Era segunda-feira.
Alma no modo avião.
O café não tinha efeito.
A realidade, sim.

Abri o Threads e escrevi, como quem joga gasolina num formigueiro metafísico:

“Resolvi acreditar em Deus!
Alguém me indica um bom?” 🙋‍♂️

Postei por ironia.
Ironia daquelas que nascem quando a sanidade pede atestado.

Fechei o aplicativo.
Fui viver minha insignificância.

Quando voltei, parecia que eu tinha aberto um portal interdimensional religioso.

Mais de mil e trezentos comentários.
Duas mil e seiscentas curtidas.
Dezenas de milhares de visualizações.
Vários seguidores.
Nenhuma terapia em grupo oferecida.

Vieram todos.

Vieram deuses antigos, armados até os dentes, claramente traumatizados por mitologias mal resolvidas.
Vieram deuses da natureza, exigindo respeito à Terra enquanto comentavam pelo celular feito com lítio extraído ilegalmente.
Vieram deuses modernos, musculosos, heroicos, capazes de salvar o universo — menos o próprio casamento.

Vieram deuses orientais, ocidentais, sincréticos, quânticos, vibracionais.
Vieram coaches espirituais disfarçados de divindade.
Vieram até os inexistentes — e, curiosamente, foram os mais humildes.

O mais impressionante?

Ninguém disse “não sei”.

Todo mundo tinha um Deus pra indicar.
Como se o divino fosse restaurante:

— esse aqui é ótimo, só evita questionar muito
— esse funciona, mas tem taxa escondida
— esse é maravilhoso, só odeia algumas pessoas

Cada comentário não era sobre Deus.
Era sobre como aquela pessoa conseguiu não surtar até hoje.

Quando a vida aperta, a fé vira remédio.
Quando o remédio falha, troca-se o laboratório.

A pergunta era irônica.
A resposta foi um pedido coletivo de socorro.

Até que, no meio do caos teológico, surgiu ele.

O Monstro do Espaguete Voador.
Sim, ele “existe”.
Tem Igreja oficial.
Foi criado em 2005 por Bobby Henderson como sátira ao ensino religioso disfarçado de ciência.

Invisível.
Flutuante.
Sem plano de dominação, sem opinião sobre sua vida sexual, sem call center celestial.

Não prometeu céu.
Não ameaçou inferno.
Não pediu Pix, dízimo nem engajamento.

Só fez algo revolucionário:

riu.

Riu da certeza.
Riu do fanatismo.
Riu da necessidade humana de transformar mistério em manual de instruções.

O Espaguete não quer que você acredite nele.
Quer que você desconfie de quem fala de Deus como se fosse gerente.

Porque fé sem humor vira seita.
E certeza absoluta costuma terminar em tragédia — ou podcast.

No fim, todos vieram.
Todos indicaram seus deuses com convicção, carinho e zero autocrítica.

Mas quem salvou a segunda-feira
foi um macarrão invisível pairando no vazio cósmico,
lembrando que talvez ninguém saiba porra nenhuma —
e que isso pode ser, estranhamente, libertador.

Se existir algum Deus decente,
ele riu dessa thread.

E pediu molho.

Eu, particularmente, recomendo o Deus sem franquia.
Sem CNPJ, sem taxa de adesão, sem medo como método pedagógico.

O Deus do silêncio.
O Deus que duvida com você.
O Deus que mora dentro.
O Deus que ri.

Comece com um Deus que não tem pressa.
Que caminha com você em vez de te puxar pela coleira.
Que não promete o céu amanhã,
mas ensina a atravessar o inferno com lucidez hoje.

E assim seguimos.
Entre o café, a fé, o caos e o macarrão.

Porque se for pra enlouquecer toda segunda-feira,
que seja com senso de humor —
e molho de tomate.

📖 Não deixe de ler nosso conteúdo anterior:

E não se esqueça: Sábado, nossa coluna “Escrever para Não Enlouquecer” fala sério — mas só porque o universo exige equilíbrio. Segunda a gente volta com humor para os dias difíceis.

Neemias Moretti Prudente é escritor, advogado, professor, filósofo míscômico e editor-chefe do Factótum Cultural.

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