Era uma quinta-feira.
Isso é importante, porque descobertas existenciais raramente acontecem numa segunda — segunda já tem problemas demais.

Eu estava numa semana pedagógica, sentado como professor, ouvindo uma palestra sobre inclusão e neurodiversidade no ensino superior.
Tema nobre.
Voltado para alunos.
Claramente não era sobre mim.
Ou assim eu achava.
Nada indicava que, dali a pouco, minha vida ia virar um episódio especial de “Isso Explica Muita Coisa”.

A palestrante começou a falar de TDAH em adultos.
Depois falou de Altas Habilidades e Superdotação.
Depois de TEA.
Hipersensibilidade emocional apareceu depois — essa eu descobri sozinho.
Depois de alunos que não se encaixam, que cansam fácil, que sofrem em silêncio, que são chamados de “difíceis”.

Em algum momento, percebi que a palestra tinha parado de ser acadêmica
e virado biográfica.

Eu já não estava mais anotando.
Estava me reconhecendo.

“Pensamento acelerado.”
“Dificuldade com tarefas sem sentido.”
“Hiperfoco.”
“Sensibilidade.”
“Histórico de sofrimento por inadequação.”

A cada slide, meu cérebro fazia aquele comentário interno educado e desesperado:
pera… isso sou eu.
isso também.
opa, isso aí dá pra citar com nome, sobrenome e trauma.

Eu, professor, ali sentado, descobrindo que talvez não tivesse passado a vida inteira sendo desorganizado, intenso demais ou complicado —
talvez só tivesse passado sem legenda.

O detalhe mais cruel?
A palestra não era para mim.
Era para ajudar alunos.

Ou seja: descobri minha neurodivergência por tabela.

O momento mais humilhante foi perceber que:
ninguém estava falando comigo.
ninguém tinha me diagnosticado.
eu estava me reconhecendo sozinho, em silêncio, como adulto funcional em colapso discreto.

Enquanto falavam de inclusão, eu pensava:
então era isso.
não era defeito moral.
não era falta de foco.
não era drama existencial gratuito.

Era TDAH adulto,
altas habilidades,
hipersensibilidade emocional,
e um belo histórico de trauma fazendo cosplay de personalidade.

Saí da palestra com um certificado e uma crise identitária leve — dessas que não dão atestado, mas mudam a vida.

Mais de quarenta anos tentando me consertar.
E bastou uma quinta-feira pedagógica para alguém dizer, sem saber:
— “Existem cérebros que funcionam diferente.”

A pergunta veio logo depois, como sempre vem:
“Tá… e cura?”

Resposta curta: não.
Resposta longa: ainda bem, porque imagina tentar “curar” um cérebro que só estava rodando no sistema errado.

Neurodivergência não se cura.
Porque não se cura aquilo que nunca foi doença.
O que se faz é parar de se violentar.

No meu caso, a solução foi simples e profundamente irritante:
parar de me tratar como problema
e começar a me tratar como configuração específica.

A solução não foi virar outro.
Foi entender quem eu sempre fui.

Hoje, quando penso nos meus alunos, penso diferente.
Quando penso em mim, penso com menos crueldade.

Descobrir depois dos 40 dói.
Mas continuar sem descobrir dói mais.

E é por isso que falar sobre neurodivergência não é frescura, nem moda.

E se tem algo que a inclusão devia ensinar,
é que ninguém devia passar a vida inteira tentando caber
num modelo que nunca foi feito para ele.

Inclusive os professores.


Durante a palestra, eu disse:
“De perto, ninguém é normal.
De longe, todo mundo finge.”

Nem tudo é neurodivergência. Sofrer faz parte da vida, mas hoje o sofrimento virou muleta, identidade e produto. Patologiza-se a vida comum, infantiliza-se o desconforto e uma indústria inteira aplaude — diagnósticos, remédios, terapias sem fim e até espiritualidade de prateleira. O efeito colateral é óbvio: quem realmente precisa de cuidado sério se perde no barulho, enquanto gente que amadurece e segue a vida vira péssimo cliente.

O caminho real não passa por mais rótulos, mas por consciência treinada: voltar ao ponto zero, onde o personagem perde o comando e o ego vira algo observado. Não é fugir da vida, é não se confundir com ela. Não é iluminação permanente — é treino diário.

E, claro, nada disso cancela os boletos. Eles não meditam e não aceitam pagamento em consciência plena. A sabedoria é simples: entra no personagem, paga, sai do personagem e volta para o observador — antes que o boleto vire identidade.
Porque espiritualidade adulta é isso: presença suficiente para não enlouquecer e personagem suficiente para não morar de favor.

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Neemias Moretti Prudente é escritor, advogado, professor, filósofo míscômico e editor-chefe do Factótum Cultural.

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