Quando julgo o outro, não revelo quem ele é — revelo o quanto ainda não me vi

Vivemos a era do julgamento automático.
As pessoas não escutam mais — reagem.
Não observam — sentenciam.
O mundo virou um tribunal improvisado, onde todo mundo fala e quase ninguém se vê.

Nietzsche entendeu isso antes de virar citação de Instagram. Ao desmontar a moral do ressentimento, ele foi implacável ao afirmar que “julgar e condenar moralmente é a vingança preferida das almas limitadas”.
Quando não se consegue criar, compreender ou transformar, julga-se. O julgamento vira compensação psíquica, não virtude.

Existe uma hierarquia silenciosa na forma como lidamos com a realidade — dura, mas precisa. Uma frase popularmente atribuída a Eleanor Roosevelt resume bem isso:
“Pessoas sábias falam sobre ideias; pessoas comuns falam sobre coisas; pessoas medíocres falam sobre pessoas.”

Não se trata de elitismo intelectual, mas de foco existencial.
Quem vive falando da vida alheia geralmente está fugindo da própria. Falar do outro anestesia. Olhar para si exige coragem.

E aqui entra um ponto decisivo: não existe julgamento inocente.
Por isso o aforismo contemporâneo, de autoria incerta, mas de lucidez desconfortável, acerta em cheio ao dizer:
“Não julgue os outros só porque os pecados deles são diferentes dos seus.”

O erro muda de forma, de contexto e de aparência.
A fragilidade humana, não.

Séculos antes da psicologia profunda, Jesus Cristo já havia identificado o mecanismo com precisão cirúrgica. No Sermão da Montanha, registrado no Evangelho de Mateus (7:5), ele não adoça a fala:
“Hipócrita, tira primeiro a trave do teu olho, e então verás claramente para tirar o argueiro do olho do teu irmão.”

A frase é brutal porque é verdadeira.
Uma trave — não um cisco.
Um bloco inteiro de inconsciência tentando corrigir detalhes na vida alheia.

E aqui está o ponto que quase sempre é ignorado: Jesus não proíbe julgar o outro. Ele apenas estabelece uma ordem. Primeiro ver-se. Depois falar. Primeiro integrar. Depois orientar. Julgar sem consciência não é amor — é ego travestido de virtude.

O problema do nosso tempo não é o erro. É a obsessão em encontrar culpados.
Qualquer coisa vira caos porque o caos já está dentro. O mundo apenas aciona o gatilho.

Cada pessoa está em um estágio diferente do processo.
Cada uma tropeça em armadilhas próprias.
Algumas caem onde você já caiu.
Outras, onde você ainda vai cair.

Julgar alguém por estar perdido é esquecer quantas vezes já chamamos o labirinto de destino.

Quando a consciência amadurece, algo muda radicalmente: percebe-se que não há divisão real. O que vejo no olho do outro sou eu mesmo. Julgar o outro é julgar a mim. Sempre foi.

Por isso cuidar da própria vida não é egoísmo.
É responsabilidade.

Autoconhecimento cansa.
Cura dói.
Lapidação machuca.

Mas é o único caminho que não produz mais violência.

Talvez seja por isso que tão poucos o escolhem.
É mais fácil acusar do que integrar.
Mais confortável condenar do que atravessar.
Mais rápido falar dos outros do que sustentar o encontro consigo mesmo.

Mas chega uma hora em que o barulho cansa.
E então nasce uma decisão silenciosa e radical: minha luta é comigo.

Não com o mundo.
Não com a moral da semana.
Não com o erro alheio.

Quando isso acontece, o julgamento perde força.
Não porque alguém virou melhor —
mas porque virou mais inteiro.

E talvez cuidar da própria vida, em silêncio, sem tribunal e sem aplauso, seja o gesto mais revolucionário que ainda nos resta.

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Neemias Moretti Prudente é escritor, advogado, professor, filósofo míscômico e editor-chefe do Factótum Cultural.

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