Illustration of a brain tree with people reading and playing music, with text NEUROPLASTICIDADE CEREBRAL.
Esta bela ilustração usa a metáfora de uma árvore em crescimento para mostrar como nossos cérebros se adaptam e evoluem por meio de diferentes atividades.

A história de cada indivíduo não começa no nascimento, mas bilhões de anos antes, por meio da evolução da espécie, processo conhecido como filogênese. Como destaca a literatura clássica e as revisões da neurociência brasileira, somos herdeiros de um sistema nervoso moldado para sobreviver, reproduzir e aprender (VENTURA, 1997; 2010). É essa base biológica que permite a neuroplasticidade, a capacidade do cérebro de se transformar fisicamente durante as interações com o mundo. Em tarefas de aprendizado, por exemplo, estima-se um aumento médio de 15% a 20% na densidade das conexões entre os neurônios (SILVEIRA, 2004; HOLTMAAT et al., 2006).

Imagine um jovem psicólogo em um laboratório observando o comportamento de um organismo; ele não vê apenas movimentos isolados, mas a ontogênese, que é a história de vida desse ser, em pleno curso. Ao aplicar a técnica de modelagem, esse profissional atua como um escultor: o reforço de pequenas variações de ações fortalece o que se aproxima do objetivo, enquanto a interrupção desse reforço, chamada de extinção, gera a variabilidade necessária para que o novo comportamento surja (FERREIRA, 2023).

Por trás de cada pequena vitória nesse processo, ocorre uma reorganização cerebral mensurável. Pesquisas de imagem cerebral mostram ativação sustentada em áreas ligadas à recompensa durante o aprendizado, consolidando novas trilhas físicas no cérebro (ZHANG et al., 2019).

Essa plasticidade é fundamental para combater alterações prejudiciais, como as observadas em casos de dependência química (VOLKOW et al., 2011). No Brasil, o uso de protocolos de neuroimagem tem ajudado a integrar a análise do comportamento à prática clínica, melhorando o cuidado com a saúde mental (VENTURA, 2010; CNPQ, 2023). Entretanto, o sentido do trabalho desse psicólogo não se encerra na biologia; ele busca a adaptação social, que envolve comportamentos sensíveis ao contexto e às outras pessoas. Emoções e pensamentos, embora sejam eventos privados, ganham significado real quando compartilhados dentro de uma cultura.

Estudos confirmam que as comunidades que utilizam a linguagem transformam sensações biológicas brutas em sentimentos nomeados e compreendidos (GLEESON et al., 2022). Sem o “outro” para reforçar e validar essas experiências, o sentido da existência se perderia (TODOROV, 2007). No cenário brasileiro, a integração entre a análise experimental e a clínica cresce e promove mais inclusão (VENTURA, 2010). Como proposto pelas teorias de B. F. Skinner, cada paciente é o resultado da conexão entre os níveis filogenético, ontogenético e cultural, onde os processos de reforço e extinção moldam quem somos. Para o psicólogo, a análise funcional é a ferramenta que identifica essas conexões no dia a dia. Somos, portanto, unidades que misturam biologia e comportamento, onde o peso das doenças mentais (OMS, 2002) é aliviado por meio de sinapses esculpidas pelas relações sociais e um sentido de vida construído passo a passo.

Referências

CNPQ. Relatórios de gestão e investimentos em neurociência no Brasil. Brasília: CNPq, 2023.

FERREIRA, A. L. Modelagem como procedimento para o ensino de novos comportamentos. Espectro: Revista Brasileira de Análise do Comportamento Aplicada ao Autismo, v. 2, n. 1, p. 1-16, 2023.

GLEESON, J. et al. Social verbal communities fMRI meta-analysis. Neuroscience & Biobehavioral Reviews, v. 140, p. 104-115, 2022.

HOLTMAAT, A. et al. LTP-induced spine formation. Neuron, v. 50, n. 1, p. 129-137, 2006.

ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE (OMS). Relatório sobre a saúde no mundo 2002. Genebra: OMS, 2002.

TODOROV, J. C. A psicologia como o estudo de interações. Psicologia: Teoria e Pesquisa, Brasília, v. 23, n. esp., p. 57-61, 2007.

VENTURA, D. F. Report on experimental biology in Brazil. In: BEVILACQUA, L. (org.). Science in Brazil: an overview. Rio de Janeiro: Academia Brasileira de Ciências, 1997. p. 16-31.

VENTURA, D. F. Um retrato da área de Neurociência e comportamento no Brasil. Psicologia: Teoria e Pesquisa, Brasília, v. 26, n. esp., p. 123-129, 2010.

VOLKOW, N. D. et al. Dopamine D2 receptors and reward: variations as a function of age and addiction. The Journal of Neuroscience, v. 31, n. 37, p. 13241-13250, 2011.

ZHANG, Y. et al. Reinforcement learning and the ventral striatum: a meta-analysis of fMRI studies. NeuroImage, v. 198, p. 1-12, 2019.

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Adriano Nicolau da Silva, Psicoterapeuta, Neuropsicopedagogo e Neuroeducador. Graduado em Psicologia e Filosofia. Especialista nas áreas de educação e clínica. Uberaba, MG. Colunista do Factótum Cultural. E-mail: adrins@terra.com.br

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