RESUMO

Este artigo apresenta uma revisão teórica sobre o comportamento assertivo no ambiente de trabalho sob a perspectiva do Behaviorismo Radical. Investiga-se a assertividade como uma classe de respostas operantes selecionadas por consequências sociais, em oposição a visões disposicionais de personalidade. A análise aborda o impacto de ambientes coercitivos na supressão de repertórios proativos, utilizando os conceitos de dreno comportamental, controle coercitivo e metacontingências. Discute-se a correlação funcional entre a falha na emissão de respostas assertivas e o desenvolvimento de quadros de estresse ocupacional e Burnout. Conclui-se que a promoção da saúde mental nas organizações depende do rearranjo de contingências, substituindo o controle aversivo por estratégias de reforçamento positivo e treinamento de habilidades Sociais.

Palavras-chave: Assertividade; Behaviorismo Radical; Psicologia Organizacional; Saúde Mental no Trabalho; Controle Coercitivo.

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ABSTRACT

This article presents a theoretical review of assertive behavior in the workplace from the perspective of Radical Behaviorism. Assertiveness is investigated as a class of operant responses selected by social consequences, as opposed to dispositional views of personality. The analysis addresses the impact of coercive environments on the suppression of proactive repertoires, using the concepts of behavioral sink, coercive control, and metacontingencies. The functional correlation between the failure to emit assertive responses and the development of occupational stress and Burnout is discussed. It is concluded that the promotion of mental health in organizations depends on the rearrangement of contingencies, replacing aversive control with positive reinforcement strategies and Social skills training.

Keywords: Assertiveness; Radical Behaviorism; Organizational Psychology; Mental Health at Work; Coercive Control.

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A ASSERTIVIDADE COMO COMPORTAMENTO OPERANTE

Muitas vezes, a assertividade no ambiente corporativo é erroneamente descrita como um “traço de personalidade”, uma espécie de carisma nato que alguns possuem e outros não. Todavia, sob o rigor da Análise do Comportamento, a assertividade despe-se de interpretações mentalistas para revelar sua verdadeira natureza: ela é uma classe de respostas operantes (Skinner, 2003).

Diferente de um reflexo, eliciado por um estímulo anterior, o comportamento assertivo no trabalho é selecionado por suas consequências. Quando um colaborador expressa um limite, faz uma crítica construtiva ou negocia um prazo, ele não está apenas “falando”; ele está operando sobre o ambiente organizacional. Se essa operação produz um reforçador positivo (como a resolução de um conflito ou o respeito de um par), a probabilidade de essa resposta ocorrer novamente no futuro aumenta.

Entretanto, no campo das organizações modernas, frequentemente atua como um “processo de extinção”. Em sistemas pautados pela coerção e pelo controle aversivo, a resposta assertiva é punida ou ignorada, o que seleciona, por sobrevivência, o silêncio ou a agressividade. Compreender a assertividade como operante significa devolver ao indivíduo e à gestão a ferramenta da modelagem: a percepção de que a comunicação eficaz não é um dom herdado, mas uma tecnologia comportamental refinada pela interação contínua entre o sujeito e o mundo que o cerca.

A análise a seguir busca desbravar como essas relações funcionais moldam o cotidiano laboral, transformando a “voz” do colaborador no principal motor de saúde e eficácia organizacional.

O comportamento assertivo no contexto de trabalho pode ser compreendido, a partir do Behaviorismo Radical, como uma classe de respostas operantes selecionadas socialmente por suas consequências. Nessa perspectiva, a assertividade não é tratada como traço de personalidade, característica disposicional ou estado interno, mas como um repertório comportamental adquirido e mantido por contingências específicas presentes nas interações organizacionais. A análise do comportamento assertivo exige, portanto, a identificação das relações funcionais entre estímulos antecedentes, respostas emitidas pelo indivíduo e consequências produzidas no ambiente de trabalho (Skinner, 2003).

Em ambientes organizacionais caracterizados por controle excessivo, punição frequente e acesso restrito a reforçadores positivos, observa-se a redução da variabilidade comportamental. Esse empobrecimento do repertório pode ser analisado à luz do fenômeno descrito por Calhoun (1973), no qual contextos densamente aversivos produzem padrões estáveis de esquiva, passividade e colapso das interações sociais. No trabalho, tais condições favorecem respostas agressivas ou submissas, em detrimento de comportamentos assertivos que possibilitariam a modificação das contingências vigentes e o aumento do controle funcional do indivíduo sobre o ambiente.

Do ponto de vista analítico-comportamental, respostas assertivas são controladas por estímulos sociais discriminativos, como solicitações, críticas, cobranças ou conflitos interpessoais, e são fortalecidas quando produzem consequências reforçadoras, tais como redução de estímulos aversivos, acesso a recursos materiais ou simbólicos, reconhecimento social ou maior previsibilidade ambiental. Quando respostas assertivas são sistematicamente punidas, ignoradas ou seguidas de consequências aversivas, ocorre sua extinção ou supressão, com aumento concomitante de respostas de esquiva, silêncio ou submissão (Skinner, 2006).

O estresse ocupacional, nessa abordagem, não é compreendido como uma variável interna causal, mas como um conjunto de relações funcionais entre eventos ambientais aversivos e respostas do organismo. Cannon (1932) e Selye (1956) descreveram alterações fisiológicas associadas à exposição prolongada a tais contingências; contudo, para a Análise do Comportamento, o foco explicativo permanece na função das respostas emitidas diante de demandas excessivas, imprevisíveis ou coercitivas. A exposição contínua a contingências desse tipo, sem possibilidades eficazes de fuga ou esquiva, favorece padrões comportamentais de retraimento, exaustão e redução do engajamento, frequentemente descritos na literatura como Burnout (Maslach, 1982).

A manutenção desses padrões comportamentais está diretamente relacionada ao uso sistemático de controle coercitivo nas organizações. Sidman (1989) descreve a coerção como o controle do comportamento por meio de punição, ameaça ou retirada de reforçadores, destacando seus efeitos colaterais, como medo, esquiva, agressividade e diminuição da criatividade comportamental. Em contextos de trabalho, práticas coercitivas tendem a suprimir o comportamento assertivo, uma vez que a emissão de respostas de confronto, negociação ou discordância passa a estar associada a consequências aversivas, fortalecendo repertórios submissos e pouco funcionais.

Além disso, a análise do comportamento no trabalho deve considerar as práticas culturais que organizam e mantêm determinadas contingências sociais. Glenn (2004) propõe que padrões comportamentais recorrentes em organizações podem ser compreendidos como produtos de metacontingências, nas quais práticas institucionais selecionam e mantêm repertórios individuais específicos. Sob essa perspectiva, a ausência ou fragilidade do comportamento assertivo não pode ser atribuída exclusivamente ao indivíduo, mas às práticas culturais que reforçam conformidade, silêncio e obediência em detrimento da participação ativa e da comunicação funcional.

No campo da psicopatologia, quadros como a depressão podem ser analisados funcionalmente como uma redução generalizada de comportamentos mantidos por reforçamento positivo, acompanhada pelo aumento de respostas de esquiva (Skinner, 2006). Embora modelos cognitivos descrevam crenças e pensamentos disfuncionais (Beck et al., 1997), a Análise do Comportamento enfatiza a perda de contato com contingências reforçadoras no ambiente. A fragilidade do repertório assertivo intensifica esse processo, na medida em que limita o acesso a reforçadores sociais relevantes no contexto organizacional, como apoio, reconhecimento e cooperação.

Intervenções baseadas no Treinamento de Habilidades Sociais e na modelagem por aproximações sucessivas têm demonstrado eficácia na aquisição de comportamentos assertivos (Del Prette; Del Prette, 2017). Nessas intervenções, respostas assertivas são diferencialmente reforçadas, enquanto respostas agressivas ou passivas deixam de produzir consequências reforçadoras. Estratégias que reduzem o uso de punição e minimizam o custo aversivo da aprendizagem favorecem a manutenção e a generalização do repertório assertivo para diferentes situações de trabalho (Terrace, 1963).

Conclui-se que o comportamento assertivo no trabalho deve ser compreendido como um repertório operante selecionado por contingências sociais e práticas culturais específicas. A promoção desse repertório depende menos de mudanças internas no indivíduo e mais do rearranjo das contingências organizacionais que controlam o comportamento. A substituição de sistemas baseados em coerção por práticas fundamentadas em reforçamento positivo tende a produzir ambientes de trabalho mais funcionais, com maior variabilidade comportamental, menor esquiva e relações interpessoais mais eficazes.

REFERÊNCIAS

BECK, A. T. et al. Terapia cognitiva da depressão. Porto Alegre: Artmed, 1997.

CALHOUN, J. B. Death squared: The explosive growth and demise of a mouse population. Proceedings of the Royal Society, Londres, 1973.

CANNON, W. B. The wisdom of the body. New York: Norton, 1932.

DEL PRETTE, A.; DEL PRETTE, Z. A. P. Competência social e habilidades sociais: manual teórico-prático. Petrópolis: Vozes, 2017.

GLENN, S. S. Individual behavior, culture, and social change. The Behavior Analyst, v. 27, n. 2, p. 133–151, 2004.

MASLACH, C. Burnout: the cost of caring. New Jersey: Prentice-Hall, 1982.

SELYE, H. The stress of life. New York: McGraw-Hill, 1956.

SIDMAN, M. Coercion and its fallout. Boston: Authors Cooperative, 1989.

SKINNER, B. F. Ciência e comportamento humano. 11. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2003.

SKINNER, B. F. Sobre o behaviorismo. 10. ed. São Paulo: Cultrix, 2006.

TERRACE, H. S. Errorless discrimination learning in the pigeon. Journal of the Experimental Analysis of Behavior, v. 6, n. 1, p. 1–27, 1963.

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Adriano Nicolau da Silva, Psicoterapeuta, Neuropsicopedagogo e Neuroeducador. Graduado em Psicologia e Filosofia. Especialista nas áreas de educação e clínica. Uberaba, MG. Colunista do Factótum Cultural. E-mail: adrins@terra.com.br

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