Minha reflexão parte da premissa de que a trajetória que se inicia no rigor dos laboratórios de psicologia experimental e alcança a complexidade da nossa vida cotidiana revela um ser humano profundamente estimulado pelas circunstâncias do ambiente. Como estabelecido por Skinner (1953), entendo o comportamento como uma função de contingências historicamente determinadas; para mim, a câmara de condicionamento não é uma simplificação reducionista, mas um modelo metodológico fundamental para identificar relações funcionais básicas. No cenário em que vivemos, percebo que a liberdade é, muitas vezes, uma ilusão mantida por sistemas de recompensas. O comportamento operante acaba sendo capturado por estruturas que ditam o ritmo da nossa saúde mental, enquanto o condicionamento respondente, estudado por Watson (1913), me permite demonstrar como nossas respostas emocionais e de medo são generalizadas por meio de associações entre estímulos.

Observo que estamos imersos em um estado de entorpecimento mental onde a tecnologia atua como o mecanismo de alimentação de uma grande caixa experimental. Segundo os estudos de Montag e Elhai (2019), os ambientes digitais operam sob esquemas de reforçamento intermitente, que reconheço por sua alta resistência à extinção e pelo potencial de manter padrões compulsivos. Essa dinâmica gera o que classifico como contingências desorganizadas. Apoiado em Banaco (1997) e Moreira e Medeiros (2007), utilizo a análise funcional para compreender como o indivíduo, sob a pressão de controles aversivos e imprevisíveis, desenvolve quadros de angústia e confusão mental.

Entendo que a angústia surge justamente desse controle por forças difusas. Conforme discutido por Hayes, Strosahl e Wilson (1999), processos como a esquiva e o controle rígido por regras verbais podem desconectar as pessoas de seus reforçadores naturais, o que exacerba o sofrimento. O isolamento social, como apontado por Kross et al. (2021), manifesta-se em minha prática como uma redução de interações reforçadas socialmente, levando a uma linha de base empobrecida que favorece a inércia e sintomas depressivos. Noto que a ideologia contemporânea reforça esse estado ao sugerir que o mal-estar é puramente individual, ocultando as engrenagens ambientais que produzem a vigilância contínua e a ansiedade digital, fenômenos bem documentados por Odgers e Jensen (2020).

A meu ver, a modelagem da existência atual assemelha-se ao treino de aproximação realizado em laboratório, mas com uma finalidade que corrói a paciência metodológica necessária para o desenvolvimento de habilidades sociais profundas. Como descreve Baum (2017), o nível cultural de seleção do comportamento tem sido alterado pela mediação tecnológica, favorecendo o imediatismo. Considero que reconhecer essas forças, conforme os princípios de Ferster e Skinner (1957) sobre esquemas de reforço, é o nosso primeiro passo para reorganizar as circunstâncias da vida. Somente ao retomarmos o controle sobre as consequências que valorizamos é que poderemos romper com o isolamento e transformar o microcosmo da caixa em um espaço de liberdade real.

Defendo que a eficácia da intervenção clínica para a saúde mental não deve residir em rótulos comerciais ou termos de conotação mentalista. Minha visão da verdadeira Terapia Analítico-Comportamental é a de uma extensão direta do Behaviorismo Radical, focando na reorganização das contingências reais e não em constructos hipotéticos. O benefício para a saúde mental surge quando auxiliamos o indivíduo a identificar as variáveis que controlam suas respostas de esquiva e a modelar novos comportamentos que produzam reforçadores naturais e duradouros.

Concluo, portanto, que a libertação desse “entorpecimento mental” exige que reconheçamos as paredes invisíveis da nossa caixa cultural. Minha proposta para uma clínica pautada exclusivamente em evidências da análise do comportamento rejeita o uso de jargões que mascaram a determinação ambiental do sofrimento. Ao priorizarmos a análise funcional rigorosa (Banaco, 1997), fazemos com que a psicologia deixe de servir a instituições que visam ao lucro e passe a servir à emancipação humana, transformando a inércia e a angústia em agência e controle sobre a própria existência.

REFERÊNCIAS

BANACO, R. A. Análise funcional do comportamento. Psicologia: Teoria e Pesquisa, Brasília, v. 13, n. 3, p. 241–251, 1997.

BAUM, W. M. Compreendendo o behaviorismo: comportamento, cultura e evolução. 3. ed. Porto Alegre: Artmed, 2017.

FERSTER, C. B.; SKINNER, B. F. Schedules of reinforcement. New York: Appleton-Century-Crofts, 1957.

HAYES, S. C.; STROSAHL, K.; WILSON, K. G. Acceptance and commitment therapy: an experiential approach to behavior change. New York: Guilford Press, 1999.

KROSS, E. et al. Social media and well-being: pitfalls, progress, and next steps. Trends in Cognitive Sciences, v. 25, n. 1, p. 55–66, 2021.

MONTAG, C.; ELHAI, J. D. A new agenda for personality psychology in the digital age? Personality and Individual Differences, v. 147, p. 184–190, 2019.

MOREIRA, M. B.; MEDEIROS, C. A. Princípios básicos de análise do comportamento. Porto Alegre: Artmed, 2007.

ODGERS, C. L.; JENSEN, M. R. Annual research review: adolescent mental health in the digital age: facts, fears, and future directions. Journal of Child Psychology and Psychiatry, v. 61, n. 3, p. 336–348, 2020.

SKINNER, B. F. Science and human behavior. New York: Macmillan, 1953.

WATSON, J. B. Psychology as the behaviorist views it. Psychological Review, v. 20, n. 2, p. 158–177, 1913.

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Adriano Nicolau da Silva, Psicoterapeuta, Neuropsicopedagogo e Neuroeducador. Graduado em Psicologia e Filosofia. Especialista nas áreas de educação e clínica. Uberaba, MG. Colunista do Factótum Cultural. E-mail: adrins@terra.com.br

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