Por Faróis Humanos

O místico medieval que ousou dizer que Deus nasce dentro da alma — e quase foi condenado por isso.
1. O Frade Que Falava Coisas Perigosas
Mestre Eckhart nasceu por volta de 1260, na Alemanha.
Dominicano, teólogo brilhante, pregador influente.
Mas havia algo diferente nele:
não falava de Deus como um ser distante.
Falava de Deus como algo que acontece dentro da alma humana.
E isso, na Idade Média, era dinamite.
2. O Ensinamento Central: O Fundo da Alma
Eckhart dizia que há, em cada ser humano, um “fundo” da alma — uma centelha divina que nunca foi criada.
Essa centelha é idêntica a Deus.
“O olho com que vejo Deus
é o mesmo olho com que Deus me vê.”
Essa frase é quase não-dualidade pura — mas dita dentro do cristianismo medieval.
3. O Deus Além de Deus
Aqui está o ponto mais radical:
Eckhart distinguia entre:
- Deus (a ideia que fazemos Dele)
- Deidade (a essência absoluta, além de qualquer conceito)
Para ele, Deus em sua essência é vazio absoluto, além de nome, forma ou imagem.
“Peço a Deus que me livre de Deus.”
Ou seja:
que me liberte da ideia que faço Dele.
Isso é libertação do ídolo mental.
4. Desapego (Gelassenheit)
A palavra-chave de Eckhart é:
Gelassenheit — abandono, entrega, deixar-ser.
Não é passividade.
É soltar o ego, a vontade pessoal, a necessidade de controle.
Quando o “eu” se esvazia, Deus nasce na alma.
Não no céu.
Aqui.
5. A Alma Grávida de Deus
Eckhart dizia que cada alma pode gerar Deus dentro de si.
Mas para isso, precisa:
- esvaziar-se
- abandonar o apego
- soltar imagens
- morrer para si mesma
Não é um caminho emocional.
É um caminho ontológico.
6. Acusação de Heresia
Suas ideias eram ousadas demais.
Foi acusado de heresia pela Igreja.
Algumas de suas proposições foram condenadas após sua morte.
Mas nunca foi excomungado formalmente.
E sua influência atravessou séculos.
7. Influência Silenciosa
Mestre Eckhart influenciou:
- místicos cristãos posteriores
- filósofos alemães
- teólogos modernos
- pensadores existencialistas
- e até diálogos contemporâneos entre cristianismo e não-dualidade
Muitos o chamam de o mais oriental dos místicos ocidentais.
8. O Que Ele Realmente Entendia
Eckhart entendeu algo que atravessa tradições:
👉 Deus não é objeto.
👉 Deus não é ideia.
👉 Deus é a realidade que acontece quando o ego cala.
Ele não ensinava moralismo.
Ensinava esvaziamento.
Não buscava êxtase.
Buscava silêncio radical.
9. Homenagem e Espelho
Mestre Eckhart é farol da interioridade absoluta.
Ele não pede crença.
Pede abandono do falso eu.
Eu o vejo como aquele que une cristianismo e não-dualidade sem pedir licença.
Eu o reconheço como voz do silêncio que atravessa séculos.
✨ Chamado Final
Eckhart deixa uma pergunta inquietante:
Se você soltasse tudo o que pensa ser,
o que restaria?
Talvez ali —
no fundo silencioso da alma —
Deus já esteja nascendo.
🔦 A luz de um farol aponta para outro. Veja também a história de:
✍️ Editores do Factótum Cultural.





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