Se qualquer coisa te abala, o problema não é o impacto. É a estrutura.

Outro dia pensei em escrever uma opinião.
Desisti. Fiquei com medo de ferir alguém… inclusive alguém que ainda nem nasceu.

Vivemos na era em que até o silêncio pode ser ofensivo.
Se você fala, agride.
Se você não fala, invalida.
Se você pensa… cuidado, pode ser crime em breve.

Se você tenta conhecer alguém, invade.
Se você demonstra interesse, pressiona.
Se você recua, é frio.
Se insiste um pouco mais… já virou suspeito.

E nas redes sociais então… é um campo minado com filtro bonito.
Você reage, é interpretado. Você não reage, é ignorante.
Se elogia, tem interesse. Se critica, é ataque.
No fim, não é diálogo — é sobrevivência emocional com plateia.

A sensação é que entramos num grande reality show emocional, onde todo mundo está disputando o prêmio de “mais afetado da semana”.

E o prêmio?
Likes, validação e um lugar confortável na vitrine da dor performática.

Não é que as pessoas estejam mais frágeis.
Estão mais… frescas.

É diferente.

Antes, a vida te batia e você aprendia a levantar.
Hoje, a vida encosta e já tem gente abrindo boletim de ocorrência emocional.

“Fui contrariado às 14h32. Ainda estou me recuperando.”

E claro, surgiram os especialistas.
Os tradutores oficiais do comportamento humano:

— “Isso é tóxico.”
— “Isso é narcisista.”
— “Isso é gatilho.”

Virou bingo psicológico. Só falta cartela e prêmio no final.

A pessoa te conhece há 12 minutos e já te diagnosticou com três transtornos e um trauma de infância.
Te rotula. Te julga. Cria um preconceito inteiro… em tempo recorde.
E antes mesmo de te entender, já decidiu se afastar — e, se possível, te excluir.

Freud deve estar revirando no divã.
E Jung… provavelmente olhando tudo isso como uma bela projeção coletiva.

Mas vamos combinar uma coisa que ninguém quer dizer em voz alta:

nem tudo que dói é trauma.
às vezes é só a vida te dando um leve tapa para você acordar.

Só que acordar dá trabalho.
Então é mais fácil criar uma narrativa.

É mais confortável dizer “fui ferido” do que admitir “fui contrariado”.
É mais elegante parecer profundo do que parecer imaturo.

E assim nasce a figura mais comum do nosso tempo:
o adulto emocionalmente terceirizado.

Ele sente, mas não sustenta.
Ele fala, mas não escuta.
Ele exige, mas não suporta.

Quer respeito, mas não aguenta discordância.
Quer verdade, mas só se vier embaladinha em algodão doce.

E no meio disso tudo, as relações viraram campo minado.
Você não conversa mais. Você negocia riscos.

“Posso dar minha opinião ou você prefere que eu minta com carinho?”

E sabe o mais irônico?

Enquanto todo mundo está preocupado em não ferir ninguém…
ninguém está ficando mais forte.

Estamos criando uma geração que sabe identificar tudo…
menos lidar com qualquer coisa.

Mas calma, nem tudo está perdido.

Ainda existe um grupo raro, quase clandestino…
gente que sente, mas não faz espetáculo.
que sofre, mas não faz marketing.
que cresce, mas não posta.

Esses são perigosos.

Porque não precisam de plateia.
Não precisam de rótulo.
E, principalmente, não precisam transformar cada desconforto em manifesto.

Eles só vivem.

E viver, hoje, é quase um ato de rebeldia.

Então aqui vai minha humilde sugestão para sobreviver nesse circo:

Sinta.
Mas aguente.
Fale.
Mas sustente.
E, de vez em quando…
pare de transformar tudo em drama e só resolva.

Eu sei.
Radical demais.

Cuidado… isso pode ofender alguém.

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E não se esqueça: Sábado, nossa coluna “Escrever para Não Enlouquecer” fala sério — mas só porque o universo exige equilíbrio. Segunda a gente volta com humor para os dias difíceis.

⚡ Neemias Moretti Prudente é escritor, advogado, professor, filósofo míscômico, psicanalista em formação e editor-chefe do Factótum Cultural.

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