Um xamã me disse uma vez:
“A espiritualidade não evita que você sofra.
Ela te tira de onde você nunca teria forças de sair sozinho.”

Na época, a frase não soou bonita.
Soou verdadeira — e verdade não costuma ser confortável.

Há três anos, eu estava no fundo do poço.
E não era um poço metafórico de livro de autoajuda.
Era aquele buraco real, escuro, silencioso, onde a esperança ecoa e não volta.
Onde a mente pesa toneladas, o corpo adoece e a vida parece seguir sem você.

Foi ali que a espiritualidade entrou.
Não como luz suave.
Não como promessa de felicidade.
Entrou como um terremoto.

A ayahuasca não me poupou da dor.
Ela me obrigou a olhar para ela sem anestesia.
Rasgou máscaras, desmontou personagens, expôs medos antigos, culpas herdadas, dores que nem eram só minhas.
Não foi cura instantânea.
Foi verdade em estado bruto.

A espiritualidade não me tirou do sofrimento.
Ela me tirou do lugar onde eu estava preso ao sofrimento.
E isso muda tudo.

Porque o fundo do poço não é castigo.
É o ponto onde o ego quebra, onde o controle falha, onde o “eu forte” desiste.
E quando isso acontece, algo maior pode finalmente passar pela fresta.

Subir não foi bonito.
Foi lento.
Com recaídas, dúvidas, noites mal dormidas, corpo doendo e alma reaprendendo a respirar.
Mas eu subi.

Hoje entendo:
quem entra nesse caminho não entra para “ficar bem”.
Entra para ficar inteiro.
E isso dói mais do que continuar fingindo.

Três anos depois, não sou alguém iluminado.
Sou alguém mais honesto.
Não venci a escuridão — aprendi a atravessá-la.

E talvez seja isso que a espiritualidade realmente faz:
não te leva direto à luz,
mas te ensina a andar no escuro
sem se abandonar.

Se isso não é salvação…
eu não sei o que é.

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Neemias Moretti Prudente é escritor, advogado, professor, filósofo míscômico e editor-chefe do Factótum Cultural.

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