Escrever Para Não Enlouquecer – Por Neemias

“Cuidado com a esterilidade de uma vida ocupada.”
— Socrates
Existe um fenômeno curioso no mundo moderno. Antigamente as pessoas iam ao médico, ao mercado, à igreja ou ao trabalho. Hoje elas vão… à internet.
A ida ao médico virou story.
A ida ao mercado virou reels.
O café da manhã virou conteúdo.
E até o silêncio virou legenda reflexiva.
Aparentemente, existe uma necessidade quase religiosa de informar ao mundo cada pequeno passo da própria existência. Como se um tribunal invisível estivesse aguardando relatórios diários da vida alheia.
— “Bom dia, pessoal! Indo treinar.”
— “Boa tarde, galera! Cheguei no fórum.”
— “Boa noite! Dia corrido hoje.”
E eu fico imaginando o seguinte cenário: um sujeito chega à delegacia para registrar um boletim de ocorrência e, antes de falar com o escrivão, tira uma selfie pensativa.
Legenda:
“Momentos difíceis… mas Deus no controle.”
Talvez seja apenas a evolução natural da espécie. Antes o ser humano escrevia diários secretos. Hoje ele escreve diários públicos, patrocinados por curtidas.
Há quem anuncie tudo. Absolutamente tudo.
Foi ao fórum? Posta.
Foi ao restaurante? Posta.
Foi treinar? Posta.
Foi tomar café? Se bobear, posta também.
Não duvido que em breve surja um aplicativo chamado “Respirei Hoje”, onde as pessoas poderão registrar cada inspiração com uma trilha sonora motivacional.
Calma. Não estou dizendo que ninguém possa postar nada. Uma hora ou outra, tudo bem. O problema é quando a vida vira uma transmissão esportiva permanente.
Porque existe uma pergunta simples que às vezes esquecemos de fazer:
Para quem exatamente estamos anunciando tudo isso?
Amigos?
Seguidores?
Ou um pequeno vazio existencial que precisa ser alimentado com atenção digital?
Há uma liberdade curiosa que quase ninguém percebeu ainda.
Você pode ir a delegacia.
Você pode ir ao café.
Você pode ir treinar.
E adivinha?
O mundo continua girando mesmo que você não anuncie isso para todo mundo nas redes sociais.
É uma experiência quase mística.
Alguns chamam isso de discrição.
Outros chamam de paz.
Eu chamo apenas de uma prática revolucionária:
viver um pouco da vida fora do palco.
Talvez Epictetus olhasse para tudo isso com tranquilidade estoica e perguntasse: “Para quê tanto anúncio?”.
Os filósofos helenísticos buscavam algo muito mais raro do que curtidas: paz de espírito.
Talvez por isso, no meu novo livro Filosofia Helenística com Humor, a primeira lição seja simples: viva primeiro… depois veja se ainda vale a pena postar. 😏📜
📖 Não deixe de ler nosso conteúdo anterior:
E não se esqueça: Sábado, nossa coluna “Escrever para Não Enlouquecer” fala sério — mas só porque o universo exige equilíbrio. Segunda a gente volta com humor para os dias difíceis.

⚡ Neemias Moretti Prudente é escritor, advogado, professor, filósofo míscômico e editor-chefe do Factótum Cultural.





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