📌 Não é um livro “sobre crime”. É um livro sobre poder.

Quem espera encontrar uma explicação psicológica do criminoso vai se frustrar.

Baratta faz algo muito mais incômodo:
ele desloca o foco do indivíduo para o sistema.

Ele não pergunta apenas:

“Por que as pessoas cometem crimes?”

Ele pergunta:

“Por que certos comportamentos são criminalizados?”
“Quem decide isso?”
“Quem o sistema pune de fato?”

Essa mudança é revolucionária.


🧠 A virada epistemológica

Baratta bebe na fonte do marxismo, da sociologia do desvio e da teoria do etiquetamento.
Mas ele não faz um panfleto ideológico. Ele estrutura uma crítica sistemática ao Direito Penal como mecanismo de controle social.

O ponto central:

O Direito Penal não protege a sociedade de forma neutra.
Ele protege uma determinada ordem social.

Ou seja, a criminalização não é apenas resposta ao dano.
Ela é também instrumento de manutenção de estrutura.

Isso significa que o sistema penal opera com seletividade estrutural.


⚖️ Seletividade não é acidente — é estrutura

Baratta demonstra que o sistema penal:

  • incide com maior intensidade sobre classes subalternas
  • produz estigmatização
  • reforça exclusões sociais
  • raramente alcança as estruturas de poder econômico

Não se trata de erro operacional.
É lógica de funcionamento.

Enquanto crimes de rua lotam prisões,
crimes econômicos estruturais recebem tratamento muito diferente.

E aqui está a parte que incomoda:

A desigualdade não está apenas na sociedade.
Ela está na aplicação da lei.


🔥 A crítica ao mito da igualdade formal

O Direito Penal moderno se apresenta como universal e igualitário.

Mas Baratta mostra que igualdade formal não significa igualdade material.

A lei pode dizer que todos são iguais perante ela.
Mas o acesso à defesa, à influência política e à capacidade de escapar do estigma não é igual.

Isso desmonta a narrativa ingênua de neutralidade.


🧩 Crime como produto social

Outro ponto sofisticado do livro é a ideia de que o “crime” não é uma categoria natural.

Ele é uma construção social e política.

Isso não significa que o dano não exista.
Significa que a escolha do que será tratado como crime é histórica e ideológica.

Pergunta desconfortável:

Por que certos comportamentos altamente danosos não são tratados com o mesmo rigor que pequenos delitos patrimoniais?

Essa pergunta continua atual.


🧨 O que Baratta não faz

Ele não defende impunidade automática.
Ele não romantiza o delito.
Ele não ignora vítimas.

O que ele faz é mais sofisticado:

Ele exige que o Direito Penal seja analisado sociologicamente.

Ou seja: que seja submetido à crítica como qualquer instituição de poder.


📖 O impacto da obra

Essa obra ajudou a consolidar a criminologia crítica na América Latina.

Ela influencia debates sobre:

  • minimalismo penal
  • abolicionismo
  • garantismo
  • política criminal
  • seletividade punitiva

É leitura densa.
Mas estruturante.


🎯 Por que ler hoje?

Porque vivemos em um tempo de punitivismo emocional.

Discursos rápidos.
Respostas fáceis.
Soluções simplistas.

Baratta exige algo mais difícil:

Pensar antes de punir.

E essa é talvez a lição mais madura da criminologia crítica.


🧠 Conclusão provocativa

Depois de Baratta, fica impossível repetir sem reflexão:

“A lei é igual para todos.”

A pergunta muda:

Igual para quem?
Aplicada como?
Com quais efeitos?

Se o Direito Penal é instrumento de poder,
então educar sobre criminologia é também educar sobre democracia.

E ignorar essa discussão é aceitar que o sistema funcione sem ser questionado.

✍️ Neemias, Professor de Criminologia e Editor do Factótum Cultural.

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