Escrever Para Não Enlouquecer – Por Neemias

Eu sempre usei o humor para não enlouquecer. Talvez o sagrado também.
Dia desses, um amigo – Dinor, txai e guardião das medicinas sagradas – me contou algo que ficou reverberando em mim por dias. Em vários rituais de ayahuasca, ele escuta uma risada. E junto dela, o som de um chofar. Não vê rosto. Não recebe mensagem clara. Não há entidade identificável nem discurso pronto. Apenas o riso. E o chamado.
Ele me disse isso com naturalidade, quase com humildade demais para quem poderia facilmente transformar a experiência em bandeira espiritual. Não transformou. Não tentou explicar. Apenas confidenciou.
E eu, que tenho essa mania quase doentia de querer entender tudo, fui atrás. Ainda mais porque é o humor que me faz escrever para não enlouquecer. Se eu não compreendo minimamente o que me atravessa, eu ironizo. Se não ironizo, eu desmorono. O riso, para mim, nunca foi superficial. Foi sempre uma corda de sobrevivência.
Talvez por isso a história dele tenha me atingido de maneira tão íntima.
Não fui atrás para interpretar a experiência dele — isso seria uma violência sutil. Fui atrás porque aquilo me inquietou. Porque quando algo é verdadeiro, ele não precisa gritar, ele ecoa. E ecoou.
Comecei a pesquisar sobre figuras espirituais associadas ao riso. Não demorou para eu encontrar os Heyoka, na tradição Lakota. Os chamados “palhaços sagrados” ou “contrários”. Xamãs que agem ao avesso, que falam invertido, que vestem roupas do lado errado, que quebram normas para expor a rigidez da própria comunidade. Não são palhaços no sentido moderno. São cirurgiões simbólicos. Usam o humor como bisturi.
E não são exceção. Diversas culturas nativas da América do Norte possuem seus palhaços sagrados. No Brasil, encontrei referências ao Hotxuá, o “riso da terra”. Figuras que fazem rir, mas também desmontam orgulho, ganância, vaidade, ilusões coletivas. Não curam confortando. Curam constrangendo com leveza.
E algo começou a se encaixar.
O riso, nesses contextos, não é deboche. É desarmamento. Ele aparece quando a estrutura está rígida demais. Quando a espiritualidade vira pose. Quando o sofrimento vira identidade. Quando o buscador começa a se levar sério demais.
E sejamos honestos: isso acontece com frequência.
Quanto mais eu lia, mais a experiência de Dinor deixava de parecer isolada. Não era “um fenômeno estranho”. Era um símbolo antigo reaparecendo. Não necessariamente uma entidade externa. Talvez uma função arquetípica da consciência sendo ativada.
E então o chofar.
O chofar, na tradição judaica, é instrumento de despertar. De ruptura. De transição. Ele não conforta. Ele convoca. É o som que anuncia mudança de ciclo. É chamado à responsabilidade.
E aí algo me atravessou com força: primeiro o riso desmonta, depois o chamado exige postura.
Riso sem chamado vira fuga espiritual. Chamado sem riso vira fanatismo.
Os dois juntos não parecem delírio. Parecem equilíbrio.
O mais impressionante em tudo isso não foi encontrar paralelos antropológicos. Foi perceber a postura de Dinor. Ele não construiu narrativa de escolhido. Não saiu ensinando nada. Não fez da experiência um título. Ele guardou. E seguiu servindo.
Num mundo onde qualquer vivência vira identidade espiritual, essa postura me pareceu mais significativa do que o fenômeno em si.
Talvez o erro moderno não esteja nas experiências, mas na pressa em traduzi-las. Queremos legenda para tudo. Queremos significado imediato. Queremos transformar mistério em conteúdo.
Mas talvez maturidade espiritual seja sustentar o símbolo sem sequestrá-lo.
Depois de estudar, de ler, de cruzar tradições, de perceber as sincronicidades que iam surgindo — livros que apareciam, referências que eu encontrava quase por acaso — eu não fiquei com respostas fechadas. Fiquei com algo mais interessante: respeito.
Respeito pelo fato de que o riso sagrado já existia muito antes de nós. Respeito pelo fato de que culturas inteiras entenderam que o humor pode ser ferramenta de equilíbrio espiritual. Respeito pelo fato de que o chamado vem depois do desmonte.
E, confesso, fiquei também com uma pergunta incômoda: será que o sagrado ri quando ficamos rígidos demais?
Será que essa risada não é sobre ridicularizar o humano, mas sobre aliviar o peso do ego que começa a endurecer? Será que o chofar não vem lembrar que, depois de rir de si mesmo, é hora de sustentar a travessia?
Eu não sei exatamente o que significa o que Dinor escuta. E talvez essa seja a parte mais honesta deste texto.
Mas sei que o riso como medicina não é invenção contemporânea. Sei que os xamãs do riso existiram — e ainda existem — como guardiões de equilíbrio. Sei que o chamado não é espetáculo. É responsabilidade.
E sei que, às vezes, quando o mistério ri, não é para zombar.
É para nos lembrar de que estamos levando tudo sério demais.
Inclusive a nós mesmos.
E talvez, antes do próximo ciclo começar, seja preciso rir um pouco.
E depois, ouvir o chamado.
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E não se esqueça: Sábado, nossa coluna “Escrever para Não Enlouquecer” fala sério — mas só porque o universo exige equilíbrio. Segunda a gente volta com humor para os dias difíceis.

⚡ Neemias Moretti Prudente é escritor, advogado, professor, filósofo míscômico e editor-chefe do Factótum Cultural.





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