Nada está atrasado.
O silêncio era só o realinhamento.
A espera era só o tempo do preparo.
É o universo quem sabe o tempo das coisas.
Só te resta aprender a confiar
.” (Txayn)

Eu demorei a entender que minha história não começou em mim.

Em meados de 2023, alguns meses após minha iniciação nas medicinas sagradas, consagrando ayahuasca sozinho em casa, sentei no banheiro com o chuveiro ligado. A água caía constante, quase hipnótica, e naquele espaço de silêncio e vulnerabilidade algo inesperado aconteceu: eu me vi — ou me reconheci — como a imagem de um indígena profundamente exausto, com um cansaço antigo, profundo, quase estrutural. Não foi uma visão gloriosa. Não houve êxtase. Houve estranheza. Houve peso. Saí daquela noite sem compreender o que tinha visto.

Mas a imagem não foi embora.

Dias depois, aquilo começou a me inquietar. Se não era delírio, o que era? Se não era fantasia, de onde vinha? Comecei a perguntar na família, a escutar histórias antigas, a procurar registros esquecidos. A experiência não me entregou respostas prontas — me deu uma direção. E foi assim que iniciei a investigação da minha ancestralidade indígena.

Em abril de 2025 escrevi sobre Maria, minha ancestral indígena raptada no interior de Minas Gerais por um colonizador europeu. Durante séculos, essa história permaneceu enterrada na poeira da família, como se o silêncio tivesse o poder de absolver o passado.

De lá para cá, eu ainda estava muito voltado ao céu. Minhas experiências com a ayahuasca (e outros psicodélicos) tinham algo de cósmico: dissolução, unidade, percepção de que tudo é um. Eram experiências verticais, como se a consciência subisse e enxergasse o mundo de cima.

Mas recentemente algo mudou.

Em uma Cerimônia Fulni-ô que ocorreu no final de semana passado (entre 21 e 22 de fevereiro), havia diferentes presenças índigenas simbólicas, condutores das medicinas da floresta. Umas pareciam mais intensas, mais chamativas. Outra era simples. Direta. Sem ornamentos. Um caboclo. Não dei muita atenção. Parecia comum demais para quem já tinha visto o universo nascer dentro da própria mente.

Dia seguinte, ouvindo uma entrevista desse mesmo condutor falando sobre caboclos, senti um reconhecimento silencioso. Não foi emoção arrebatadora. Foi encaixe. Como se uma peça antiga tivesse encontrado seu lugar.

Eu percebi que não estava apenas ouvindo — estava me reconhecendo. O indígena cansado que vi no banheiro, a história de Maria, a tensão entre invasor e raptada, tudo começou a se alinhar. Foi entender que aquela imagem antiga não era só dor: era parte de mim buscando forma, buscando integração.

O caboclo não é pureza. É mistura. É o encontro do indígena com o branco. É a tensão histórica transformada em identidade viva. Não é o céu nem o colonizador; é o que nasceu do choque.

Talvez por isso tenha doído e, ao mesmo tempo, feito sentido.

E então veio a ideia da Jurema.

Na cerimônia, usei pela primeira vez a Jurema junto com a Aayahuasca (Juremasca). No início, veio o que eu já conhecia: a expansão, a dissolução do ego, a sensação de unidade — como se a consciência se abrisse e tudo fosse expressão de uma mesma mente. Mas logo veio algo diferente: algo mais denso, mais terrestre. Não subia — descia. Não abria o infinito — aprofundava o chão.

A Jurema não me levou para o alto. Levou-me para dentro.

Em certo momento da cerimônia, surgiu diante de mim uma espécie de tela preta, como se eu tivesse alcançado o limite das experiências. Logo depois, a vida se apresentou — simples, direta — quase dizendo: vá viver. Você é consciência, sim, tudo está ligado, mas o que existe é isto aqui. Por um instante me senti o todo e, ao mesmo tempo, pequeno. E a lição foi clara: caboclo, viva sua vida na terra, aqui e agora. Entre no fluxo. O que vem pela frente? Mistério. Sentido ou não. Aceite. Siga aprendendo e vivendo.

E ali, naquele silêncio mais enraizado, percebi que minha busca talvez estivesse mudando de direção. Durante anos, eu quis compreender Deus, o vazio, a cosmologia, o amor, o sofrimento, a consciência universal. Agora, parecia que o chamado era mais simples e mais difícil: aceitar e viver a vida terrena como ela é, cada dia com mais consciência.

E vou te falar: essa é a parte mais difícil. Não é expandir a mente, não é dissolver o ego, não é ter visões. Difícil é sustentar. É acordar no dia seguinte e continuar atento. É incorporar no gesto pequeno aquilo que foi percebido no momento grande. De viver na terra e permanecer lúcido.

Mesmo acreditando que há uma inteligência por trás do pandemônio, continuar consciente no meio dele é o verdadeiro rito de passagem.

Entre o português invasor e a indígena raptada, existe um corpo mestiço. O meu. Existe uma psique atravessada por conflitos históricos. Existe um homem que já buscou transcendência e agora começa a buscar integração.

O indígena cansado do passado não era apenas dor herdada. Talvez fosse a parte de mim que carregava histórias não reconciliadas. O caboclo surge como síntese possível. Não nega a violência, não romantiza o passado, não se perde no êxtase. Pisa firme.

A Jurema, para mim, foi raiz. Foi menos espetáculo e mais sobriedade. Menos visão e mais presença.

Percebo que minha trajetória espiritual começou vertical e está se tornando horizontal. Antes eu queria tocar o absoluto. Agora quero alinhar as partes. Antes buscava explosão. Agora busco coerência.

Não sei explicar essas experiências em termos fechados. Não sei se são arquétipos, memória ancestral, elaboração psíquica ou linguagem do inconsciente. Sei apenas que há um movimento claro: sair da fragmentação e caminhar para integração.

Não preciso me declarar nada. Não preciso vestir identidade espiritual. Preciso apenas reconhecer que carrego histórias antigas e que posso escolher como elas continuam.

Entre a ayahuasca que abriu o céu e a Jurema que aprofundou a terra, entre Maria e o colonizador, entre o indígena cansado e o caboclo firme, existe um ponto de equilíbrio.

Talvez maturidade espiritual seja isso: não fugir para cima, não afundar para trás, mas permanecer inteiro no presente.

Eu não sei se sou cura.
Mas sei que posso ser consciência.

E, por enquanto, isso é suficiente.

Ahow.


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Neemias Moretti Prudente é escritor, advogado, professor, filósofo míscômico e editor-chefe do Factótum Cultural.

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