Escrever Para Não Enlouquecer – Por Neemias

Outro dia duas pequenas histórias da natureza ficaram martelando na minha cabeça.
A primeira vinha do gelo absoluto da Antártida. Um pinguim caminhava com sua colônia em direção ao oceano. Era para lá que todos iam. Ali estava o alimento, a sobrevivência, o ciclo natural da vida.
Mas em certo momento um deles fez algo estranho.
Virou as costas para o mar.
E começou a caminhar para dentro do continente.
Quem conhece a Antártida sabe o que isso significa. Não há peixe ali. Não há água. Não há colônia. Há apenas gelo, vento e um silêncio tão grande que parece engolir qualquer criatura.
Cientistas que observavam a cena tentaram redirecioná-lo. Colocaram o pequeno viajante novamente voltado para o oceano.
Ele virou outra vez.
E continuou caminhando, sozinho.
Durante muito tempo essa história foi contada como uma tragédia da natureza. Talvez estivesse doente. Talvez estivesse desorientado.
Pode ser.
Mas quando vi aquela cena pensei em outra possibilidade.
Talvez o pinguim estivesse apenas cansado da manada.
Cansado do barulho.
Cansado de seguir o fluxo.
Cansado de caminhar na mesma direção que todos caminham sem nunca perguntar por quê.
Às vezes a caminhada solitária não é loucura.
É necessidade.
Os antigos sábios sabiam disso. Profetas foram para desertos. Monges buscaram montanhas. Filósofos caminharam longas horas em silêncio.
Não porque odiavam o mundo.
Mas porque certas perguntas só aparecem quando nos afastamos do ruído da multidão.
O filósofo Friedrich Nietzsche dizia algo parecido ao falar das metamorfoses do espírito humano. Primeiro somos como o camelo, carregando os valores do mundo e caminhando junto com o rebanho. Depois nos tornamos leão, aquele que rompe, se afasta e atravessa o deserto das próprias perguntas. E, por fim, a criança: aquele que aprende a criar novos sentidos para viver.
Talvez aquele pequeno pinguim estivesse atravessando seu deserto de gelo.
Confesso que, em alguns momentos da minha própria vida, também precisei caminhar para dentro do gelo — desapegar de tudo e, por um tempo, tornar-me ninguém.
Houve períodos em que não me encaixava muito bem no mundo ao redor — embora, pensando bem, talvez até hoje eu ainda não me encaixe. Momentos de cansaço, de crise, de perguntas que pareciam não caber na pressa da vida cotidiana.
E então a gente se afasta.
Não para fugir da vida. Mas, sendo sincero, às vezes também é um pouco isso.
Mas para tentar entendê-la.
O problema é que quando nos afastamos da manada encontramos algo inevitável.
O vazio, o silêncio.
As certezas desaparecem. Os caminhos ficam turvos. E a pessoa precisa descobrir por si mesma o que realmente importa.
Foi então que a segunda história apareceu diante de mim.
Um pequeno macaquinho em um zoológico no Japão havia sido rejeitado pela própria mãe logo ao nascer. Sem aquele primeiro abraço que todo filhote espera encontrar no mundo, os cuidadores lhe deram um pequeno brinquedo.
Uma pelúcia.
E então aconteceu algo profundamente comovente.
O macaquinho passou a abraçar o brinquedo.
Dormia com ele. Carregava para todo lado. Apertava aquele pequeno objeto contra o peito como se ali estivesse um abrigo.
Mas há um detalhe curioso nessa história.
A pelúcia também era um macaquinho.
Ou seja, ele abraçava uma pequena versão de si mesmo. Ou talvez um substituto simbólico da mãe, do pai, de algum colo que o mundo lhe negou.
Enquanto o pinguim caminhava sozinho para o vazio, sem nada nas mãos, o macaquinho fazia o movimento oposto: segurava algo.
Talvez exista uma metáfora silenciosa aí.
Às vezes precisamos atravessar o gelo da existência como aquele pinguim, sem apoio, sem respostas, apenas caminhando.
Mas quando o mundo se torna frio demais, também precisamos encontrar algo para abraçar.
Pode ser um filho.
Pode ser uma ideia.
Pode ser um livro.
Pode ser a fé.
Pode ser um sonho.
Ou até uma pequena pelúcia simbólica que nos lembre quem somos quando o mundo parece nos rejeitar.
Hoje percebo que, como muitos outros seres humanos, eu carreguei esses dois animais dentro de mim.
Houve momentos de pinguim.
E houve momentos de macaquinho.
E talvez seja assim com todos nós.
Por isso deixo uma pequena reflexão para quem lê esta crônica.
Se em algum momento da sua vida você sentir necessidade de se afastar da manada, não se assuste. Às vezes o silêncio e o vazio fazem parte do caminho.
Mas também não caminhe para sempre no gelo.
Em algum momento procure aquilo que aquece a sua existência.
Algo pequeno.
Algo verdadeiro.
Algo que você possa segurar perto do coração.
Porque no fundo a vida acontece exatamente nesse delicado equilíbrio.
Entre o pinguim que precisa caminhar sozinho.
E o macaquinho que, apesar de tudo, ainda encontra algo para abraçar. 🐧🧸✨
Depois de pensar no pinguim que caminhou para o gelo, no macaquinho que encontrou consolo abraçando uma pelúcia e em todas essas reflexões filosóficas sobre a vida, cheguei a uma conclusão curiosa sobre mim mesmo. Acho que hoje me tornei um panda.
Passei anos atravessando desertos existenciais, fazendo perguntas profundas, tentando entender o sentido de tudo. Mas talvez o panda já saiba algo que os filósofos demoram décadas para perceber.
A vida também precisa de simplicidade.
Comer em paz. Dormir tranquilo. Amar quando for possível. E não carregar o mundo inteiro nas costas.
No meio de tantas perguntas, talvez seja saudável, de vez em quando… simplesmente ser um panda. 🐼
📚 Talvez por isso eu tenha me interessado tanto pela pergunta que também inquietava os antigos gregos: como viver melhor? Epicuro, os estóicos e os cínicos buscavam leveza em meio ao caos. No meu livro Filosofia Helenística com Humor: Um Guia Leve e Divertido Para Viver Com Mais Sentido, tento mostrar que talvez essa sabedoria seja mais simples do que parece. Algo que, no fundo, até um panda já parece saber.
📖 E não deixe de ler nosso conteúdo anterior:
E não se esqueça: Sábado, nossa coluna “Escrever para Não Enlouquecer” fala sério — mas só porque o universo exige equilíbrio. Segunda a gente volta com humor para os dias difíceis.

⚡ Neemias Moretti Prudente é escritor, advogado, professor, filósofo míscômico e editor-chefe do Factótum Cultural.





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