Por Adriano Nicolau da Silva

O medo costuma ser visto como uma forma de prudência necessária para a sobrevivência humana. Na infância, a falta desse freio biológico explica a maioria dos acidentes, já que o cérebro ainda não consegue medir os riscos do ambiente. Algo parecido ocorre com adultos sob efeito de entorpecentes, em que a ausência química do medo leva a comportamentos arriscados que ignoram a própria segurança. Dentro das empresas atuais, essa lógica ganha contornos silenciosos. O medo passa a ditar as relações por meio de chefias autoritárias que usam a intimidação para controlar processos, o que acaba por destruir a confiança das equipes. Esse ambiente piora quando as empresas punem o erro de forma agressiva, tratando a falha, que deveria ser parte do aprendizado, como uma marca negativa definitiva.
O ponto central aqui é a separação entre o medo que protege e o medo que paralisa. Enquanto a cautela ajuda a avaliar riscos, o medo doente distorce a visão da realidade e faz com que o profissional evite qualquer desafio ou esconda quem ele realmente é. Crescer na carreira hoje pede muito mais do que saber a parte técnica; exige controle das emoções, algo essencial para qualquer resultado positivo (BECK; HAIGH, 2014). Para muitos trabalhadores, o escritório virou um lugar de tensão constante, onde o medo deixa de ser um alerta natural e vira uma barreira que impede a pessoa de agir com firmeza. Quem vive assim se sente em um estado de alerta permanente. Pela Terapia Cognitivo-Comportamental, o indivíduo que sente esse pavor constante vê o mundo como um lugar hostil e perigoso (CLARK; BECK, 2011). Isso cria uma mente que transforma situações simples, como um e-mail novo, em uma previsão de humilhação ou demissão.
Olhando pela análise do comportamento, esse pânico pode ser fruto de experiências ruins vividas anteriormente. Punições severas ou críticas que desqualificam a pessoa no passado acabam se ligando a situações comuns do trabalho atual (WIELENSKA, 2002). Isso faz com que a competência técnica da pessoa fique escondida; ela sabe fazer o serviço, mas o conhecimento trava diante da sensação de que ela é incapaz (YOUNG; KLOSKO; WEISHAAR, 2003). Esse estado físico e mental gera cansaço extremo e problemas de saúde, o que explica por que tantos profissionais faltam ou produzem menos (SILVA et al., 2011). A mente fica presa em pensamentos repetitivos sobre erros passados e previsões de fracasso, o que impede qualquer decisão rápida (LEAHY, 2006).
Surge então o desamparo aprendido, que é quando a pessoa desiste de tentar porque acredita que nada do que ela faça vai mudar o ambiente ruim (BARLOW, 2004). O que parece falta de interesse é, na verdade, alguém vencido emocionalmente por cobranças que não consegue mais suportar (SANTOS et al., 2022). Esse peso atinge o corpo e o movimento, fazendo o profissional agir como uma sombra do que ele poderia ser (BAPTISTA et al., 2012; ASBAHR, 2004). Debater isso é urgente porque o sofrimento psicológico nas empresas costuma ser invisível. Se olharmos para a baixa produtividade como um sintoma de medo, podemos agir para resgatar o trabalhador. A saída para quebrar esse ciclo de desânimo passa por um atendimento clínico que seja humano e acolhedor (RANGÉ, 2011).
Análises feitas em estudos entre 2000 e 2025 reforçam que o medo cria relações baseadas na desconfiança (HOFMANN et al., 2012). Para mudar essa estrutura, a terapia precisa oferecer uma experiência de segurança e acolhimento (NEFF, 2003; KNAPP; BECK, 2008). O caminho é ajudar o paciente a testar seus medos na prática e perceber que ele pode ser mais flexível (ABRAMOWITZ; DEACON; WHITESIDE, 2019; SALVADOR; SILVA, 2024). O medo crônico no trabalho não é apenas um nervosismo comum, mas algo que limita a inteligência. Agir com firmeza e assertividade não é algo que se aprende em cursos de gestão, mas algo que se recupera tratando as feridas emocionais. Para as empresas, entender isso significa mudar o foco: a produtividade não depende de pressão, mas de criar um lugar onde as pessoas não tenham medo de falhar.
REFERÊNCIAS
ABRAMOWITZ, J. S.; DEACON, B. J.; WHITESIDE, S. P. H. Exposure Therapy for Anxiety: Principles and Practice. 2. ed. New York: Guilford Press, 2019.
ASBAHR, F. R. Transtornos de ansiedade na infância e adolescência. Revista Brasileira de Psiquiatria, v. 26, n. 3, p. 174 179, 2004.
BAPTISTA, M. N. et al. Suporte social e depressão: Um estudo com psicólogos brasileiros. Estudos de Psicologia (Campinas), v. 29, n. 2, p. 177 187, 2012.
BARLOW, D. H. Anxiety and Its Disorders: The Nature and Treatment of Anxiety and Panic. 2. ed. New York: Guilford Press, 2004.
BECK, A. T.; HAIGH, E. A. Advances in Cognitive Theory and Therapy: The Generic Cognitive Model. Annual Review of Clinical Psychology, v. 10, p. 1 24, 2014.
CLARK, D. A.; BECK, A. T. Cognitive Therapy of Anxiety Disorders: Science and Practice. New York: Guilford Press, 2011.
HOFMANN, S. G. et al. The Efficacy of Cognitive Behavioral Therapy: A Review of Meta analyses. Cognitive Therapy and Research, v. 36, n. 5, p. 427 440, 2012.
KNAPP, P.; BECK, A. T. Fundamentos modelos conceituais aplicações e pesquisa da terapia cognitiva. Revista Brasileira de Psiquiatria, v. 30, p. 54 64, 2008.
LEAHY, R. L. The Worry Cure: Seven Steps to Stop Worry from Stopping You. New York: Piatkus, 2006.
NEFF, K. D. Self Compassion: An Alternative Conceptualization of a Healthy Attitude Toward Oneself. Self and Identity, v. 2, n. 2, p. 85 101, 2003.
RANGÉ, B. P. Psicoterapias Cognitivo Comportamentais: um diálogo com a psiquiatria. 2. ed. Porto Alegre: Artmed, 2011.
SALVADOR, M.; SILVA, M. O impacto da TCC na superação do medo da transição de carreira. Revista Brasileira de Terapias Cognitivas e Comportamentais (RBTCC), v. 26, n. 1, p. 88 103, 2024.
SANTOS, L. S. et al. O medo do fracasso e a procrastinação acadêmica e profissional. Psicologia Ciência e Profissão, v. 42, p. 1 15, 2022.
SILVA, A. C. et al. Terapia cognitivo comportamento para transtorno de pânico. Revista Brasileira de Psiquiatria, v. 33, n. 1, p. 109 114, 2011.
WIELENSKA, R. C. Sobre Comportamento e Cognição: contribuições para a prática clínica. v. 10. Santo André: ESETec, 2002.
YOUNG, J. E.; KLOSKO, J. S.; WEISHAAR, M. E. Schema Therapy: A Practitioner’s Guide. New York: Guilford Press, 2003.
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Adriano Nicolau da Silva, Psicoterapeuta, Neuropsicopedagogo e Neuroeducador. Graduado em Psicologia e Filosofia. Especialista nas áreas de educação e clínica. Uberaba, MG. Colunista do Factótum Cultural. E-mail: adrins@terra.com.br
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