Escrever Para Não Enlouquecer – Por Neemias

“Deixa eu voltar para a simulação, tenho muito a aprender, pois lá eu esqueço.”
— frase dita pelo Guruji Txai Jocymar ao despertar de um sonho
Há frases que não pertencem a quem as diz.
Elas atravessam alguém — e seguem adiante.
Jocy me contou que acordou pronunciando essa frase, sem imagens, sem cenário, sem narrativa. Não havia personagens nem história. Apenas a consciência emergindo e, logo depois, o corpo arrepiado, como se a matéria tivesse sido tocada por algo que não nasceu nela.
A força da frase não está na palavra “simulação”, mas no complemento que a acompanha: “pois lá eu esqueço.”
Esquecer, aqui, não aparece como falha, mas como condição.
Parto de uma premissa clara e assumida: somos seres espirituais vivendo uma experiência na matéria. A consciência, em si, não precisa aprender no sentido intelectual. Ela não acumula dados, não progride por informações. Ela simplesmente é. Apenas ‘EU SOU‘. O que ela não tem, fora da experiência humana, é vivência.
E vivência exige limite.
Exige tempo.
Exige esquecimento.
Se a consciência permanecesse plenamente consciente de si mesma, não haveria risco. E sem risco, não há escolha real. Não há ética, não há coragem, não há contraste, não há dualidade (e sim singularidade), não há sofrimento (e dor), não há amor encarnado. Tudo se tornaria contemplação estática — perfeita, talvez, mas etéreo.
O esquecimento (véu) não é um erro do sistema.
É o método.
Minha própria jornada espiritual sempre passou por esse paradoxo. Houve despertares, compreensões profundas, momentos claros de unidade e pertencimento ao todo. Mas nenhum deles me retirou da vida. Pelo contrário: todos me devolveram a ela com mais responsabilidade. Porque compreender não é o mesmo que viver.
O amor só ensina quando pode ser perdido.
O sofrimento só transforma quando é sentido.
A escolha só existe quando o resultado não é conhecido.
Por isso, a frase do Jocy não pede fuga da experiência humana. Ela pede retorno. Reconhece que há algo a ser aprendido aqui — não com a mente, mas com o corpo, com as relações, com o tempo, com a impermanência.
A espiritualidade que busca apenas escapar do mundo erra o alvo. A maturidade espiritual não está em abandonar a matéria (forma), mas em habitá-la conscientemente, mesmo sabendo que ela é transitória, imperfeita e, muitas vezes, dura.
Talvez o gesto mais elevado da consciência não seja lembrar de tudo.
Mas aceitar esquecer — para que algo possa, enfim, ser vivido de verdade.
Hoje, essa frase já não é apenas de um Guruji Txai. Ela também me pertence. Porque descreve com precisão algo que venho compreendendo ao longo do caminho: não estamos aqui por ignorância, mas por escolha. Voltamos para a simulação (matrix) não porque estamos perdidos, mas porque ainda há vida a ser vivida — e experiência a ser atravessada.
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⚡ Neemias Moretti Prudente é escritor, advogado, filósofo míscômico e editor-chefe do Factótum Cultural.





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