O privilégio de uma vida é tornar-se quem você realmente é.
— Carl Gustav Jung

Existe uma ideia na psicanálise que sempre me atravessou: a profissão não é apenas uma escolha racional — é um sintoma. Um sinal do que nos move por dentro. Um indício silencioso daquilo que queremos compreender, transformar ou honrar.

Segunda, meu filho inicia Psicologia na UEM (Universidade Estadual de Maringá). E quanto mais penso nisso, mais percebo que não se trata apenas de uma aprovação. Trata-se de identidade. De um símbolo. De vocação. De caráter.

Ele poderia ter escolhido muitos caminhos — estava entre Medicina, Biomedicina e Psicologia. Escolheu aquele que lida com o que não se vê. Escolheu estudar a mente humana, os conflitos humanos, as dores e as possibilidades humanas. Não para julgar. Não para se colocar acima. Mas para compreender e servir melhor.

Ele é uma boa pessoa — e digo isso com serenidade, não com exagero paterno. Nunca me deu grandes trabalhos. É curioso de verdade, daqueles que querem entender o mundo antes de opinar sobre ele. Tem respeito genuíno por todos. Trata as pessoas com dignidade natural. É firme na fé, um católico convicto, mas vive essa fé com amor e coerência, não como imposição, mas como raiz.

Ele é especial não por idealização, mas por evidência cotidiana. Pela forma como pensa antes de agir. Pela integridade silenciosa. Pela maturidade que não faz alarde.

Sempre dizem que pais ensinam filhos. No meu caso, a via sempre foi de mão dupla. Ele foi — e continua sendo — meu professor em muitas coisas. Já me ensinou sobre constância. Sobre caráter. Sobre amizade verdadeira. Ele é meu amigo no sentido real da palavra. Meu maior tesouro não é algo que se guarda num cofre. É alguém que caminha ao meu lado.

Venho de uma história familiar marcada por rigidez, dores, vícios e loucuras que atravessaram gerações. Cada geração fez o que pôde com a consciência que tinha. Algumas repetiram. Outras suportaram. Em algum momento, porém, a consciência desperta. E quando desperta, o ciclo começa a mudar.

Eu acredito — com serenidade, não com fantasia — que estamos vivendo essa virada. Não porque ele vai carregar a missão de salvar a família. Não porque será o redentor de nada. Mas porque ele já nasce de um lugar mais lúcido. Ele não começa do zero. Ele continua uma transformação que já estava em curso.

Ciclos de dor não se quebram com discursos. Se quebram com consciência, escolhas novas e caráter firme. E ele carrega isso.

Seu nome já conta essa história. Daniel, como o profeta bíblico que permaneceu íntegro na cova dos leões, fala de fé e coragem. Almeida, de origem árabe, remete à mesa que reúne ou à terra elevada que sustenta — fundamento e visão. Prudente aponta para equilíbrio e maturidade. Daniel Almeida Prudente não é apenas um nome. É quase um roteiro: crer com firmeza, caminhar com base sólida e agir com sabedoria.

Se profissão é sintoma, então o sintoma que ele revela é bonito: o desejo de cuidar do humano. De compreender para transformar. De servir com responsabilidade. O mundo não precisa de heróis exaustos. Precisa de homens íntegros.

Daqui a poucos dias ele começa as aulas. Eu começo a testemunhar, com gratidão profunda, a consolidação de uma nova etapa na nossa história. Não é negação do passado. É amadurecimento diante dele.

Ao meu filho: que a universidade lhe dê conhecimento. Que a vida lhe dê experiência. Que a fé continue sendo sua raiz. Que sua prudência seja sua força. E que o amor — esse que você carrega com naturalidade — seja sempre sua direção.

Se alguém resolveu cuidar do mundo, que seja assim: começando pelas pessoas concretas que cruzarem seu caminho.

E claro, como todo pai responsável, já deixo um aviso: quando começar a estudar todas aquelas teorias da Psicologia, por favor, use com moderação dentro de casa. Nada de ficar me analisando no café da manhã, diagnosticando meus defeitos no almoço e explicando meus traumas no jantar. Algumas ilusões paternas precisam sobreviver. Mas, se algum dia eu precisar de terapia… já sei onde encontrar um bom psicólogo.

Enfim, e como pai, posso dizer com o coração inteiro: tenho orgulho do profissional que você será. Mas tenho ainda mais orgulho do homem que você já é.

E isso, meu filho, já é mais do que suficiente.

Com amor,
seu pai.

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Neemias Moretti Prudente é escritor, advogado, professor, filósofo míscômico e editor-chefe do Factótum Cultural.

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