Por Livros & Grimórios

Há exploradores que atravessam oceanos.
Outros atravessam desertos.
E há aqueles que fazem a viagem mais arriscada de todas: para dentro da própria consciência.
Psiconautas, de Marcelo Leite, é um livro sobre esse tipo de explorador — homens e mulheres que usam substâncias psicoativas não como fuga recreativa, mas como instrumentos de investigação da mente, do sofrimento, do sagrado e do mistério.
Não é apologia.
Não é manual.
É jornalismo profundo sobre experiências-limite.
O que é um psiconauta
Marcelo Leite parte da definição básica:
psiconauta é aquele que navega pela psique — alguém que se dispõe a explorar estados não ordinários de consciência com intenção, método e reflexão.
Esses exploradores não buscam apenas prazer.
Buscam sentido, cura, insight, transcendência, compreensão do trauma, dissolução do ego ou contato com dimensões simbólicas profundas.
O livro percorre experiências com substâncias como:
- LSD
- psilocibina
- ayahuasca
- MDMA
- DMT
sempre contextualizadas histórica, científica, cultural e subjetivamente.
Entre laboratório e ritual
Um dos méritos centrais de Psiconautas é não cair em polarizações fáceis.
Marcelo Leite transita com cuidado entre:
- a pesquisa científica contemporânea
- os contextos ritualísticos tradicionais
- os relatos pessoais
- e os riscos reais envolvidos
O livro mostra como universidades e centros de pesquisa retomaram estudos sobre psicodélicos para tratar:
- depressão resistente
- ansiedade existencial
- PTSD
- yraumas
- dependência química
- sofrimento associado a doenças terminais
Ao mesmo tempo, o autor deixa claro: essas experiências não são neutras.
Elas ampliam o que já existe.
Curam — ou desorganizam — dependendo do contexto, da estrutura psíquica e da intenção.
A dissolução do ego e o encontro com o indizível
Diversos relatos apresentados no livro convergem para um ponto comum:
a dissolução temporária do ego.
Durante essas experiências, fronteiras se desfazem:
- o “eu” perde contorno
- o tempo se dilui
- o corpo deixa de ser centro
- símbolos emergem com força arquetípica
Marcelo Leite trata esse fenômeno com seriedade, conectando-o a:
- misticismo
- psicologia profunda
- experiências religiosas clássicas
- estados descritos por budistas, xamãs e místicos cristãos
O livro sugere algo perturbador:
talvez a espiritualidade humana sempre tenha dialogado com estados alterados de consciência — e apenas os nomes mudaram.
Ciência, risco e responsabilidade
Um ponto forte do livro é a recusa em romantizar.
Marcelo Leite insiste:
psiconáutica não é para todos.
Há riscos reais:
- gatilhos psicóticos
- desorganização psíquica
- fuga da realidade
- dependência simbólica da experiência
- confusão entre insight e verdade absoluta
O livro mostra que sem integração, a experiência se perde — ou vira delírio.
O verdadeiro trabalho começa depois da viagem.
A experiência não substitui a vida
Outro mérito de Psiconautas é desmontar a fantasia do “atalho espiritual”.
Nenhuma substância resolve conflitos estruturais sozinha.
Nenhuma visão substitui ética, responsabilidade e trabalho interior contínuo.
As experiências descritas no livro apontam caminhos, mas não caminham por ninguém.
A expansão sem integração não liberta — fragmenta.
Nossa leitura
Na Coluna Livros & Grimórios, Psiconautas é lido como um mapa contemporâneo das antigas viagens iniciáticas, agora mediadas pela neuroquímica.
O livro dialoga diretamente com:
- Jung (inconsciente e arquétipos)
- William James (experiência religiosa)
- Stanislav Grof (estados holotrópicos)
- xamanismo
- psicologia do trauma
- espiritualidade sem dogma
Ele revela que o ser humano nunca deixou de buscar transcender o sofrimento ordinário — apenas mudou as ferramentas.
Mas deixa claro:
o portal não é o fim.
É o começo.
Eu, Psiconauta Neemias, posso dizer isso sem pose e sem glamour: já atravessei todas essas portas. Ayahuasca, psilocibina, LSD, MDMA — não como fuga recreativa, mas como tentativa sincera de entender a mente, a dor, o vazio e o sagrado. Algumas experiências foram belas, outras duras, outras perigosamente sedutoras. Houve expansão, houve confusão, houve cura parcial — e houve também o aprendizado mais importante de todos: nenhuma substância sustenta o que não é integrado. Elas mostram, rasgam o véu, ampliam o campo… mas não caminham por você. O trabalho real começa quando o efeito passa, quando o ego retorna, quando a vida comum cobra coerência. Psiconáutica sem responsabilidade vira delírio; com consciência, vira espelho. E nem todo espelho é confortável de encarar.
Conclusão
Psiconautas é um livro honesto, corajoso e necessário.
Não seduz, não condena, não simplifica.
Ele mostra que explorar a mente é uma aventura que exige maturidade, preparo e humildade.
E que, sem isso, a viagem pode se tornar prisão.
No fundo, o livro sugere uma verdade antiga:
não é a substância que revela o mistério —
é a consciência que está pronta para encontrá-lo.
E talvez a maior viagem não seja química, mas ética:
o retorno lúcido à vida comum, depois de ter visto o extraordinário.
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📚 Cada livro é um feitiço. Se abriu este, talvez queira decifrar também:
✍️ Editores do Factótum Cultural





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