Janeiro Branco é uma campanha nacional brasileira que promove a conscientização sobre a saúde mental e emocional

Janeiro chega sempre com uma promessa meio mentirosa.
Ano novo, vida nova, coragem nova — como se a mente obedecesse calendário.
Mas há alguns anos eu aprendi, do jeito mais duro possível, que o problema nunca foi o ano. Era o silêncio.

Janeiro Branco não é uma campanha bonita.
É um espelho.
E espelhos não consolam — revelam.

Falar de saúde mental, para mim, nunca foi teoria. Foi sobrevivência.
Houve um tempo em que eu funcionava por fora e apodrecia por dentro. Trabalhava, escrevia, sorria, resolvia a vida dos outros… enquanto ignorava a minha própria ruína emocional. Não era fraqueza. Era desconexão.
E desconexão prolongada vira abismo.

A maior mentira que nos contaram é que sofrimento psicológico é falta de força.
Não é.
É excesso de carga.
É uma mente que apanhou calada por tempo demais.

Janeiro Branco existe para lembrar algo simples e profundamente esquecido:
mente também adoece.
E quando adoece, muda tudo — a fé, os relacionamentos, o trabalho, o corpo, o sentido da vida.

Não adianta falar de sucesso, espiritualidade, produtividade ou propósito se a cabeça está em guerra. Não existe iluminação com ansiedade crônica não cuidada. Não existe maturidade emocional sem dor enfrentada. Não existe futuro saudável quando o presente está sendo apenas suportado.

Eu aprendi que pedir ajuda não me diminuiu.
Me devolveu.

Terapia não me fez fraco.
Me fez honesto comigo mesmo.

E aceitar que eu não dava conta sozinho foi o primeiro gesto real de autocuidado da minha vida adulta.

Janeiro Branco não é sobre diagnosticar ninguém.
É sobre escutar.
É sobre parar de romantizar o esgotamento.
É sobre parar de chamar de “fase” aquilo que já virou pedido de socorro.

Se você chegou até aqui cansado, irritado, vazio, dormindo mal, fugindo de si mesmo — não normalize isso. Não espiritualize o que é psicológico. Não silencie o que precisa ser dito.

Cuidar da mente não é luxo, não é moda, não é frescura.
É coragem.
É responsabilidade consigo e com quem caminha ao seu lado.

Que este sábado não seja só mais um texto lido.
Que seja um pequeno estalo interno.
Daqueles que não fazem barulho, mas mudam rotas.

Porque viver não deveria ser apenas aguentar.
E existir não deveria doer em silêncio.

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E não se esqueça: Sábado, nossa coluna “Escrever para Não Enlouquecer” fala sério — mas só porque o universo exige equilíbrio. Segunda a gente volta com humor para os dias difíceis.

Neemias Moretti Prudente é escritor, advogado, filósofo míscômico e editor-chefe do Factótum Cultural.

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