Por Livros & Grimórios

Há livros que ensinam a educar crianças.
E há livros que fazem algo mais incômodo: educam o adulto que a criança terá de suportar.
O livro de Philippa Perry não é sobre criar filhos perfeitos.
É sobre parar de transmitir feridas emocionais disfarçadas de educação.
Logo no título, a autora entrega a chave:
não se trata do que fazemos com nossos filhos,
mas do que carregamos sem perceber — e despejamos neles.
O ponto central: ninguém educa sem antes revelar a própria história
Philippa Perry parte de uma premissa simples e devastadora:
Não é possível criar uma criança saudável ignorando a própria infância.
Antes de falar de limites, rotinas, birras ou comportamentos, ela aponta para o elefante na sala:
os pais também foram crianças — muitas vezes não vistas, não ouvidas, não acolhidas.
E aquilo que não foi elaborado
não desaparece.
Vaza.
O livro mostra como padrões emocionais — abandono, rigidez, medo, invalidação, controle — atravessam gerações não por maldade, mas por inconsciência emocional.
A herança invisível: apego, vínculo e repetição
A base teórica do livro está na teoria do apego, mas Perry a traduz para uma linguagem viva, cotidiana, humana.
Ela mostra que crianças não precisam de pais perfeitos.
Precisam de pais emocionalmente disponíveis.
O problema não é errar.
O problema é não reparar.
Pais que:
- não sabem pedir desculpas
- não toleram frustração
- confundem autoridade com medo
- invalidam sentimentos
- projetam expectativas não vividas
acabam criando crianças que aprendem a:
- se desconectar de si mesmas
- agradar para sobreviver
- reprimir emoções
- viver em alerta
- confundir amor com tensão
O livro é claro: comportamento não nasce no vácuo — ele é resposta a vínculos.
Educação emocional: o que realmente molda um ser humano
Philippa Perry desmonta a obsessão moderna por “técnicas” parentais.
Quadros de recompensa, castigos sofisticados, discursos bonitos — tudo isso é secundário.
O que realmente educa é:
- como lidamos com nossa raiva
- como reagimos ao erro
- como escutamos
- como frustramos sem humilhar
- como acolhemos sem sufocar
A criança aprende mais observando o adulto regulando emoções do que obedecendo regras.
Aqui o livro se torna quase um espelho cruel:
ele revela que muitos conflitos com filhos são, na verdade, gatilhos da própria infância.
O adulto ferido educa para se proteger
Um dos pontos mais fortes do livro é mostrar como pais, sem perceber, usam os filhos para:
- preencher vazios emocionais
- corrigir a própria história
- provar valor
- evitar abandono
- controlar o caos interno
Isso não é feito por maldade.
É feito por desespero inconsciente.
Perry insiste:
criar filhos não é um projeto de redenção pessoal.
É uma relação viva, que exige presença, não perfeição.
Relação acima de controle
O livro rejeita tanto o autoritarismo quanto a permissividade.
O eixo central é relação.
Limites são necessários — mas só funcionam quando há vínculo.
Autoridade nasce da conexão, não do medo.
Uma criança regulada não é a que obedece sempre.
É a que se sente segura o suficiente para sentir.
Nossa leitura
Na Coluna Livros & Grimórios, este livro é lido como um ritual de interrupção de ciclos.
Ele dialoga diretamente com:
- Não Começou com Você (Mark Wolynn)
- teoria do trauma
- psicologia junguiana (projeção)
- espiritualidade prática
Philippa Perry não escreve como guru.
Escreve como alguém que sabe que amar também pode machucar quando não há consciência.
Este livro não promete filhos fáceis.
Promete algo mais valioso:
relações menos adoecidas.
Conclusão
O livro que você gostaria que seus pais tivessem lido não é um manual de parentalidade.
É um convite à maturidade emocional.
Ele ensina que:
- seus filhos não precisam da sua perfeição
- precisam da sua honestidade
- da sua capacidade de reparar
- do seu compromisso em não repetir automaticamente o passado
Ler este livro é aceitar uma verdade simples e dura:
a maior herança que deixamos não é o que damos aos filhos,
mas o que conseguimos curar antes de criá-los.
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📚 Cada livro é um feitiço. Se abriu este, talvez queira decifrar também:
✍️ Editores do Factótum Cultural





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