Há livros que falam de espiritualidade.
E há livros que explodem a própria ideia de mundo.

O Desaparecimento do Universo pertence ao segundo grupo.

Gary Renard narra encontros que teria tido, em sua sala de estar, com dois “mestres ascendidos”, Arten e Pursah, que lhe explicam — com base em Um Curso em Milagres — que o universo inteiro é uma projeção da mente, nascida do medo e da culpa primordial.

Sim, é isso mesmo:
o mundo não é real.
O corpo não é real.
O tempo não é real.
O sofrimento não é real.

Só a Consciência Una (Deus) é real.


A tese central: o universo como erro perceptivo

O livro parte de uma afirmação extrema:

O universo físico é uma ilusão criada pela mente que se separou de Deus.

Segundo a narrativa, houve uma “separação original” — não histórica, mas metafísica. A mente, ao acreditar que poderia existir separada da Fonte, experimentou medo. Esse medo gerou culpa. E a culpa gerou o mundo.

O universo seria, então, um mecanismo de distração — uma tentativa da mente de não encarar sua própria crença na separação.

O mundo não foi criado por Deus.
Foi projetado pela mente equivocada.


Perdão como ferramenta de dissolução

Se o mundo é ilusão, qual é o caminho?

Renard insiste no conceito central de Um Curso em Milagres: perdão verdadeiro.

Mas não o perdão moral, psicológico ou terapêutico.
É um perdão metafísico.

Perdoar, aqui, significa reconhecer que nada real foi ameaçado — porque o que parece ter acontecido nunca ocorreu na realidade divina.

É uma proposta radical:

  • o agressor não é culpado
  • o trauma não é definitivo
  • o mundo não tem poder real
  • a morte não é final

O perdão dissolve a crença na separação.
E, quando essa crença cai completamente, o universo “desaparece” — não fisicamente, mas perceptivamente.


Narrativa: revelação ou construção simbólica?

O livro é estruturado como um relato autobiográfico: diálogos extensos entre Renard e os mestres espirituais.

Essa parte divide leitores.
Alguns aceitam como experiência mística legítima.
Outros veem como recurso literário para transmitir ensinamentos.

Do ponto de vista filosófico, pouco importa se os mestres existiram objetivamente.
O que importa é o sistema apresentado — e ele é coerente dentro da lógica não-dual.


Paralelos filosóficos e espirituais

A proposta do livro dialoga com:

  • Advaita Vedanta (não-dualidade)
  • Budismo Mahayana (vazio e ilusão)
  • Gnosticismo
  • Idealismo filosófico
  • Misticismo cristão
  • Psicologia da projeção

Mas vai além ao afirmar que nem mesmo o processo espiritual é real — é apenas a correção de um erro perceptivo.

Não há evolução real.
Não há jornada real.
Há apenas o desfazer de uma crença.


O perigo do escapismo

Aqui entra a parte que precisa ser dita.

Esse tipo de ensinamento pode gerar dois efeitos:

  1. Libertação profunda do medo.
  2. Negação psicológica da realidade concreta.

Quando mal compreendido, pode virar:

  • negação de responsabilidade
  • desvalorização do sofrimento alheio
  • espiritualização de trauma
  • fuga da integração emocional

O livro exige maturidade psíquica.
Sem ela, vira anestesia metafísica.


Nossa leitura

Na Coluna Livros & Grimórios, lemos O Desaparecimento do Universo como um texto não-dual extremo, quase uma bomba ontológica.

Ele conversa diretamente com:

  • Budismo (anatta e vazio)
  • Jung (projeção psíquica)
  • Niebauer (ilusão do eu)
  • experiências místicas com dissolução de ego
  • estados psicodélicos de unidade

Mas há uma diferença essencial:
enquanto o budismo mantém ética prática e compaixão ativa, Renard aposta numa correção perceptiva absoluta.

É uma visão radical.
Sedutora.
E, para alguns, profundamente libertadora.


Conclusão

O Desaparecimento do Universo não é um livro para leitura superficial.
É um livro que mexe com o chão.

Ele pergunta algo que poucos textos ousam perguntar:

E se nada disso for real?
E se a única realidade for amor absoluto?
E se o sofrimento for um equívoco perceptivo?

Aceitar essa proposta exige coragem — ou imprudência.

Talvez o universo não desapareça fisicamente.
Mas, depois desse livro, ele certamente não parece mais tão sólido.

E isso, por si só, já é transformador.

📚 Cada livro é um feitiço. Se abriu este, talvez queira decifrar também:

✍️ Editores do Factótum Cultural

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