Por Verbo Factótum

Da floresta amazônica para os laboratórios de pesquisa: como uma tradição milenar está desafiando — e ajudando — a psiquiatria moderna.
Você provavelmente já ouviu falar na ayahuasca — talvez de um amigo que foi a um retiro espiritual, de uma reportagem na TV ou de uma celebridade que relatou uma experiência transformadora. Mas além das histórias inspiradoras e da mística que envolve essa bebida, existe uma pergunta que cada vez mais pesquisadores ao redor do mundo estão tentando responder: ela realmente funciona como ferramenta terapêutica?
A resposta, baseada em estudos científicos recentes, aponta para um cauteloso “sim” — especialmente para pessoas que sofrem de depressão, ansiedade e transtorno de estresse pós-traumático (TEPT). Mas como tudo na ciência, há nuances importantes que precisamos entender antes de encarar a ayahuasca como uma solução mágica.
O que é a ayahuasca, afinal?
A ayahuasca é uma bebida psicoativa preparada a partir de duas plantas amazônicas: o cipó Banisteriopsis caapi e as folhas da Psychotria viridis (chacrona). Quando combinadas, essas plantas produzem uma infusão que contém DMT (dimetiltriptamina) — uma substância que normalmente seria decomposta rapidamente pelo nosso organismo, mas que, graças aos compostos do cipó (os chamados IMAOs), consegue atuar no cérebro por algumas horas.
O uso da ayahuasca por povos indígenas da Amazônia tem raízes que remontam a pelo menos mil anos. Para essas comunidades, a bebida não é apenas uma droga: é um sacramento, uma ferramenta de cura espiritual e de conexão com a natureza. Hoje, ela também é usada em contextos religiosos por igrejas como o Santo Daime e a União do Vegetal, legalmente reconhecidas no Brasil.
“Não estamos falando de uma moda passageira. Estamos falando de uma tradição milenar que a ciência agora começa a entender com mais seriedade.”
O que acontece no cérebro durante a experiência?
Quando alguém ingere ayahuasca, o DMT se liga a receptores de serotonina no cérebro — os mesmos receptores que muitos antidepressivos modernos, como os SSRIs, têm como alvo. Mas o efeito é muito mais intenso e rápido. A experiência dura entre 4 e 6 horas e pode incluir visões, emoções intensas, sensação de dissolução do ego e revisão de memórias passadas.
Estudos de neuroimagem mostram que a ayahuasca reduz a atividade da Rede de Modo Padrão (DMN, na sigla em inglês) — a rede cerebral associada à ruminação mental, ao pensamento negativo repetitivo e à autocrítica excessiva. Esse é exatamente o padrão observado em pessoas com depressão severa. Ao “silenciar” temporariamente essa rede, a substância pode criar uma janela de abertura psicológica onde novos padrões de pensamento se tornam mais acessíveis.
O que dizem as pesquisas científicas?
Nos últimos dez anos, o interesse científico sobre psicodélicos disparou. A ayahuasca está no centro de vários estudos clínicos importantes, muitos deles conduzidos por instituições brasileiras de prestígio, como a Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) e o Instituto Nacional de Psiquiatria (IMIP).
Um dos estudos mais citados, publicado no periódico Psychological Medicine, avaliou pacientes com depressão resistente a tratamento — ou seja, pessoas que já haviam tentado múltiplos antidepressivos sem sucesso. Uma única dose de ayahuasca produziu melhora significativa nos sintomas de depressão em questão de dias, com efeitos que duraram semanas. Em comparação, os antidepressivos convencionais geralmente levam de 4 a 6 semanas para começar a agir.
Outros estudos sugerem benefícios para pessoas com ansiedade relacionada ao câncer, dependência química e TEPT. O mecanismo parece ser semelhante: a substância facilita o processamento emocional de experiências traumáticas, muitas vezes de forma que meses de terapia convencional não conseguiram alcançar.
Importante: a maioria dos estudos ainda são de pequeno porte. A ciência está animada, mas cautelosa. Precisamos de ensaios clínicos maiores e mais rigorosos antes de qualquer recomendação ampla.
Ayahuasca é segura?
Essa é uma das perguntas mais importantes — e a resposta depende muito do contexto. Em termos fisiológicos, a ayahuasca não é considerada fisicamente viciante e raramente causa overdose fatal quando usada de forma pura. No entanto, ela interage perigosamente com certos medicamentos, especialmente antidepressivos da classe dos inibidores de monoamina oxidase (IMAOs) e SSRIs. Essa combinação pode causar a síndrome serotoninérgica, uma condição potencialmente grave.
Psicologicamente, experiências difíceis — os chamados “bad trips” ou “peias” — são relativamente comuns, especialmente em pessoas sem preparo adequado ou com histórico de transtornos psicóticos. Por isso, a presença de um facilitador experiente e um ambiente seguro (o chamado “set and setting”) são fundamentais para reduzir riscos.
A comunidade científica converge para a seguinte conclusão: em contextos supervisionados e com triagem adequada, a ayahuasca apresenta um perfil de segurança aceitável. O uso recreativo, sem preparo e sem acompanhamento, é uma história muito diferente.
E no Brasil, é legal?
Sim! O Brasil é pioneiro nesse sentido. Em 1987, o Conselho Federal de Entorpecentes (CONFEN) removeu a ayahuasca da lista de substâncias proibidas, reconhecendo seu uso religioso legítimo. Em 2010, uma resolução do Conselho Nacional de Políticas sobre Drogas (CONAD) regulamentou seu uso em rituais religiosos, tornando o Brasil um dos poucos países do mundo onde o uso da ayahuasca é permitido por lei — ainda que em contexto específico.
Para fins terapêuticos e de pesquisa, o Conselho Federal de Medicina e a ANVISA ainda não aprovaram protocolos clínicos formais, mas estudos estão em andamento e o debate regulatório avança. Em outros países, como Estados Unidos e Países Baixos, pesquisas com psicodélicos também ganham terreno, com alguns estados americanos já descriminalizando substâncias como a psilocibina.
Ayahuasca vai substituir a terapia convencional?
Quase certamente não — e a maioria dos pesquisadores não defende isso. O que se propõe é um modelo de uso complementar: a ayahuasca como catalisadora de processos terapêuticos, usada em conjunto com psicoterapia antes, durante e depois da sessão. Esse modelo, chamado de “psicoterapia assistida por psicodélicos”, é o que tem mostrado os resultados mais promissores nos estudos.
Pense da seguinte forma: a substância pode abrir portas emocionais que estavam fechadas há anos. Mas quem guia o paciente por esses corredores — quem ajuda a transformar a experiência em mudança real de comportamento — é o terapeuta.
“A ayahuasca não é uma bala de prata. É uma ferramenta — poderosa, mas que exige respeito, preparo e integração adequada.” — Perspectiva comum entre pesquisadores da área
O que fazer se você quer saber mais?
Se você tem interesse na ayahuasca por razões terapêuticas, algumas orientações são importantes:
1. Converse com um médico ou psiquiatra antes de qualquer decisão, especialmente se você usa medicamentos ou tem histórico de transtornos mentais.
2. Busque informações em fontes científicas confiáveis. Organizações como o MAPS (Multidisciplinary Association for Psychedelic Studies) e o Instituto Phaneros publicam pesquisas relevantes.
3. Se optar por participar de uma cerimônia, pesquise profundamente o facilitador, o contexto e verifique se há triagem de saúde adequada.
4. Não abandone tratamentos em andamento sem orientação médica.
Conclusão
A ayahuasca percorreu um longo caminho: das florestas amazônicas para os laboratórios de neurociência, das tradições indígenas para os consultórios de psiquiatria. Ainda há muito a aprender, e a ciência continua humilde diante da complexidade dessa substância e das experiências que ela provoca.
O que já sabemos é que o sofrimento humano — especialmente o sofrimento que resiste aos tratamentos convencionais — merece que exploremos todas as possibilidades responsáveis. E, nesse sentido, a ayahuasca parece ter algo genuíno a oferecer.
A questão não é se ela é mágica. É se, no contexto certo, com as pessoas certas e o suporte adequado, ela pode ser mais uma ferramenta valiosa em nossa busca coletiva por saúde mental.
Este artigo tem caráter informativo e não substitui orientação médica profissional.
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✍️ Editores do Factótum Cultural





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