Por Livros & Grimórios

Vivemos na era da exposição total.
Tudo é mostrado, explicado, performado.
Opiniões se acumulam como lixo digital.
Mas, paradoxalmente, quanto mais falamos, menos sabemos escutar.
Em Falando sobre Deus, Byung-Chul Han não tenta provar a existência de Deus.
Nem tenta refutá-lo.
Ele faz algo mais inquietante: investiga o que perdemos ao perder o silêncio necessário para falar de Deus.
Este não é um livro religioso.
É um livro sobre ausência, negatividade e transcendência em tempos de hipertransparência.
Deus não como objeto, mas como ausência
Han parte de uma crítica à sociedade contemporânea: vivemos numa cultura da positividade, onde tudo precisa ser afirmado, exposto, medido, compartilhado.
Mas Deus — se houver — não pertence ao regime da positividade.
Deus pertence ao invisível, ao indizível, ao que resiste à captura conceitual.
Ao transformar tudo em discurso, dados e opinião, a modernidade teria eliminado a dimensão do mistério.
E, com ela, a possibilidade real de transcendência.
Deus não morreu porque a ciência o refutou.
Deus morreu porque não suportamos mais o silêncio.
A crise da transcendência
Han argumenta que nossa época substituiu a transcendência por desempenho.
O sujeito moderno não se volta para o alto — volta-se para si mesmo.
O resultado é o que ele chama, em outros livros, de “sociedade do cansaço”:
um sujeito esgotado, isolado, hiperativo, mas vazio.
Sem alteridade radical — sem algo verdadeiramente Outro — o humano implode em narcisismo.
Deus, aqui, não é tratado como figura teológica tradicional, mas como símbolo daquilo que escapa ao controle do eu.
Sem esse escape, tudo vira gestão.
Negatividade e silêncio
Um dos conceitos mais importantes do livro é o da negatividade — algo que Han defende como condição para o pensamento profundo.
A sociedade contemporânea aboliu a negatividade:
- não tolera o fracasso
- não aceita limites
- não suporta demora
- não cultiva espera
Mas Deus — na tradição mística — sempre foi associado à noite, ao vazio, à ausência.
Sem negatividade, não há mistério.
Sem mistério, não há transcendência.
E sem transcendência, o humano perde profundidade.
Entre mística e filosofia
Han dialoga implicitamente com:
- místicos cristãos
- teologia negativa
- tradição apofática
- filosofia heideggeriana
Ele não propõe retorno religioso institucional.
Propõe recuperar o espaço do não saber, da reverência silenciosa diante do que não pode ser instrumentalizado.
Deus, nesse livro, não é um ser.
É uma abertura.
Nossa leitura no Factótum Cultural
Na Coluna Livros & Grimórios, Falando sobre Deus é lido como um livro sobre o colapso do sagrado na era da exposição total.
Ele conversa com:
- Nietzsche (morte de Deus)
- Jung (perda do símbolo)
- budismo (vazio fértil)
- a crise da modernidade líquida
Han não quer converter ninguém.
Ele quer lembrar que, sem mistério, a vida se torna plana.
Talvez o problema não seja acreditar ou não acreditar em Deus.
Talvez o problema seja termos perdido a capacidade de nos calar diante do incompreensível.
Conclusão
Falando sobre Deus é um livro pequeno em extensão, mas enorme em densidade.
Ele não oferece respostas.
Ele oferece um gesto:
parar.
Parar de falar compulsivamente.
Parar de transformar tudo em opinião.
Parar de reduzir o infinito a conteúdo.
Porque talvez — sugere Han —
Deus não tenha desaparecido.
Apenas foi soterrado pelo ruído.
E, enquanto não aprendermos novamente a escutar o silêncio,
continuaremos falando sobre tudo —
menos sobre o essencial.
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📚 Cada livro é um feitiço. Se abriu este, talvez queira decifrar também:
✍️ Editores do Factótum Cultural





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