninguém vira santo do nada.
Mas alguém pode deixar de ser destrutivo.
E isso já salva uma família inteira.

No caso do meu parente X, por exemplo, a pergunta não é se ele vai se transformar em outra pessoa.

Provavelmente não vai.

A pergunta honesta é:

Ele consegue ser um pouco melhor do que sempre foi?

Menos agressivo.
Menos duro.
Menos controlador.
Menos cego para o outro.

20% já mudaria muita coisa.

Mas aí entra a parte que pouca gente gosta de encarar:

Nem todo mundo quer mudar.

Porque mudar exige olhar pra dentro — e lá dentro nem sempre tem luz bonita, tem bagunça, tem culpa, tem sombra, tem dor antiga mal resolvida.

E tem gente que prefere continuar machucando do que revisitar a própria ferida.

Duro? Sim.
Mas real.

Por outro lado, existe uma armadilha igualmente perigosa:

acreditar que ninguém muda.

Porque isso vira desculpa para desistir — dos outros e de si mesmo.

E aí a gente congela a vida num retrato antigo, como se ninguém tivesse direito a evolução.

A verdade, como quase sempre, está no meio:

As pessoas não mudam completamente.
Mas podem se tornar versões melhores — ou piores — de quem já são.

E isso não é pouca coisa.

Isso define casamentos, famílias, destinos.

No fim, talvez a pergunta mais importante nem seja sobre o outro.

Mas sobre nós.

Diante de tudo que vivi, do que herdei, do que me atravessou antes mesmo de eu existir…

Eu vou repetir?

Ou vou interromper?

Porque às vezes, a maior mudança de uma história
não acontece em quem começou o erro…

mas em quem decidiu não continuar.

E isso, por si só, já é uma forma de luz.

Haux 🌿

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Neemias Moretti Prudente é escritor, advogado, professor, filósofo míscômico, psicanalista em formação e editor-chefe do Factótum Cultural.

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