Começou com uma luz dourada, em plena segunda-feira. Não dessas que vêm da lâmpada do quarto ou do sol batendo na cortina às sete da manhã. Era uma luz mais íntima, meio indecente até — daquelas que invadem sem pedir licença e acendem perguntas que você não estava pronto para responder.

E foi aí que tudo começou a desandar.

Ou a começar de verdade — o que, no fundo, dá na mesma.

Porque quando o tal do “despertar” chega, ele não bate na porta com educação. Ele arromba. E leva embora, sem cerimônia, tudo aquilo que você achava que era: nome, história, certezas, planos de longo prazo e até aquela versão sua que respondia “tudo bem” sem pensar duas vezes.

De repente, você se vê ali, meio suspenso, como quem perdeu o chão — e o teto também, só pra garantir. E aí vem a pergunta que ninguém gosta de fazer, mas que insiste em aparecer como notificação do universo:

“E se eu não for isso tudo que eu sempre achei que era?”

Silêncio.

Um silêncio bonito, profundo… e levemente desesperador.

Porque fomos treinados desde cedo a acreditar que realidade é aquilo que se mede, se pesa, se posta. Que somos o corpo, o currículo e, em dias melhores, o feed bem organizado. Que liberdade é andar na linha, pagar as contas e não dar problema.

Liberdade, veja só, virou uma espécie de prisão confortável — com Wi-Fi, streaming e um certo senso de dignidade social.

E a gente aceita. A gente até gosta.

Até que não dá mais.

Até que alguma coisa em você começa a se mexer, como um rio que percebe, tarde demais, que não nasceu pra ficar parado. E então ele corre. Não porque sabe o caminho, mas porque não consegue mais fingir que não há oceano.

E é nesse ponto que o buscador nasce — não por escolha, mas por exaustão.

Você começa a questionar tudo: regras, papéis, expectativas. Começa a suspeitar que talvez essa tal de “vida normal” seja só um acordo coletivo muito bem ensaiado. E aí, pronto: o mundo continua igual, mas você não cabe mais nele do mesmo jeito.

E isso, meu caro, parece muito com loucura.

Mas nem toda loucura é doença. Algumas são… ruptura.

Existe, sim, a loucura que desorganiza, que adoece, que precisa de cuidado, de ciência, de amparo. Mas existe também aquela outra — mais silenciosa, mais sutil — que acontece quando a consciência começa a escapar das grades invisíveis que sempre chamamos de realidade.

É quando você não se reconhece mais, mas também não sabe quem é.

E isso assusta.

Assusta porque as referências somem. O mapa desaparece. O GPS interno entra em pane e, no lugar da rota, surge apenas uma instrução meio enigmática:

“Siga sem saber.”

A mente não gosta disso. A mente quer controle, definição, etiqueta. Quer saber se você está evoluindo ou regredindo, iluminando ou surtando. E, como não encontra resposta, entra em pânico — esse velho conhecido que adora parecer importante.

Mas, no meio desse caos todo, existe algo curioso.

Algo que não se desespera.

Uma presença silenciosa que observa tudo: o medo, a dúvida, a confusão, o drama. Uma testemunha discreta, que não tenta consertar nada — apenas vê.

Se você ainda consegue perceber essa presença, mesmo que de longe, então respira: você não se perdeu.

Você só saiu das referências.

E sair das referências, convenhamos, é um esporte radical.

Porque sem elas, você não sabe mais onde se apoiar. Não sabe mais o que pensar, o que sentir, o que esperar. E aí começa a fase mais curiosa de todas: você aprende a existir sem precisar se explicar.

É meio desconfortável. Meio libertador. Meio tudo ao mesmo tempo.

A família estranha. Os amigos perguntam se está tudo bem. Você responde que sim, mas não tem certeza. Não porque esteja pior — mas porque já não sabe mais o que significa “estar bem”.

E, no meio disso tudo, algo em você relaxa.

Não completamente, claro. O ego ainda tenta retomar o controle de vez em quando, como um gerente demitido que volta pra dar ordens. Mas já não manda tanto quanto antes.

Você começa a perceber que não precisa mais segurar tudo. Que talvez — só talvez — a vida não precise ser entendida para ser vivida.

E então vem o insight, desses simples e devastadores:

Despertar não é se tornar alguém melhor.

É parar de insistir em ser alguém.

É deixar cair, aos poucos, aquilo que nunca foi você de verdade. E perceber que, por baixo de tudo isso, não existe um vazio ameaçador… mas um espaço vivo, aberto, silenciosamente presente.

O tal do mistério.

E o mais curioso?

Ele não exige respostas. Só presença.

No fim das contas, talvez a iluminação não seja um estado elevado, distante, reservado para poucos iluminados de túnica branca. Talvez seja só isso aqui: essa estranha capacidade de continuar, mesmo sem entender.

De rir um pouco, mesmo sem motivo.

De respirar, mesmo sem garantia.

E de olhar pra própria confusão e pensar:

“Ok… não faço ideia do que está acontecendo. Mas, de algum jeito, isso também sou eu.”

Ou talvez não seja.

E tudo bem também.

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Neemias Moretti Prudente é escritor, advogado, professor, filósofo míscômico e editor-chefe do Factótum Cultural.

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