Por Livros & Grimórios

Este livro não é simples.
Ele carrega duas lâminas diferentes do budismo primitivo — e quem lê sem perceber isso perde metade do impacto.
A edição Dhammapada – Caminho da Lei e Atthaka – O Livro das Oitavas reúne dois textos canônicos distintos, oriundos de tradições e momentos diferentes do cânone pali, mas colocados lado a lado por decisão editorial moderna.
O resultado não é apenas um livro — é uma tensão espiritual deliberada.
De um lado, o Dhammapada: um manual ético, prático e disciplinar.
Do outro, o Atthakavagga: um texto antigo, áspero, quase iconoclasta, que não ensina a viver melhor — ensina a abandonar toda posição mental, inclusive a espiritual.
Lidos juntos, eles não se confirmam.
Eles se desafiam.
I. O Dhammapada: domar a mente para cessar o sofrimento
O Dhammapada é provavelmente o texto budista mais conhecido do mundo — e também um dos mais mal compreendidos.
Aqui, o Buda não fala de iluminação súbita, experiências místicas ou transcendência abstrata.
Ele fala de algo muito mais incômodo: conduta, vigilância e responsabilidade mental.
O ponto central do Dhammapada é claro:
“A mente precede todas as coisas.
Tudo é criado pela mente.”
O sofrimento não vem do mundo, nem de deuses, nem do destino.
Ele nasce da mente indisciplinada, dominada por desejo, aversão e ignorância.
O texto insiste em temas como:
- controle da mente
- domínio dos impulsos
- ética como inteligência prática
- impermanência
- desapego
- esforço consciente
Não há perdão divino.
Não há salvação externa.
Há lei (Dhamma): ação gera consequência porque a realidade funciona assim.
O Dhammapada ensina como viver sem se autodestruir.
II. O Atthakavagga: quando até o caminho precisa ser abandonado
Se o Dhammapada constrói, o Atthakavagga desmonta.
Este texto — parte do Sutta Nipāta e considerado por muitos estudiosos como um dos registros mais antigos do ensinamento do Buda — é radical, seco e profundamente desconcertante.
Aqui, o Buda não ensina normas.
Ele ataca diretamente o apego a visões, opiniões, identidades e doutrinas.
O alvo do Atthakavagga não é o desejo comum —
é o ego espiritual.
O texto afirma, em essência:
- quem se apega a uma visão já está em conflito
- quem defende uma posição cria oposição
- quem diz “eu sei”, já se afastou
- quem se identifica com qualquer doutrina ainda não está livre
O sábio, segundo o Atthakavagga:
- não se fixa
- não disputa
- não se define
- não se posiciona
- não transforma o caminho em identidade
É um texto que dissolve até mesmo o budismo como “sistema”.
III. O choque entre as duas obras (e por que isso importa)
Colocar Dhammapada e Atthakavagga no mesmo volume não é neutro.
É explosivo.
Porque o leitor vive uma sequência perigosa:
- Primeiro, aprende a disciplinar a mente (Dhammapada).
- Depois, aprende que nem essa disciplina deve virar apego (Atthakavagga).
O Dhammapada ensina a construir um caminho.
O Atthakavagga ensina a abandoná-lo no momento certo.
Um sem o outro gera distorção:
- só Dhammapada → moralismo rígido
- só Atthakavagga → niilismo confuso
Juntos, eles apontam para a maturidade espiritual:
usar o caminho
sem se tornar o caminho
IV. A mente, o ego e a libertação
Lido como conjunto, este livro oferece uma das visões mais completas do budismo antigo:
- o ego nasce da reação mental
- a ética serve para estabilizar a mente
- a disciplina reduz o sofrimento
- mas a libertação final exige não se agarrar nem à disciplina
A iluminação, aqui, não é uma conquista.
É uma desidentificação.
O sábio não é quem sabe mais.
É quem não precisa sustentar nenhuma identidade.
V. Nossa leitura
Na Coluna Livros & Grimórios, este livro é lido como um manual em duas fases:
- Fase 1 (Dhammapada): organizar a mente, reduzir o caos, cessar a autossabotagem.
- Fase 2 (Atthakavagga): abandonar toda posição, inclusive a espiritual.
É um livro que conversa diretamente com:
- Jung (desidentificação do ego)
- Chris Niebauer (ilusão do eu)
- o Zen
- a não-dualidade
- a crítica à espiritualidade performática
Aqui não há promessa de paz emocional.
Há lucidez radical.
Conclusão
Este livro não entrega conforto.
Entrega liberdade, mas cobra caro por ela.
O Dhammapada ensina a viver corretamente.
O Atthakavagga ensina a parar de se definir por qualquer correção.
Juntos, eles mostram algo raro:
o caminho existe
mas não deve virar prisão
Quem lê este livro até o fim percebe que o último apego a cair
é o apego à própria busca.
E quando isso cai,
o silêncio permanece.
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✍️ Editores do Factótum Cultural





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