Por Adriano Nicolau da Silva

A análise do comportamento estabelece que o reforço intermitente configura um padrão de recompensa capaz de gerar um condicionamento operante (SKINNER, 2003). Tal gratificação, por ser esporádica e assistemática, mantém o indivíduo em constante estado de hipervigilância, persistindo inclusive após o esgotamento total dos recursos financeiros. No âmbito dos jogos de azar, tal fenômeno é definido tecnicamente como um esquema de razão variável, o qual induz o indivíduo à persistência na atividade sob a falsa expectativa de que a próxima resposta resultará na recuperação das perdas acumuladas (FERSTER; SKINNER, 1957). A literatura indica que a incerteza do reforço possui um potencial aditivo superior à certeza do ganho, mantendo o sistema de recompensa cerebral em um estado de hiperatividade que negligencia a realidade da escassez (BAUM, 2006).
O presente estudo investiga a atuação do reforço intermitente na manutenção do ciclo de perdas totais, analisando os fatores que levam à continuidade do comportamento de jogar em detrimento do instinto de preservação financeira e social. Para fundamentar esta reflexão, procedeu-se a uma pesquisa bibliográfica sistemática, amparada por manuais diagnósticos como o DSM5TR (APA, 2023) e o CID11 (WHO, 2022).
A análise integra preceitos clássicos da análise do comportamento com evidências da neuropsicologia, focando na deterioração dos mecanismos de tomada de decisão perante a perda. A revisão da literatura demonstra que o jogo patológico compartilha aspectos neurobiológicos análogos às dependências químicas severas (POTENZA, 2008). Um fator determinante para a manutenção do comportamento disfuncional é o efeito do quase ganho. O sistema nervoso central processa a quase vitória não como um evento punitivo ou de derrota, mas como um sinalizador de proximidade do prêmio máximo. Tal mecanismo provoca liberações de dopamina que estimulam a persistência no jogo, ignorando até mesmo a incapacidade financeira do apostador (CLARK, 2010; DIXON et al., 2013).
As plataformas de apostas contemporâneas são projetadas para maximizar a imprevisibilidade e acelerar o consumo patrimonial (SCHÜLL, 2012). Observa-se a ocorrência de uma resistência à extinção acentuada: a ausência de previsibilidade quanto ao momento do reforço torna o indivíduo incapaz de cessar a resposta operante, vinculando-se à crença de que a rodada subsequente será a solução para a falência (CATANIA, 1999).
No cenário brasileiro, a acessibilidade via dispositivos móveis converte o ambiente doméstico em um espaço de aposta permanente, exacerbando os riscos aos circuitos de recompensa dopaminérgicos. Estima-se que cerca de 10,9 milhões de brasileiros estejam em situação de risco ou apresentem jogo problemático, com incidência significativa entre jovens em ambientes virtuais (TAVARES et al., 2008; ABREU et al., 2010; LENAD III, 2024). Verifica-se uma problemática ética na exploração da vulnerabilidade humana pelo mercado de apostas. A normalização desses mecanismos torna-se um facilitador do aprendizado condicionado, transmutando o engajamento inicial em dependência patológica.
Este processo compromete a estrutura familiar e gera precarização socioeconômica. Torna-se imperativo o reconhecimento de que o ciclo de perdas induzido não configura entretenimento, mas sim um agravo à saúde pública. Conclui-se que o reforço intermitente atua como a variável mantenedora do vício, obstruindo a percepção racional da perda.
A oscilação entre perdas frequentes e ganhos assistemáticos sustenta uma ilusão de controle. A interrupção deste ciclo demanda intervenções especializadas que visem o fortalecimento da autoestima e a desconstrução das armadilhas do condicionamento (OLIVEIRA; SILVA, 2001; ZILBERMAN; HODGINS, 2008). Recomenda-se a busca por auxílio psicoterapêutico imediato, especialmente na abordagem da Terapia Cognitivo-Comportamental.
O processo terapêutico deve focar na reestruturação de crenças disfuncionais, no mapeamento de gatilhos e no desenvolvimento de estratégias de enfrentamento e adiamento de impulsos, visando a recuperação da autonomia do sujeito.
Referências Bibliográficas
ABREU, C. N. et al. As faces do impulso: o que saber sobre o transtorno do controle do impulso. Rio de Janeiro: Elsevier, 2010.
AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION (APA). Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais (DSM-5-TR). 5. ed. rev. Porto Alegre: Artmed, 2023.
BAUM, W. M. Compreender o behaviorismo: comportamento, cultura e evolução. 2. ed. Porto Alegre: Artmed, 2006.
CATANIA, A. C. Aprendizagem: comportamento, linguagem e cognição. 4. ed. Porto Alegre: Artmed, 1999.
CLARK, L. Decision-making during gambling: an integration of cognitive and psychobiological approaches. Philosophical Transactions of the Royal Society B, v. 365, n. 1538, p. 319-330, 2010.
DIXON, M. J. et al. The impact of near-misses and reward magnitude on gambling persistence. Journal of Gambling Studies, v. 29, n. 1, p. 159-173, 2013.
FERSTER, C. B.; SKINNER, B. F. Schedules of Reinforcement. New York: Appleton-Century-Crofts, 1957.
LENAD III. III Levantamento Nacional de Álcool e Drogas. São Paulo: Unifesp, 2024.
OLIVEIRA, M. P. M. T.; SILVA, M. T. A. A psicologia do jogo patológico. Psicologia: Reflexão e Crítica, v. 14, n. 1, p. 213-226, 2001.
POTENZA, M. N. The neurobiology of pathological gambling and drug addiction. Philosophical Transactions of the Royal Society B, v. 363, n. 1507, p. 3181-3189, 2008.
SCHÜLL, N. D. Addiction by Design: Machine Gambling in Las Vegas. Princeton: Princeton University Press, 2012.
SKINNER, B. F. Ciência e comportamento humano. 11. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2003.
TAVARES, H. et al. Jogo patológico: revisão de literatura. Revista Brasileira de Psiquiatria, v. 30, p. S89-S95, 2008.
WORLD HEALTH ORGANIZATION (WHO). ICD-11: International Classification of Diseases for Mortality and Morbidity Statistics. Geneva: WHO, 2022.
ZILBERMAN, M. L.; HODGINS, D. C. Um panorama do jogo patológico. Revista Brasileira de Psiquiatria, v. 30, p. S87-S88, 2008.
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Adriano Nicolau da Silva, Psicoterapeuta, Neuropsicopedagogo e Neuroeducador. Graduado em Psicologia e Filosofia. Especialista nas áreas de educação e clínica. Uberaba, MG. Colunista do Factótum Cultural. E-mail: adrins@terra.com.br
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