Por Gisele de Souza Gonçalves

Vivo há anos nos espaços da educação. E posso afirmar: tem sido muito difícil. Você que também é professora, sabe o que temos vivido.
Da exaustão à desvalorização, com altos e baixos na sala de aula. Mas aqui eu quero apenas contar algumas peculiaridades da vida docente, ou melhor, da incrível vivência que é ser professora depois de alguns anos passando por tanta gente.
Bom, a parte difícil que ganha intensidade com o passar do tempo, já sabemos, então quero registrar momentos que me marcaram para além das angústias trabalhistas.
Alunos e alunas deixam suas marcas.
Outro dia, li uma notícia sobre um jovem de 20 anos que morreu a pauladas. Achei terrível. Qual foi o susto quando li o nome da vítima. Aquele nome com seus dois sobrenomes surgiram na minha mente: em letra cursiva com as letras maiúsculas dedicadas por um traçado bem feito. Aquilo me apertou o coração. Não! Impossível ser ele. Aquele menino educado, bastante irritado, que me contava suas aventuras nas brincadeiras, que lia bem e interpretava de maneira admirável, bom também em cálculos, será? Eu precisava ter certeza daquele nome com cursiva nas linhas azuis de um caderninho que ainda estava presente na minha memória. Era ele. Confirmei ao ver a foto de seu documento que foi postada na notícia. Uma tristeza me acompanhou por dias – ela insiste em aparecer sempre.
Mas há também boas notícias.
Outro dia, estava no parquinho com minhas alunas e alunos, vi que uma mocinha desceu no ponto de ônibus que fica na esquina, chegou na grade da escola e me acenou. Cheguei mais perto e ela disse “oi, profe”. Eu a reconheci, chamei pelo seu nome, acertei. Ela me contou que está fazendo graduação em uma universidade pública. O coração ficou aliviado e animado.
Ontem comecei a fazer musculação (por favor, torçam para que eu não desista) e um rapazinho alto veio conversar e me incentivar com bons argumentos. Ele não tem mais que 20 anos e me motivou a não desistir, foi meu aluno no 1º ano do ensino fundamental I. Aquele olhar gentil não perdeu o brilho de seus seis aninhos.
Tem ainda uma mãe maravilhosa que sigo nas redes e que lê para suas crianças um livro que li para ela e seus colegas quando tinham entre 9 e 11 anos. Ela posta coisas tão reais e me faz pensar sobre inclusão. Aprendo muito com ela.
Percebam, eu amo o que faço, amo o que nós construímos juntos – educadores e educandos -, mas não gosto do que temos vivido na contínua mercantilização da educação.
Para fortalecer a luta diária, é preciso lembrar daquilo que nos acolhe, e é preciso não romantizar injustiças e desigualdades.
Por aqueles e aquelas que não podem frequentar uma universidade, por aquelas e aqueles que não têm a oportunidade de cuidar de sua saúde, por aquelas e aqueles que não podem ler para suas filhas e filhos, resistimos e seguimos. A educação crítica faz bem para toda a escola e comunidade, sigo aprendendo.
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Gisele de Souza Gonçalves, mãe, professora da educação básica, doutora pela Universidade Estadual do Oeste do Paraná (UNIOESTE). Colunista do Factótum Cultural.
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